domingo, abril 4

Surpresas Divinas em cada dia

O meu último post continha uma promessa: dar notícias em breve! Passaram 3 meses… talvez para alguns a definição de “breve” abrange esses 3 meses! Porém, quando o escrevi queria mesmo dizer “muito em breve”! Não pude cumprir essa promessa. As minhas desculpas. Mas aqui estou… quanto mais não seja para vos saudar com um abraço de amizade no Senhor Jesus Ressuscitado. Quanto não valem as festas cristãs para nos “obrigar” (com muito gosto!) a reactivar os laços de amizade.
Durante estes 3 meses devo confessar que foram muitas as surpresas de Deus – positivas e também as menos felizes...
P. Filipe e P. Hubert na celebração da missa na familia Sakal

Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão. Muitos conhecidos e conhecidas da paróquia. A família Sakal é uma das poucas famílias com convicções cristãs fortes na nossa paróquia. Os Pökot são de tradição poligâmica (em que um marido pode ter várias esposas).

O casal Sakal à esquerda com os seus padrinhos de casamento

Naquele dia queriam juntar todos os seus afilhados de Baptismo, de Crisma e de Casamento. Ao mesmo tempo convidaram os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento também. Num local onde os “católicos praticantes” - isto é, “comungantes” - são poucos, podemos já imaginar que o casal Sakal foi chamado a apadrinhar muitas crianças, jovens e ainda alguns matrimónios.
Nesse dia, toda a vizinhança teve um dia de festa. E festa aqui significa também uma refeição melhorada com um pouco de arroz e carne, algo bem raro nas dietas diárias deste povo.
Foi lindo o momento em que o casal apresentou todos os seus afilhados uns aos outros. Ainda emocionante foi ver o gosto com que no final da missa apresentaram a todos os presentes os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento.

Um aspecto de toda a assembleia

A razão de tanta festa saída das próprias palavras do casal deixa qualquer missionário contente com o empenho desenvolvido ao longo dos anos na missão. Disseram: “quisemos juntar-nos hoje somente para aprofundarmos o que significa ser padrinho ou madrinha da fé que nasce em cada um de nós. Queremos que na nossa paróquia sejamos mais e mais conscientes do que realmente significa apadrinhar ou apoiar alguém na sua caminhada de fé na igreja.” Confesso que fiquei surpreendido e maravilhado como Deus vai realizando tantas maravilhas no meio deste povo que apenas há 35 anos começou a escutar a Palavra de Deus.

Preparando a comida

Um “espinho duro” no coração
Um dos momentos mais difíceis para mim na missão até hoje aconteceu no início de Março deste ano. Aquilo que era previsto ser uma greve dos alunos da escola secundária masculina (aqui mesmo ao lado da missão) acabou por ter contornos bem dolorosos.
O dia ainda começava a clarear quando fomos despertados aqui na missão por gritos. Os estudantes tinham começado a atirar pedras e a bater no director da escola. Corremos eu e o meu colega P. Hubert. Ao chegarmos demos com uma multidão de estudantes enfurecidos a destruir o escritório do director com ele lá dentro. Alguns mesmo batiam-lhe com paus arrancados dos ramos das árvores do recinto da escola. Imediatamente acudimos o Director da escola e tentámos defendê-lo da fúria enraivecida dos alunos. Não os conseguimos acalmar mas pelo menos conseguimos defender o pobre Director de ficar mais ferido ou mesmo de o chegarem a matar. Eu não acreditava no que via à minha frente. Quase 2 centenas de estudantes que mais pareciam guerreiros com pedras e paus nas mãos, prontos para avançar não fosse eu e o meu colega estarmos entre eles e o Director. Em vão corria eu à frente dos rapazes tentando acalmá-los. Pelo contrário, tentavam ludibriar-me para chegar até ao escritório do Director onde estava também o meu colega P. Hubert. Tomou 30 minutos à polícia para chegar para que os estudantes dispersassem da escola. Esse dia foi muito longo pois logo se sucederam reuniões de emergência para ver o que fazer a seguir. A escola foi encerrada por uma semana. Foi a semana mais dura desde a minha chegada à missão. Tudo porque todos os dias dessa semana foram necessários para reuniões com uma espécie de Conselho Escolar onde pais, autoridades locais, professores e o “patrocinador” da escola (a paróquia da Missão) estamos presentes. Depois foi necessário receber cada um dos estudantes um a um para tentar perceber os motivos da rebelião. Acabámos por expulsar 8 alunos da escola e mandar outros 7 de suspensão por 2 semanas
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Alunas da escola secundária para raparigas
recentemente aberta em Serewo

O mais doloroso foi aperceber-me que o motivo profundo e trágico deste grave acontecimento é o tribalismo. Os Pökot começaram a enviar os seus filhos para a escola de uma forma mais geral apenas há uns 10 anos a esta parte. Há muito poucos naturais preparados para assumir cargos como professores, médicos, enfermeiros e mesmo pessoal técnico dos mais diversos campos. Por isso, há muitas outras pessoas de outras tribos que aqui prestam serviços como professores, médicos, enfermeiros. Parece que neste momento os políticos locais começaram uma campanha de querer mandar todos os não-Pökot de outras tribos para fora deste local. O mais duro e puro tribalismo. Estou plenamente convencido que é uma campanha que começa no próprio representante Pökot no governo, uma espécie de governador do distrito. Algo grave que apenas nos mostra que ainda há muito trabalho para fazer até chegar ao coração dos Pökot com as palavras de Jesus: amor ao próximo, perdão e comunhão… Apesar de dura, esta experiência apenas me confirma que este é o lugar certo para onde Deus me enviou no momento justo e na altura certa: a missão é testemunho da Verdade, do Amor e da Compreensão. Para mim, estas são razões mais do que suficientes para querer continuar aqui a servir o Reino de Deus – a missão a que Deus me enviou!

Ainda assim… o triunfo da VIDA!
Esta Páscoa foi a primeira passada aqui na missão de Kacheliba. O ano passado encontrava-me a terminar o curso da língua swahili na Tanzania. E claro que foi bem especial…
Todos já escutámos como a Páscoa vivida na missão é sempre especial. Se esperamos celebrações litúrgicas seguidas à risca pelos cânones litúrgicos pois essas não as encontramos aqui. E talvez isso seja mesmo aquilo que torna a vida da Igreja em África… digamos que… diferente!

Adolescentes baptizados na noite de Páscoa em Konyao

Ontem à noite celebrei a vigília pascal numa das nossas capelas mais distantes chamada Konyao, a uns 50km de Kacheliba, 1 hora de viagem (se tudo corre bem!!!). Esperavam-me 18 adolescentes para serem baptizados depois de 2 anos de Catecumenado. Juntar-se-iam nesta noite os cristãos de 2 capelas para celebrar os baptismos de novos cristãos.
Logo à chegada foi necessário prover a luz à capela pois ali ainda não há electricidade. Com uma bateria, um inversor de corrente e umas gambiarras com lâmpadas já podemos “dar à luz”. A capela estava bem composta e ao longe já escutava os ensaios dos cânticos para uma noite que seria longa.
Depois de 3 horas e meia de celebração a alegria estava de facto estampada no rosto de todos. Realmente (pensava eu com os meus botões), a VIDA do RESSUSCITADO é algo incrivelmente grande e que enche o coração de todos os povos. Sejam eles mais ou menos instruídos. Mais ou menos profundos na sua fé…
O regresso à missão foi já de madrugada… com o único senão que viajava sozinho de regresso! Não… não tinha medo! Graças a Deus, neste momento, há segurança mesmo durante a noite. O único problema era mesmo se tivesse algum problema mecânico… aparte dos furos que são o “pão-nosso” de cada dia e que são normais nestas paragens! Tudo correu bem e à chegada, já perto das 2 da manhã, ainda encontrei os meus colegas a pé que também regressavam dos seus empenhos noutras capelas.
Hoje, dia de Páscoa, a manhã começou de novo cedo. Numa outra capela chamada Simotwo, esperavam mais adolescentes para serem baptizados. Pelo caminho tive que “inventar carreiros” para poder chegar à capela… a chuva das últimas semanas (outra surpresa linda e bem apreciada de Deus) tinha tornado o caminho normal impraticável. Entre atalhos e “desatalhos”, lá chegámos com a graça de Deus.
Já a comunidade cristã estava reunida e entusiasmada praticando os cânticos pascais alegres depois do tempo da Quaresma. Durante toda a celebração a alegria de novos cristãos era bem evidente: sorrisos e cantos alegres ecoavam a cada momento. Os 7 adolescentes que foram baptizados e que receberam a comunhão pela primeira vez luziam de contentamento com as suas pequenas velas acesas. Era mais que evidente que a Graça e a Luz de Jesus Ressuscitado enchia os seus corações.

O sistema eléctrico à doc

Deus é sem dúvida o Deus das surpresas… boas e também as menos boas. É que em todas elas Ele nunca deixa de nos abençoar: nas boas enche-nos de alegria; nas menos boas dá-nos a sua força e coragem para enfrentarmos cada dia com o entusiasmo e a alegria da VIDA NOVA da RESSURREIÇÃO – ALEGRIA, PAZ, AMOR MÚTUO E ENTREGA DA VIDA PELOS OUTROS.


Grupo de adolescentes baptizados em Simotwo no dia de Páscoa

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS VÓS!
PASKA NYÖ KARAM
(Feliz Páscoa em Pökot)

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domingo, outubro 18

O meu Dia Mundial das Missões 2009

Como pode um missionário em pleno “terreno missionário” deixar de partilhar a sua missão no Dia Mundial das Missões? Claro que é bem mais forte do que ele…
É por isso que aqui estou de regresso. Há já muito tempo que o tempo não me dava tempo de “temperar” este espaço missionário. Aqui regresso hoje, na esperança de que esta partilha mais possa ajudar-nos a todos a viver este dia e mês missionário com um coração grande.


A capela de Lokelelian

Não… não me perdi nem estou em crise!
Sei que alguns de vós têm visitado este cantinho missionário e desde há muitas semanas que não encontram nada “de novo”. Alguns até já me escreveram a perguntar se estava bem, se ainda estava no Quénia, se tudo estava a correr bem… Outros mesmo chegaram a telefonar-me e enviar sms… A todos quero agradecer pela vossa preocupação e pelas vossas orações.
Mas de facto os últimos meses foram e têm sido de muito trabalho e também cansaço físico ao ponto de não encontrar um tempinho para partilhar convosco. Mas neste dia fiz uma promessa a mim mesmo de não falhar e… custe o custar aqui estou convosco mais uma vez.
A verdade mesmo é que me sinto muito feliz e cada vez mais integrado na realidade desta missão que Deus me confiou. Um dos meus colegas (já com 75 anos!) foi de descanso à Itália por 2 meses. Ficamos só eu e o P. Hubert. Trabalho triplicado pois claro! Graças a Deus já regressou para desanuviar um pouco o trabalho!



Lá onde o Evangelho acaba de chegar
Em toda a minha vida missionária, este foi o meu primeiro Dia Mundial das Missões que vivi como missionário em pleno “terreno missionário”, entre este meu povo querido, os Pökot. Todos os outros anos tinha-os vivido ou em Nairobi, capital deste país (durante os meus estudos de teologia) ou em Portugal, terra missionária também mas, convenhamos, de características distintas! E não podia ter sido mais bonito e realizador.
Tocou-me celebrar a Eucaristia hoje numa das nossas capelas mais recentemente abertas: Lokelelïan a escassos 2km da fronteira com o Uganda.
A capela ou a Igreja… bom… essa foi construída pelos próprios cristãos deste lugar: uns ramos de sisal servem de paredes e uns ramos já secos protegem um pouco do sol tórrido destas paragens. Cristãos propriamente ditos (baptizados) não há muitos. O facto de a poligamia ser praticada por este povo faz com que muitos “cristãos de coração” não possam receber o baptismo. No entanto, não deixam de estar presentes e de rezar cada semana nesta que é a sua Igreja.



Muitas das pessoas começaram mesmo a escutar há muito pouco tempo a Palavra de Deus e o facto de Deus se ter feito Homem em Jesus Cristo. Töroröt, como conhecem e chamam a Deus desde há séculos, esse é bem mais “conhecido”. Mas o Deus Pai de Jesus Cristo e da bíblia, esse, é ainda demasiado recente por estas terras para que mesmo os cristãos baptizados O possam conhecer verdadeiramente.

A alegria que paira no ar
Lokelelïan fica a cerca de 1h15m do centro da missão em Kacheliba. 45 minutos de 4x4 e outros 30 minutos a pé. Sim porque os últimos 6 km demoram “apenas e somente” 30 minutos a percorrer tal é o “tapete” todo o terreno que temos que atravessar. Ainda antes de chegar ao local onde deixar o carro para depois caminhar, já estavam dois cristãos à minha espera. Um mais jovem que o outro. Tinham vindo arranjar a estrada em alguns lugares para que tivéssemos menos problemas em passar. Graças a Deus, mesmo que fora de época para as colheitas, as chuvas parecem estar a chegar e tem já chovido em alguns lugares. Era o caso de Lokelelïan. Por isso todo o cuidado é pouco para não se ficar encalhado na lama.
Ainda ao longe já se escutavam as batidas dos tambores e os cantos dos cristãos que já se encontravam na capela. À chegada a alegria do costume e sempre tão renovadora e nova, distinta! Li nos rostos sorridentes e no ritmo das palmas uma alegria verdadeira e sincera pela chegada do missionário.

A missão é dar e receber
Na sua mensagem para este Dia Mundial das Missões o Papa lembrava (assim como as leituras da eucaristia de hoje) que o trabalho do seguidor de Jesus não é outro senão aquele do Serviço. E assim mesmo me senti hoje com estes cristãos amigos de Lokelelïan. Depois da celebração da missa (cerca de 2 horas), sempre cheia de vida e de alegria, entre o meu arranhado Pökot e o Kiswahili (celebramos a missa em 2 línguas, imaginem!), pela segunda vez consecutiva na visita a esta capela, é “pecado mortal” virar costas sem pelo menos tomar um chazinho à moda do Quénia. Confesso que a hospitalidade desta comunidade (como muitas outras também) ensinariam a muitos de nós, ditos civilizados, as boas maneiras de hospedagem. É a “boma” (conjunto de várias cabanas onde a família Pökot vive) da Mama Lilian, uma das primeiras cristãs desta comunidade. Um sorriso sempre lindo e acolhedor. Uma profundidade no seu olhar sereno e confiante. Eu até estava com um pouco de pressa para regressar à missão, mas de nada me valeu… depois do chazinho (também partilhado com os outros cristãos) presentearam-me com uma garrafa de Sprite, algo bem raro nestas paragens e sobretudo naquele local da nossa missão.

A casa do catequista construida pouco a pouco

Terão caminhado alguns kms para acompanharem o prato de feijão e milho cozidos com esta pequena-grande carícia. Missão é sem dúvida um dar e receber. Dar e dar-se assim como Jesus; receber talvez não tanto valores materiais mas gestos muito simples e sinceros destas pessoas que valem por milhões! Gestos que demonstram que é no dar e receber que nós cristãos encontramos verdadeiramente a felicidade.


Com estudantes que me acompanharam hoje na "Boma"

Com um coração cheio de bênçãos de Deus e destes gestos tão simples e tão enriquecedores é feita a vida do missionário; sentimentos compensadores de outras tantas desventuras e dificuldades que também são parte do dia a dia da missão. Mas… como dizia, S. Daniel Comboni, “as obras de Deus nascem aos pés da Cruz” – lugar de desolação e sofrimento mas também lugar do nascimento da Vida plena em Deus!
Para todos vós uma boa continuação do mês missionário sempre sem se esquecerem que de facto, todos nós temos e devemos e somos de facto missionários do Amor do Pai.

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domingo, maio 31

Começando a entrar nos esquemas… da missão!

Hoje, 24 de Maio, dia da Ascensão do Senhor, presidi e fiz a homilia em Kiswahili pela primeira vez. Celebrei duas missas. A primeira foi com os estudantes da escola internato aqui da missão, a escola primária. Começamos pelas 8.15h e depois a missa seguinte às 10,30h, ainda que a hora de começo na verdade é às 10.00h. Mas estamos em África!!!
Aspecto da celebração da missa na Missão de Kacheliba

Esta segunda missa é com as pessoas aqui de Kacheliba e ainda os alunos da escola secundária também aqui da missão. É também uma escola de internato. Muitas das escolas aqui são internatos pois as pessoas vivem muitas vezes bem longe das escolas e por isso têm que enviar os filhos para a escola e ficar em regimes de internato… no entanto as condições não são nada comparáveis aos nossos colégios internos… nem por sombras! É a necessidade que faz termos os internatos.
Senti-me de verdade muito bem. Penso que os 4 meses que foram investidos na aprendizagem da língua foram bons. Eu tive que me preparar escrevendo a homilia, pensando ler nas missas. Sim, li um pouco mas a um dado momento pus o papel de parte e fui por aí fora. Mais de acordo com gramática ou menos, o importante é que as pessoas no final da missa me disseram que entenderam bem o que quis dizer; diziam ter entendido bem a explicação do evangelho. Posso dizer-vos que sentia um pouco de medo ao começo. Não é o mesmo que o inglês ou muito menos que o Português… mas sinceramente senti que tantos os alunos como as pessoas me seguiam. Pelo menos iam respondendo também ao que lhes ia perguntando durante a homilia… Creio que este foi um primeiro passo que dei e que agora será já com mais e mais confiança. Além do mais, o kiswahili aqui do Quénia não é o kiswahili dos professores na escola da língua… é muito mais fluente e por vezes as regras gramaticais não existem… Assim que me sinto muito feliz por mais este passo na inculturação e na introdução da vida missionária.

Crianças Pokot durante uma celebração
numa das capelas... ao ar livre!

Visitas às capelas
Ao longo desta semana pude visitar com o meu colega Hubert, várias capelas bem como escolas das quais somos os “patrocinadores”, aqui dizem em inglês, sponsors! Em toda a paróquia creio que são há volta de 20 escolas primárias de quem somos “sponsors”, ou seja, foi a missão a começar as infra-estruturas. Muitas delas não têm ainda as salas de aula para os 8 anos que compõem a escola primária aqui no Quénia. As escolas sempre foram uma das grandes prioridades da missão, depois do trabalho de evangelização. Há 30 anos não existiam praticamente escolas nenhumas aqui na zona.
Na sexta-feira, dia 22 de Maio, eu e o Hubert saímos daqui da missão ao final da manhã para uma reunião numa das escolas não muito longe aqui da missão. Uns 20 minutos de carro. Porém, por causa de um grande rio que enche e é bem largo quando chove (como estes dias!) torna este lugar quase inacessível para lá chegarmos de carro. Neste dia a “estrada-picada” até não estava nada mal. A reunião começou pelas 13.30h. Era uma reunião com o representante da área do ministério da educação. Há aqui em cada escola uma espécie de Comissão Escolar, o que em Portugal seria o Conselho Pedagógico, de que fazem parte o “sponsor”, o director da escola, representantes do governo e pais. Isto parece tudo muito oficial e pomposo, mas na realidade são comissões constituídas pelas pessoas do lugar. O problema era que a anterior comissão era provisória. Numa dessas comissões, imaginem, o presidente era uma pessoa cega, um dos pais, e o tesoureiro não sabia ler nem escrever… Parece anedótico… mas era verdade! Não é que seja mau que as pessoas diminuídas fisicamente ou culturalmente façam parte destas comissões… pelo contrário, mas a preparação destas pessoas aqui não é a mesma que o mundo ocidental muitas vezes oferece. Parece que a anterior comissão conseguiu dinheiro de um fundo monetário do governo e construíram a escola com salas de aula novas. Antes a escola funcionava em apenas 2 salas de aula construídas há uns anos atrás pela missão. Muito bem! Chamaram um construtor local para o trabalho… das 8 salas de aula apenas 4 podem ser usadas pois as outras estão a ponto de cair… sem nunca terem sido usadas! A construção foi muito pobre. A reunião começou debaixo de umas árvores no terreno da escola. Nas reuniões aqui todos falam, bom… pelo menos os anciãos e os homens. As mulheres é-lhes dada voz já depois de todos terem falado e dado a sua opinião… infelizmente, pois muitas vezes são as mães as grandes interessadas na educação das crianças. A um dado momento, depois de já 3 horas de reunião, a chuva ameaçou! Fomos todos para dentro de uma sala de aula. E a reunião continuou até às 6.30 da tarde, ou seja, depois de 5 horas de reunião, foi constituída uma nova comissão escolar. Aquilo que mais me chamou a atenção é a forma como as pessoas têm a capacidade de resolver problemas entre eles… Os anciãos são de verdade pessoas cheias de experiência e muitas vezes são os grandes construtores da união entre este povo. Mas também se dão para o torto, são os principais factores de desavenças entre as pessoas… O importante é que no final todos estávamos contentes com o resultado da reunião. Este ano a escola tem apenas duas classes-anos a funcionar, muitas vezes com poucos alunos, como estes dias. Isto porque tradicionalmente os Pökot não são ainda muito abertos à educação das crianças. Muitas vezes enviam as crianças à escola pois, pelo menos na escola, geralmente, as crianças podem ter uma refeição. Apesar de que neste tempo de fome, sabemos de escolas a quem o governo não enviou comida suficiente e os alunos não têm muito para comer. Esta escola é uma delas…
Anciãos Pokot - os "juízes" locais

Também temos problemas logísticos...
Na quarta-feira anterior também tivemos uma outra reunião numa das nossas capelas. Desta vez bem mais longe daqui da missão. Mais de um hora por caminhos que só são “arranjados” quando o missionário vem para visitar a comunidade. Por fim lá chegamos. Desta vez o problema era diferente. Há 20 anos o terreno para a construção da capela foi doado ou comprado pela missão (não sabemos!). É cerca de 1 hectare. O ancião morreu há 2 anos. A sua mulher (parece que este só tinha uma ao contrário de muitos outros!) juntamente com os filhos (um deles é guarda em Mombasa… a 1200km daqui!) reclamam o terreno, ou querem apenas que o terreno da capela fique reduzida a um espaço de ¼ do hectare… Certamente que este caso é, aí em Portugal, um caso de tribunal… até porque não sabemos se há algum acordo escrito ou não deste terreno. De qualquer forma o terreno é dos cristãos desse lugar e por isso terão que ser eles também a decidir junto com os anciãos como resolver este problema. E mais uma vez, é linda a forma como as pessoas se escutam! Todos intervêm (normalmente os homens, ainda que aqui foram também as mulheres que são muitas vezes as que vêm mais à Igreja… tal como aí em Portugal!). Escutam-se, procuram clarificar coisas e por fim os anciãos são os juízes que decidem o que fazer. Até o chefe local representante do Governo nesta localidade, uma espécie de presidente da junta, está na reunião, mas são os anciãos aqueles que têm o poder tradicional de decidir. Desta vez parece que a pobre senhora e os filhos não vão conseguir muito, uma vez que os anciãos pareciam perguntar-lhes… porque é que esperaram que o velhote morresse para reclamar?!?! No entanto adiamos a decisão até uma outra reunião com eles em Agosto para procurarmos bem pelo documento ou acordo de utilização do terreno para a capela. Mais uma vez… foram os anciãos aqueles que procuram decidir as coisas. Tivemos ainda tempo de visitar a escola dessa localidade… com 8 salas de aulas, mas as paredes são feitas como as cabanas nesta área… só que com chapa de zinco por cima. Estão a planear, com a ajuda da missão e do governo, eles mesmos construir uma escola com condições mais permanentes. Veremos…
Na quinta-feira tivemos ainda outra reunião numa outra capela, junto com os cristãos e os anciãos para procurar um substituto do catequista para aquela capela… como vedes… muitas reuniões… muitas coisas até a parecer muito oficiais… mas todas debaixo da árvore… está-se melhor e mais frescos!
Anciãos Pokot durante uma celebração comunitária

Muitas pessoas não têm que comer em casa
Mas até hoje, aquilo que mais me tem chocado e até feito pensar muito é que em todos os lugares que vamos as pessoas pedem-nos ajuda. Este tempo é de facto um tempo em que muitas pessoas estão a passar fome. As últimas colheitas foram muito escassas e além do mais há já muito tempo. Todos os dias pela manhã e durante o dia temos pessoas aqui à porta a pedir ajuda. Certamente que algumas delas talvez não necessitam assim tanto, ou não querem fazer nenhum… e aí está a grande dificuldade que me parte o coração… saber quem realmente necessita. Graças a Deus tem chovido bastante e vemos que muitas pessoas têm cultivado bastante. Diz o Hubert que mais do que em outros anos. Porém, até que o milho, o centeio ou a cevada (uma espécie de cevada!) cresçam e estejam prontos para serem transformados em alimento, ainda temos os meses de Junho e Julho. As colheitas começam apenas para meados de Agosto. E digo-vos sinceramente que este tem sido o maior desafio que tenho experimentado desde que cheguei aqui à missão. Nesta semana terminei de escrever uma lista de 616 pessoas que em toda a paróquia estão necessitadas. São listas que os catequistas nos trouxeram das capelas. Não incluímos na lista toda a gente pois todas as listas tinham cerca de 2000 pessoas! Pedimos-lhes que indicassem apenas aqueles que estão mesmo necessitados por serem idosos, doentes ou incapacitados. Entregámos essa lista ao Sr. Bispo pois ele mesmo prometeu ajudar com alguns sacos de milho. Estes dias, recebemos a confirmação de que o Sr. Bispo vai enviar cerca de 100 sacos de milho, cerca de 9000kg de milho. Também nós, aqui na missão, comprámos também outros 100 sacos de milho. Ao todo são cerca de 18mil kg de milho. Iremos distribuir pelas 52 capelas 3 sacos (270kg) para serem distribuídos por aquelas pessoas necessitadas. Serão os nossos catequistas a distribuir. Ficaremos com um maior número de sacos aqui na missão pois é onde mais pessoas vêm pedir ajuda. Não é muito, mas pelo menos é um pequeno gesto que ajudará a aliviar um pouco estes tempos de dificuldade. Cada saco custa-nos cerca de 27 euros, pelo que será uma boa maquia, mas cremos que bem empregues para ajudar esta gente. Calculamos que os 200 sacos de milho possam dar para sensivelmente 55 mil refeições. Isto quer dizer que podemos alimentar cerca de 900 pessoas durante estes dois próximos meses, até às próximas colheitas, se Deus ajudar com a chuva. No entanto, este é um trabalho de distribuição sempre muito difícil… quem é que não está necessitado estes dias?!?!
Na verdade, as necessidades são muitas, e dou-me conta também que entre as pessoas mesmas, aquelas que podem e têm um pouco mais porque têm trabalho aqui no centro ou mesmo na missão, elas mesmas ajudam muitas outras pessoas. É o caso da nossa cozinheira e da cozinheira das irmãs, ou o nosso construtor, também ele africano, que todos os dias alimentam a muitas outras pessoas também… situações que de facto nos fazem pensar…
Mas como dizemos aqui em kiswahili, “Mungu atatusaidia kwa sababu anatupenda sana”, ou seja, “Deus ajudar-nos-á porque muito nos ama!”

Ugali - comida típica africana: farinha de milho
preparada aqui para o "manjar" de um casamento

E a vida na missão continua… sempre com as vossas orações amigas! Bem hajam! Sörö nyo man – Muito obrigado em língua pökot.
"Pensamentos do meu diário"
Kacheliba, 24 de Maio 2009
Festa da Ascensão do Senhor

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domingo, maio 24

Regresso em cheio!

Eis-me de regresso à terra Pökot – Kacheliba! Depois de 4 meses de estudo intensivo da língua kiswahili na Tanzania, eis que é chegado o momento de me instalar definitivamente na missão.Poderia dizer que os meus dois primeiros dias deste regresso foram um aperitivo bastante apaladado: eucaristia debaixo das árvores, crianças a aprender a ler e a escrever debaixo de outras árvores, ser bons samaritanos e ajudar a polícia a desenvencilhar-se da sua pick-up atascada no rio, furo no nosso carro, cruzar o rio a pé antes de nos aventurarmos com a pick-up…, enfim… aquilo a que chamaria a vida de um missionário aventureiro no tempo das chuvas por estas paragens. Mas a Missão é muito mais do que isto…

Regressei a Kacheliba no dia 13 de Maio. Não! Não o escolhi de propósito. Apenas e tão somente aconteceu. Alguns dos nossos jovens lusitanos costumam dizer “correu mal” quando algo não saiu da forma esperada. Bom… no meu caso diria “Não podia ter corrido melhor!” Talvez (ou será mesmo isso) Deus queria dizer-me que a sua bênção por intercessão de Maria estaria sempre comigo. Senti que Maria chegava comigo a Kacheliba nesse dia. E por isso não devo temer seja o que for. Não fosse eu um bom portuga e devoto de N. Sra. de Fátima.
O meu superior e colega de missão, P. Giancarlo Guiducci já estava à minha espera em Kitale. Esta á a cidade mais próxima da nossa missão onde costumamos ir às compras. Fica a 80km de Kacheliba. 40 dos quais em estrada alcatroada. Os restantes 40 são em terra batida. Mas… encontrei a estrada muito melhor do que a deixei em Janeiro passado. Aqui trabalhou-se durante estes meses.
Surpresa das surpresas… à minha chegada o meu colega P. Hubert tinha preparado um bolo para celebrar a minha chegada. Digamos que um pedacito de bolo aqui nestas paragens é de facto uma raridade. Nesse dia também jantámos com a comunidade das irmãs franciscanas, a nova congregação que entretanto veio trabalhar aqui em Kacheliba depois da partida das Irmãs Combonianas em Março passado. É uma comunidade pequenina a das irmãs: duas irmãs africanas, a Irmã Agnes e a Irmã Ciprian. Uma é a encarregada do dispensário ou Centro de Saúde aqui da missão. A mais jovem, a Irmã Ciprian dá aulas na escola primária da missão. Desde logo me senti em casa. A Mama Tereza, a senhora que ajuda as Irmãs nas lides da casa, lançou-me um sorriso de alegria do meu retorno de tal forma que logo percebi que era bom sentir-me em casa de novo.
Logo pela manhã do dia seguinte saí com o meu colega P. Hubert. Fomos visitar uma capela que foi começada há bem pouco tempo, há poucos meses. Tão poucos que ainda nem sequer se prevê a construção da capela. Graças a Deus, na nossa paróquia podemos chegar a todas as capelas com a pick-up. Ainda que para isso algumas vezes seja necessário sair do carro e com a machada, cortar uns arbustos ou árvores que entretanto cresceram no meio do caminho. Outras vezes, no tempo das chuvas, temos que atravessar rios sazonais. Desta vez não fomos nós a atascar-nos no rio… já alguém lá estava a “dar de beber aos cavalos” (do jipe)! Nada mais nada menos que o carro da polícia. Escoltavam um outro jipe das Nações Unidas para chegar até uma escola a menos de 1km do rio. A UN anda a fazer um levantamento das escolas que recebem ajuda para a alimentação das crianças. Há que arregaçar as calças (as mangas não pois aqui anda-se sempre de manga curta!), tirar as sandálias e meter-se ao riacho para ajudar a resolver o assunto. Mais ou menos tempo decorrido, sempre se arranja maneira de retirar de lá o jipe. Fomos à nossa vida e chegámos à nossa capela com o nome bastante simples de Katukumwok. Fácil de pronunciar não? Debaixo de umas árvores, estava uma cadeira e um banquito. “Podemos celebrar aqui?” – perguntou o catequista. “Claro que sim!” – respondemos de imediato. “Uma mesa e outra cadeira estão a caminho” – retorquiu ainda o catequista. Mais tarde vi que a mesa tinha sido transportada à cabeça por uma das senhoras desde uma distância de pelo menos 2km!
A uns metros dali estava a escola pré-primária… claro está também debaixo das árvores. Contei as crianças: 23! “Mas são muitas mais” – disse-nos o professor. “Os outros estão com os pais nos campos! Por isso não puderam vir. Estão com os pais a ajudá-los a cultivar os campos!” Crianças de 4, 6, 7 anos? – pensei. É verdade! Estamos no tempo das chuvas e como aqui as chuvas são também escassas e incertas muitas vezes, há que aproveitar o tempo e as chuvas para plantar um pouco de milho e de soja. Os Pökot, por natureza e tradição, não são agricultores. São pastores. Mas há já bastantes que começaram também a cultivar terrenos. Um dos frutos de 30 anos de trabalho missionário também nestas paragens. Foi bonito por isso ver pelo caminho fora as pessoas nos campos. Sente-se a esperança no ar, a esperança de poder recolher algo dos campos. A alegria do dom das chuvas, dádiva de Ilat – o espírito das chuvas – um dom maior do Deus Töroröt, Deus Único em língua Pökot.
Voltamos às crianças da escola pré-primária. Quiseram presentear-nos com uma canção a Maria. Ao princípio estavam um pouco envergonhados. Raramente vêem o missionário e muito menos um branco. Lindo! Um ritmo e uma cadência no canto que deixariam algumas bandas rock envergonhadas!
Começamos a eucaristia. O meu colega celebra a missa em língua Pökot, mas tudo o resto é em língua swahili, depois traduzida para Pökot pelo catequista. Sim… é verdade! A língua kiswahili em vários lugares da nossa paróquia/missão não é suficiente. Especialmente as senhoras e os anciãos, que não foram à escola, falam apenas o Kipökot. Sim! Adivinharam… dentro de alguns meses tentarei também aprender o Kipökot… outra língua mais! Apenas e só que esta é bem mais difícil que o kiswahili. Veremos!
É normal que as pessoas aqui celebrem a missa com todo o à vontade e também com tudo aquilo que são: simples e puros, celebrando a louvando a Deus Töroröt com toda a alegria e simplicidade. As mães com o seus filhotes ao colo, muitas vezes até a serem amamentados, seguem as palavras do meu colega P. Hubert como alguém que deseja saber mais e mais sobre o amor de Deus por eles e por toda a humanidade. É confortante saber como, mesmo no meio de tanta simplicidade, há nestes corações dos Pököt uma ânsia de conhecer e saber mais sobre Deus, sobre Jesus, sobre a nossa vida voltada para Ele. Na Europa e no mundo assim dito “civilizado” Deus já passou de moda… já não precisamos dele (pelo menos assim pensam alguns!). Aqui, conhecer Deus e escutar como Ele nos ama mesmo nas mais degradantes situações, é um privilégio que muitos Pököt não têm acesso.
No regresso à missão, já a meio da tarde, pude também observar a apanha dos “kumbekumbe”, uma espécie de insectos que são um dos melhores petiscos cá destas terras no tempo das chuvas. Normalmente nascem e crescem dentro dos formigueiros. Há toda uma técnica especial para os apanhar. Secam-nos ou torram-nos e depois serve-se frio com uma pitada de mais nada. Assim mesmo. Crus. Tenho que experimentar um dia destes… pode ser que me saibam a saudosas moelas ou pataniscas!
Regressámos à missão sem outras complicações, graças a Deus. Pelas 4 e tal da tarde tomamos o nosso almoço quase como nos casamentos… mas olhai que aqui não houve casamento nem aperitivos em casa da noiva antes da cerimónia… Houve sim alegria! Pelas 6 da tarde a capela estava quase cheia na celebração da missa com os jovens da escola secundária para a missa que celebramos com eles todas as quintas-feiras. Uma alegria e jovialidade como poderão imaginar.
O dia não podia terminar sem outra situação do dia a dia da missão. Todos os dias o gerador da missão é ligado pelas 7 da noite até às 9 e pouco uma vez que aqui nesta missão ainda não temos electricidade pública. Temos cerca de 300 jovens da escola primária e secundária da missão nos internatos. É necessário por isso prover-lhes com alguma luz para o estudo nocturno também. Nesse dia o gerador não queria começar… levamos o carro para ligar a bateria pensando que poderia ser da bateria do mesmo gerador. Nada! Verificámos tudo e nada… bom tudo não… quase tudo! Afinal era um dos fusíveis que estava queimado. É que aqui não temos as páginas amarelas para ir procurar um técnico para nos resolver o problema… ou o resolvemos nós ou então ninguém o resolve… O “busca-busca” do problema não foi à luz da vela mas sim à luz das pilhas ou foxes como assim chamamos na minha terra. Só faltava a música psicadélica como nas discotecas…
No dia seguinte dirigimo-nos para a outra missão comboniana nesta região Pökot. Encontramo-nos com os outros missionários e missionárias para um dia de retiro. Escusado será dizer que o carro vai sempre cheio de pessoas. Há sempre gente a querer movimentar-se e a pedir boleia. Felizmente hoje em dia já há alguns transportes públicos mas algumas pessoas não podem sequer pagar a viagem assim que se dirigem aos missionários para pedir boleia. Levamos connosco um dos nossos catequistas, dois estudantes combonianos que farão a sua experiência missionária nessa missão, e mais algumas pessoas. São cerca de 120km em estrada de terra batida… às vezes, no tempo das chuvas, não tão batida quanto seria desejável, pois em vários momentos tivemos que sair fora da estrada-picada para fugir à lama e poças de água que nos poderiam deixar atascados. Felizmente conseguimos passar todos os possíveis problemas com maior ou menor facilidade. A um dado momento chovia que “Deus a dava”! Pobres pessoas que iam atrás na pick-up. Tivemos que parar para recolher-nos por uns momentos numa das cabanas perto da estrada. Chegámos até bem perto da missão. Mas havia um último obstáculo: atravessar o rio que levava alguma água no seu leito, suficiente para nos fazer esperar uma meia hora. Atravessámos o rio várias vezes a pé. É a primeira coisa que tem que ser feita ao queremos atravessar um rio. Tirar de novo as sandálias, arregaçar as calças até acima do joelho e meter-se rio dentro. Eu e o meu colega Hubert, assim que entrámos no rio a pé, logo concordámos que haveria que esperar para ver se o rio baixava…
Entretanto tivemos tempo de ainda pôr no devido lugar o pneu que tínhamos furado uns quilómetros antes… mas os furos aqui são “tão naturais como a sua sede” – como dizia a publicidade.
Por fim, achamos que poderíamos atravessar… já depois de mais de meia hora de espera. E lançamo-nos ao rio… sempre numa incerteza mas com a certeza suficiente de que poderemos atravessar sem muitas dificuldades. Pulo aqui e pulo acolá, lá conseguimos atravessar para alívio dos que vinham connosco, bem como nosso também.
No dia seguinte, o retiro foi oportuno para agradecer a Deus pela boa viagem que tivemos… por nos ter permitido chegar bem a Amakuriat, o nome da outra missão comboniana em terras Pökot. Aqui está mais uma comunidade missionária comboniana entre o povo Pököt: 3 sacerdotes e 4 irmãs missionárias combonianas.
Legendas fotos:
Foto 1: Crianças referidas no artigo da escola debaixo da árvore em Tandopos
Foto 2: Mães Pokot referidas no artigo na comunidade de Tandapos
Foto 3: Crianças Pokt durante a missa em Tandapos
Foto 4: Escola primária com 8 salas de aula em Lokornoi

Kacheliba, terra Pökot (Quénia) – Maio 2009

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terça-feira, maio 5

Retalhos da minha vocação...

Este é um trabalho preparado pelo grupo de jovens U'Trilho de Nogueira do Cravo, Diocese do Porto - Portugal. Retrata alguns dos passos da minha vida até à minha partida de regresso ao Quénia em Novembro passado (2008). Foi apresentado no magusto paroquial onde se realizou também uma pequena celebração de envio (ou re-envio!) para o Quénia. Obrigado malta por tão linda recordação... Sois um espectáculo! Que o Senhor vos continue a abençoar... e... "Sempre p'l UTrilho! bem hajam!

BEM HAJAM A TODOS!

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domingo, janeiro 4

Ano novo mas… os problemas de sempre!

Viajei ontem, dia 2 de Janeiro, desde a missão que me tocou em terras Pökot, Kacheliba, até Nairobi. Dentro de uma semana devo partir com outros três colegas meus para a Tanzânia. Iremos estudar durante quatro meses a língua swahili, muito necessária para trabalhar nestes países da África do leste.
Esta manhã, depois do merecido descanso das 9 horas de viagem com cerca de 500km percorridos por estradas ou por caminhos com o nome de estradas, pude ler com calma o jornal diário do Quénia, coisa a que não me é possível aceder em Kacheliba. E… bom! Ano Novo… mas os problemas são os de sempre.

A noite de 31 de Dezembro 2008 na missão de Kacheliba era tudo menos a habitual de todos os dias. Era evidente que esta era uma noite diferente. Logo que anoiteceu, começa-se a ouvir a celebração de fim de ano nos altifalantes da Igreja Independente Africana no centro de Kacheliba. Apenas a um escasso quilómetro da nossa missão. Nós, católicos, tínhamos já celebrado ao final da tarde desse dia. Agradecemos ao Senhor Deus Töroröt Papo, todas as bênçãos e benefícios do ano de 2008, pedindo-lhe também as maiores bênçãos para o ano novo, sempre aguardado com muita esperança. Porém, ao acordar do outro dia, do outro ano, a esperança é confrontada com os problemas de ontem: um ano com colheitas muito fracas, falta de acesso a água potável, começo do tempo seco que produz falta de alimentos, falta de dinheiro para enviar os filhos e filhas para o começo do novo ano escolar…
No entanto, a esperança dos povos africanos é algo de único e muito peculiar. Para uma grande maioria é a esperança que os mantém vivos. A única coisa que lhes resta. Ainda que saibam que pouco pode mudar, tantas vezes! Mas o testemunho e a confiança que nos dão, o não baixar os braços diante das dificuldades, diante dos problemas de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, é algo que nos faz pensar no significado da vida, no significado e razão de viver.
O som dos cânticos animados na Igreja, a pregação feita bem ao estilo protestante por um lado, bem como os sons da típica e pacífica noite Pökot por outro traziam-nos na expectativa do raiar de um novo ano. Ao longe, nos intervalos das celebrações da Igreja Protestante, escutava os sons celebrativos dos cânticos Pökot, ao redor da fogueira, no meio da escuridão da noite. Misturado com os sons humanos, percebia os sons dos animais, das cabras e das ovelhas. Quase como que também eles fazendo a sua festa de passagem de ano.
Chegada a meia noite, o começo do Ano Novo, houve explosão de alegria no ar. Gritos, cantos, tambores, todo o tipo de sons e expressões. Explosão de alegria por causa da esperança e das bênçãos que cada dia e cada noite são para o povo Pökot. No entanto, para muitos outros Pökot, mais no interior das suas aldeias, esta noite é apenas e tão só uma mais como tantas outras… é que isto de festas de passagem de ano é algo mais ocidental!!!

No dia seguinte, dia 1 de Janeiro, tocou-me ir com o pároco da missão a uma das nossas capelas celebrar a Eucaristia. O lugar chama-se Simotwa. Uma comunidade a cerca de 25 minutos do centro da missão. Porém, uma comunidade que durante o tempo das chuvas fica completamente isolada devido ao largo rio que tem que ser atravessado. Neste tempo seco a pickup consegue percorrer os cerca de 300mt de areia no leito do rio para depois chegar à capela. Porém, dizia-me o meu colega P. António, no tempo das chuvas temos que vir a pé, isto se pudermos e conseguirmos atravessar o rio. Caso contrário, a comunidade fica isolada durante meses. O grande problema é sempre encontrar o caminho correcto para a aldeia. Isto porque, seja no tempo seco seja no tempo das chuvas, os trilhos e os caminhos desaparecem pura e simplesmente. Há que adivinhar mais ou menos a olho a correcta direcção, para depois ter mesmo que inventar os trilhos e caminhos a percorrer.
Depois de esperarmos cerca de uma hora e meia para que os cristãos chegassem para a celebração (algo que é da praxe!) os cristãos desta comunidade mostraram a sua alegria pela vinda dos missionários: ofereceram-nos um bode! E esta é uma oferta valiosa. Os animais são para os Pökot o seu meio de sustento nas relações sociais e humanas. Seja para vender para conseguir dinheiro para comida, para tratamentos médicos ou mesmo para enviar os filhos à escola (algo que era bastante raro em anos anteriores).
Esta comunidade tem a sorte de a missão ter ali construído uma escola primária que visitámos enquanto esperávamos pela chegada das pessoas. Uma escola bem equipada para ter sido construída no meio do nada. Uma escola que é o orgulho da aldeia. Uma escola que tem as oito turmas que compõem a educação primária neste país.
Regressámos à missão com a certeza de que tínhamos celebrado de novo a esperança de um amanhã diferente. Um amanhã e uma esperança que não sabemos quando se concretizará. Mas uma esperança que nos faz acreditar que algo virá e mudará, ainda que este país pareça estar a levantar-se paulatinamente dos problemas que o assolaram há um ano atrás, depois das eleições mais sangrentas na curta história do Quénia desde a sua independência em 1963.

Ontem, ao longo da viagem, pude avistar ao longe vários campos de refugiados internos causados pela violência pós-eleitoral que há um ano deixou em dois meses, segundo números oficiais, 1133 mortos e cerca de 350 mil pessoas refugiadas no seu próprio país. Como é que, depois de um ano, as autoridades e o governo deste país não resolveram ainda o problema destes milhares de quenianos que foram forçados a fugir das suas casas e áreas de residência sob pena de serem mortos? No jornal de hoje é ainda referido que as vítimas da Igreja incendiada em Eldoret onde morreram 35 pessoas, entre elas algumas crianças, estão ainda na morgue do hospital desta mesma cidade. Esperam que os testes de ADN estejam finalizados. Esses testes destinam-se a identificar as vítimas, uma vez que ficaram irreconhecíveis. Este episódio que correu as televisões de todo o mundo no dia 1 de Janeiro de 2008 ainda não foi encerrado. As famílias, depois de um ano, continuam à espera dos corpos dos seus familiares para proceder às cerimónias fúnebres, tão importantes para a paz dos africanos depois da morte.
A violência pós-eleitoral do ano passado é ainda a responsável por uma lei sobre os meios de comunicação social que acaba de ser assinada ontem pelo presidente do país. Segundo os críticos, esta lei dá poderes aos políticos de governar sobre toda a indústria dos média. Podem, inclusive, mandar cortar editoriais e conteúdos programáticos dos jornais e televisões em ocasiões de emergência. Sob as mesmas circunstâncias, podem mesmo mandar a polícia destruir computadores e máquinas de imprensa escrita e televisiva. Segundo muitos, este é o fim da liberdade de imprensa no país, fazendo-os acreditar que voltamos aos tempos da ditadura até 2002 sob o governo de Daniel arap Moi. Problemas de sempre… apesar do ano novo!

No meio de todos os tumultos, um caso feliz… aquele que tantas vezes mantém viva a confiança e esperança destes povos. No bairro de lata de Kibera, o maior de todo o país, apenas aqui ao lado da casa provincial onde me encontro neste momento, surge uma notícia feliz. Doze crianças pobres deste bairro acabam de receber cada um bolsas de estudo de uma organização não governamental para prosseguir os seus estudos na escola secundária. Razão: no ano passado, ainda durante toda a tensão e conflito pós-eleitoral, estes 12 adolescentes, em condições degradantes de insegurança e onde tudo parecia tornar-se num colapso, conseguiram pontuações entre os 100 melhores estudantes nos exames nacionais finais da escola primária. Um caso de sucesso que só confirma a renovação da esperança que estes povos nunca parecem perder… apesar de tudo e acima de tudo!

P. Filipe Resende, mccj
Relatos da Missão em Kacheliba
North Pökot – Quénia

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quarta-feira, dezembro 24

Noeli Njema! Bom Natal!


Encontro-me na missão de Kacheliba desde há 3 semanas. Esta missão fica situada no noroeste do Quénia, já praticamente na fronteira com o Uganda. Todo o território da missão fica situado num grande vale, numa região semi-desértica, a savana africana. O território da missão é o semelhante a 2/3 do distrito do Porto… e aqui estamos 3 padres missionários e 3 irmãs, uma delas já com 80 anos! Como podeis imaginar trabalho não falta.
O povo que habita esta região do país é o Povo Pökot. Pastores por natureza, habituados a uma vida dura devido ao clima quente e seco que caracteriza esta região durante quase todo o ano. Devido a isto, é um povo que tem que mover-se junto com os seus animais à procura dos melhores pastos. De facto, para um Pökot, o maior sinal de riqueza é possuir muitas cabeças de gado. O gado é o centro das suas vidas. Ficam admirados quando lhes dizemos que as vacas na Europa podem produzir até 15-20 litros de leite por dia. Aqui quando alcançam os 2 litros de leite já é uma bênção.
Desde que cheguei há cerca de 3 semanas, o meu trabalho tem sido ambientar-me e entrar nas dinâmicas da missão. Pude conhecer os catequistas que colaboram com a missão, uma vez que tiveram o seu encontro de formação apenas uns dias depois de aqui chegar. As pequenas comunidades/capelas da paróquia são cerca de 45, cada uma, geralmente, com um catequista responsável. Sem eles seria impossível levar para a frente o trabalho missionário. Estive também no encontro anual de jovens de toda a paróquia. Eram cerca de 100. Aliás, 75% da população Pökot tem menos de 30 anos de idade. Muita juventude e muita esperança de vida no futuro.
Foi ainda organizado mais um encontro do curso para os catecúmenos, aqueles e aquelas que durante cerca de 2 anos fazem a sua preparação para receber o Baptismo. Os que estão já na fase final de preparação são cerca de 160 em toda a paróquia. Irão receber o baptismo na próxima Páscoa.
Durante este tempo pude também visitar já algumas das capelas e comunidades. Ontem mesmo fui com o meu colega P. Hubert, alemão, celebrar no sopé das montanhas que são o limite da paróquia. Nesta comunidade pediam-nos para podermos passar e celebrar a Eucaristia mais vezes. É que normalmente só podemos celebrar a Eucaristia em cada capela duas ou três vezes por ano.
Durante este tempo fui observando as dinâmicas da missão e aquilo que me espera depois de regressar em Maio do curso da língua swahili (língua oficial do país), que iniciarei na Tanzânia, país vizinho do Quénia, agora no começo de Janeiro. Regressando, terei ainda que estudar a língua local Pökot, mais difícil ainda, mas sem a qual é muito difícil chegar até às pessoas.
Se Deus quiser, este Natal presidirei à minha primeira missa em língua swahili (que já começo a falar!). Na noite de Natal irei a uma comunidade junto com o catequista que depois fará a tradução para a língua local. Será um momento importante da minha vida missionária: presidir à eucaristia, pela primeira vez, na missão que Deus me confiou. Será como a minha “missa nova” na missão.
A seguir publico um pequeno texto sobre o Natal nestas paragens africanas que escrevi como reflexão e mensagem de Natal para enviar aos amigos.

Um menino nasceu para nós… e depois?

Há dias os Pökot do norte do distrito fizeram uma razia junto dos seus vizinhos, os Turkana. Foi em Amakuriat, a outra missão Pökot desta nossa zona missionária, 120km a norte. Há tempos de paz e tempos de roubo de animais e, por vezes, matança de pessoas. Tradicionalmente, só os guerreiros eram vítimas deste tipo de roubos de animais. Ultimamente até crianças e mulheres são mortos.
Em consequência, são várias as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, que têm dormido no espaço da missão. Têm medo da vingança do povo vizinho. Alguns jovens Turkana já foram vistos na vizinhança. E não viram com boas intenções… querem vingar a morte das suas mulheres e crianças.

Hoje, domingo antes do dia de Natal, fui com o meu colega, o P. Hubert, celebrar a duas pequenas capelas. São comunidades que têm a celebração da eucaristia apenas duas ou três vezes por ano. São comunidades pequenas. Umas vinte pessoas em cada capela. Entre elas a maioria são mulheres e crianças. Mulheres com mais que uma criança. Uma ao colo e outra pela mão. Numa das capelas, uma das mães amamentava o seu bebé recém-nascido. Perguntei quando tinha nascido. “Há três dias, Padre Filipe!” Respondi: “E apenas com três dias já vieste hoje à celebração?” Eu sabia que teriam de ter caminhado pelo menos cerca de uma hora para chegar à capela. “Não vamos poder celebrar o nascimento de Jesus aqui na capela com a eucaristia. Assim que hoje é como se fosse para nós celebrar o Natal na Igreja” – respondeu-me. E com que alegria o celebraram… entre cantos alegres e sempre com os bebés ao colo. Ao primeiro sinal de choro há que pôr o bebé a mamar. Remédio santo!

Estas duas realidades na missão são o maior desafio que vivemos junto com este povo Pökot. Por um lado as tradições e a vida de todos os dias, onde a vida e a morte são apenas duas personagens da vida de todos os dias que vão de mão em mão. Por outro lado a fé nascente e crescente deste povo que apenas há bem pouco tempo começou a conhecer algo sobre Jesus. A esperança da celebração da vida no nascimento de crianças, a grande fatia da população Pökot, é aquilo que anima os poucos baptizados nesta terra árida e quente do distrito norte Pökot. É a esperança de que este Menino que nasceu para nós, encha de amor e de vida, vida em plenitude (Jo. 10,10), o coração de todos os que olham para a vida com alegria… os que olham para a vida com a esperança da Vida. Não a vida que apenas acaba com a morte, mas a Vida que começa e acaba com o Amor. É esse Amor aquilo que este Menino quer trazer a todos os corações. Aqui em Pökot e também ao meu e teu coração.
Um Menino nasceu para nós… e depois? Que tenho eu a ver com isso? Que tem Ele a ver comigo?

Um feliz e santo natal para todos vós. Que o Menino Deus de Amor, feito Homem para nós, possa encher o teu e o meu coração com as maiores bênçãos: Vida, Esperança, Alegria e acima de tudo Amor.

Relatos da Missão em Kacheliba
North Pokot - Quénia

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segunda-feira, dezembro 15

Casar na missão entre os Pökot

Costumamos dizer que em África não há horas. Há momentos. Momentos para ser vividos na sua plenitude e com todo o significado. Hoje, no casamento de um dos nossos catequistas, pude comprovar isto mesmo mais uma vez.

O meu colega, P. António Dolzan – há 30 anos nesta paróquia! – marcou a hora de saída: 9.00h da manhã. “Mas olha que - dizia-me - demoramos a chegar a Chepkemei cerca de 1 hora. Porém, a missa do casamento só deve começar por volta do meio-dia! Estamos em África!!!”
Tinha razão. Saímos há hora marcada. Um céu limpo com um sol risonho. Bom sinal. Não chove. É que no caminho para esta capela tínhamos que passar por 4 rios sazonais. Não chovendo hakuna matata (não há problema). No tempo das chuvas é impossível chegar a estas capelas, afirmava o meu colega missionário há medida que pulávamos a cada buraco na estrada… perdão: na picada!
Pelo caminho fomos parando aqui e ali para dar boleia àqueles que se dirigiam até Chepkemei para a grande festa.
Chepkemei é uma das capelas da nossa missão que fica já em cima da fronteira com o Uganda. Não! Não pensem que há fronteiras como as que conhecemos em Portugal. Aqui é tudo mato. A um dado momento já nem se sabe bem de que lado estamos. “A divisão entre os dois países são estes montes que vemos ao nosso lado. Mais ou menos é por aqui a fronteira!” – prosseguia o meu colega, o P. Dolzan.
O catequista desta capela é um jovem já casado segundo a tradição Pokot. Provou já ser capaz de ser homem e de consumar o casamento. Dois filhos são a prova disso. Um dos quais vem ainda às costas da Christine, esposa do nosso catequista – Abraham. Estranho, direis. Então um catequista de uma capela já com filhos e ainda não casado pela Igreja?!?! É verdade. Aqui a vida da Igreja pinta-se com outras cores. Tem outras matizes que confundem as mentes cristãs demasiado habituadas à institucionalização da vida sacramental da Igreja nos países de longa tradição cristã. Hoje não há baptismos, uma vez que o casal é já baptizado desde há uns anos.
Por volta das 10 da manhã chegávamos ao local. Uma pequena capela, aliás como todas na paróquia. “Mas P. António! Vocês vêm bem cedo! Ainda estamos a começar a organizar tudo Padre!” dizia-nos um outro catequista convidado de uma capela próxima. “Não há problema – reafirmou o meu colega – nós esperamos o tempo que for necessário! Viemos cedo para poder celebrar também o sacramento da reconciliação com os noivos e os padrinhos. Também para aqueles que o desejarem.” De facto, tínhamos chegado bem cedo. A celebração da eucaristia apenas começaria por volta da 1.30 da tarde!
Os primeiros convidados começam a chegar. Pouco a pouco, foi decidido que a celebração seria não dentro da capela, mas cá fora, à sombra. Debaixo das árvores. Certamente haveria muita gente, mais do que os poucos cristãos existentes nesta capela. A capela seria demasiado pequena para todos. É que um casamento de alguém, é uma celebração social para toda a região. Entre muitos convidados, a maioria não são cristãos católicos. Até mesmo o pastor da Igreja protestante mais próxima marca presença. Mas a grande figura do dia seria o ex-deputado deste concelho, o Sr. Moroto. Convidado de honra…
Entretanto, fui passeando pelo local. Nesta localidade existe uma escola primária construída pela missão. Apenas 4 classes, com 4 salas de aula. Ou seja, aqui nesta escola os alunos podem frequentar metade dos anos da escola primária. Ainda que, segundo o actual governo do país, todos as crianças deveriam ter acesso à educação primária de forma gratuita. A logística da escola (arranjar professores, alimentação, pessoal para manter a escola em funcionamento) é da responsabilidade do Governo. Porém, muitas vezes, é a missão a ter que cuidar também destes particulares.
A um certo momento, vi a cozinha improvisada para a festa. Rodeada de ramos espinhosos (para que as vacas e as cabras não entrem – em terra pokot estes animais têm livre trânsito) lá estavam dezenas de canecas de chapa preparadas para o chá. Vi também a pele de uma cabra pendurada. Foi morta para a festa. Dia de festa quer também dizer dia de comida melhorada com direito a uns pedacinhos de carne. O ugali (farinha de milho cozida) e os três panelões de arroz cozido já estavam prontos, mesmo que o dito almoço, ou melhor dito, a boda, não começasse antes das 5 da tarde.
O tempo corria ao ritmo africano. Era já 1 e meia da tarde e deveríamos começar a eucaristia. Já estava presente um bom número de pessoas, na sua maioria pouco mais de 20 cristãos desta capela. Mas faltava ainda o convidado de honra. Faltavam ainda os familiares dos “noivos-casados” que não chegavam. Pediram-nos para esperar um pouco. Logo de seguida chega-nos a notícia que a camiãozito de caixa aberta fretado para os familiares dos noivos tinha ficado atascada ao passar nas areias de um dos rios sazonais. E o Sr. Moroto também devia chegar a qualquer momento. Mas… depois de esperar um pouco mais, mesmo sem a chegada dos acima mencionados, iniciámos a eucaristia do matrimónio. Não! Não há marcha nupcial. Não há vestido branco. De facto a noiva trazia vestido um vestido verde e um kitamba (pano colorido africano) às costas, embrulhando o filhote mais novo do casal. Curiosamente a madrinha do casamento trazia o vestido igual ao da noiva.
A eucaristia começou com toda a gente a cantar ao ritmo bem africano, onde nem os tambores nem as palmas podem faltar. Tudo normal como em qualquer eucaristia no mato: com muita alegria. Até porque a comunidade desta capela, tal como as restantes 45, só têm a celebração da eucaristia 2 a 3 vezes por ano.
Chegou o momento do ritual do casamento. O P. Dolzan fez questão de explicar a todos os presentes o que queria dizer um casamento católico, uma vez que para muita gente, este casal já estava casado. Claro, da forma tradicional, pois claro. Mas para quê então outro casamento? É aqui que começamos a identificar a razão porque esta gente aqui em Pokot, quando pede um sacramento, sabe bem o que pede: a bênção e a graça de Deus para a sua família. É essa a razão primária do casamento na Igreja. Até porque aqui não há vestidos brancos, nem pompas e circunstâncias. É um testemunho lindo. Logicamente que o rito tem também que ser adaptado. Ou já imaginaram o padre perguntar que querem realmente casar quando já estão mais que casados tradicionalmente. E que dizer de ser abençoados nos filhos… pois sim que são! O Abraham e a Christine já levavam dois na sua conta!
Foi curioso notar que o auge da celebração matrimonial é precisamente o momento em que há a entrega das alianças… que, apenas de passagem, são trazidas pelo missionário! Ficando grandes ou pequenas pois são aquelas as alianças que são partilhadas com toda a alegria. E bom… escusado será dizer que nem de bronze são! São um sinal tão simplesmente um sinal da bênção recebida. E com que cuidado os casais usam as suas alianças. São o sinal visível que os recorda a bênção de Deus Töroröt.
Estávamos a meio da eucaristia, depois do rito matrimonial e antes do ofertório, quando se ouve ao longe um carro. Coisa rara nestas paragens! Chegava o ex-deputado Moroto! Cantava-se o cântico do Credo. Pois metade dos participantes continuaram a cantar o Credo. A outra metade foi em direcção ao carro, cantando e dançando, acolhendo o seu ex-líder à boa maneira africana. Como em África muita coisa se improvisa, o meu colega interrompeu a missa para que se pudesse acolher bem este VIP. Não que fosse o mais apropriado, mas… a tradição e a boa educação africana a isso o obriga pois claro!
Depois de tudo no seu lugar lá continuamos a missa que terminou já perto das 3 da tarde. E para quem pensa que já eram horas de ir ao tacho pois está bem enganado! Aqui os noivos não vão tirar fotografias dando uma seca aos convidados. Aqui, depois da eucaristia, é o tempo dos discursos por parte dos convidados importantes. Mais de uma hora de discursos e felicitações ao casal. Também nós os padres tivemos que dar uma palavrinha. E se não a damos as pessoas ficam aborrecidas.
Mas ainda não era tempo para a boda. Segue-se a entrega dos presentes feita em público. Um saquinho em cima da mesa com o casal e os padrinhos ali sentados a receber os presentes que as pessoas, na sua pobreza e humildade, trazem para o “novo” casal.
Por fim, já quase 5 horas da tarde, chegam os familiares dos “noivos”. Tinham conseguido finalmente desenterrar o camiãozito e lá chegaram mesmo a tempo de partilhar a comida preparada para os convidados: farinha de milho cozida (o famoso ugali), arroz cozido e carne de cabra cozida. Para beber um chazinho bem quentinho e a ferver. Um pitéu para os dias de festa!
E era hora de regressar. O meu colega tem já dificuldade em ver bem durante a noite e além do mais tínhamos ainda uns bons kilometros e uns 4 rios para atravessar. Ainda que secos nesta altura do ano, atravessar o leito destes rios é sempre uma aventura. Nada feito sem a tracção às 4 rodas. Porque trazíamos algumas pessoas da festa connosco de regresso ao centro que é Kacheliba, ainda tivemos que descarregar o carro por duas vezes para não ficar atascados na areia dos rios. O normal nas viagens por estas paragens.
Um dia diferente. Mais um. Como o são todos por estas terras quenianas.


Relatos da missão de Kacheliba – North Pökot – Quénia
14 de Dezembro 2008

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quarta-feira, dezembro 3

Rios de Água Viva... em Pokot!

Reparação de um furo/poço em Kapul - Kacheliba - North Pokot
Terça feira, 2 de Dezembro 2008. Logo de manhã fui com os trabalhadores a um lugar a cerca de 15km daqui num lugar chamado Kapul para repararmos a bomba de água que já não funcionava há 2 semanas. E o calor aperta de verdade. As pessoas, digo, as mulheres e as crianças, tinham que ir buscar água a um lugar que fica a 1 hora de caminho ou então entrar já no território do Uganda para buscar água. De facto este lugar fica a escassos 3-4Km da fronteira com o Uganda.
Saímos de manhã e foi um trabalho que nos levou até às 3 da tarde debaixo de um sol bem quente. De facto estou um pouco vermelhino ainda que não seja como quando vamos à praia, mas já se nota e bem a cor da pela bem mais morena!!! O trabalho de hoje foi para mim muito gratificante.
O furo tem cerca de 50 metros de profundidade e o que tivemos que fazer foi retirar todos os tubos e ainda o ferro interior da bomba para fora e ver quais os que estavam partidos e soldá-los (tínhamos levado a maquina de soldar com o gerador!) ou mesmo substituí-los. Depois de algumas horas de trabalho foi grande a alegria de todos os que ali estavam ao redor em ver que de novo tinham água. As mamãs não se cansavam de agradecer, assim como as cerca de 50 cabras que já ali esperavam para matar a sede, juntamente com os seus pastores, crianças e adolescentes, os pastores locais. Assim que muito me recordei da frase de Jesus “Eu Sou a Água Viva…” assim transformada para estes povos…
Bom os custos para fazer um furo artesiano são impressionantes… dependendo da profundidade, são necessários entre 8 a 9 mil euros. Ficam muito caros pois as máquinas para furar a terra bem como o material vêm de Nairobi… e vir para estas regiões remotas com todo o material, pois, não fica barato. Sabeis que só para o transporte do material vai quase metade do dinheiro… depois as autorizações que há que pedir e pagar ao governo para fazer o furo artesiano e registá-lo… creio que ser cobram algo como à volta de 400 euros!!! Mas há muita falta de água nestes locais e a missão como alguma outra igreja presente nesta região e em parte o governo estão empenhados em prover com mais furos junto das populações. É certo que é muito dinheiro mas são os custos que têm estas coisas.

Já, por exemplo, aquilo que vamos gastar nos primeiros 2 meses do ano por causa das escolas serão cerca de 250 sacos de farinha, feijão e grão de bico, que é o alimento nas escolas. Cada saco de milho de cerca de 90Kg custa à volta de 20 euros aqui. Ou custava porque já algum tempo que não compram farinha e feijão para as escolas e os preços aumentaram, embora estes dias parece que estão a baixar de novo.



Relatos da Missão em Kacheliba - North Pokot - Quénia

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sexta-feira, novembro 21

Viajar sempre a curtir a onde musical

Nairobi, 21 de Novembro 2008
Safari! É uma palavra que nos faz lembrar férias. Faz-nos lembrar passeio. Até o Socrates já fez um aqui no Quénia. Faz-nos lembrar animais da selva africana. Pois bem. Na verdade, safari é uma palavra em língua swahili que significa viagem. Foi depois usada para muitos outros sentidos, mesmo nos países onde se fala o swahili, como no Quénia.
E é de uma viagem que vos falo hoje. O regresso a uma experiência enigmática, sempre engraçada e cheia de travessuras engraçadas. Ontem, ao final da tarde, desloquei-me da casa provincial à casa onde estudei os 5 anos passados neste país entre 1997 a 2002. Quis ir de transporte público. Isso significa neste país deslocar-se de “matatu”. O matatu é uma carrinha tipo Toyota Hiace, que geralmente em Portugal tem a capacidade máxima de 9 lugares. Pois bem… aqui no Quénia o permitido por lei é de 16 pessoas! Escusado será dizer que vamos ali como sardinhas em lata.
Geralmente os matatus são mais rápidos e mais económicos. Daí abundarem no país. Depois há ainda aquele que seria chamado em terra lusitana o revisor que aqui assume o papel também de “vendedor” da viagem. Explico. Cada matatu tem dois operadores: o condutor e aquele que chama as pessoas e tenta a todo o custo que as pessoas entrem no seu matatu… e então quando vêem um “muzungu” (uma pessoa de cor clara como os europeus) à procura de transporte, faz toda a questão de que vá no seu matatu. É uma honra para eles, segundo parece, transportar estas pessoas. Bom… é também a oportunidade de lhe cobrar uns xelins mais pela viagem. Não fosse eu já saber quando cobram pelo trajecto, provavelmente cobrar-me-iam o dobro. Lá entrei no matatu nº 111. Seguia até próximo do escolasticado, uns 15km da casa provincial.
Depois de 6 anos pude ver que houve melhorias: agora aqui é moda os matatus terem um ecrã de 17 polegadas no interior da carrinha já por si pouco espaçosa devido ao amontoar de pessoas. O que passa nesse ecrã? Nada mais nada menos do que cópias piratas de videoclips musicais baixados da internet. Posso dizê-lo pela qualidade da imagem… Antes a música reggae, hip-pop e rap passavam a todo o volume nas colunas. Agora já há também videoclips nos ecrãs!
Hoje, regressei. E fi-lo mais uma vez de matatu. Tive tal pontaria no horário de tomar o matatu que acabei por viajar num veículo que literalmente levava a porta de correr do lado da carrinha dentro da própria carrinha. Sim, a porta deve ter caído ou algo do género. Mas o mais engraçado é que apenas notei o que realmente era aquele monstro à minha frente depois de uns bons metros andados. Perguntais: então e não viste que não tinha porta? Bom… é que estes matatus quando estão a aproximar-se das paragens vêm sempre com a porta aberta, e depois transportam de tudo. Pensei que era mais uma peça entre tantas outras que por vezes estes matatus transportam. O que vale é que a viagem não foi muito longa, uns 15 minutos, para depois tomar outro matatu que me trouxe de volta a casa.
E assim é a vida nestas paragens! Podeis ver abaixo uma foto e o filme desta façanha (ainda que sem muita qualidade pois tomei a foto e o filme com o telemóvel). Só mesmo para ter uma ideia… porque saber bem o que é só mesmo experimentando em primeira pessoa!



Depois do vídeo, eis a foto! Aquilo que se vê sobre o lado esquerdo, branco é a porta da carrinha!


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segunda-feira, outubro 20

Quénia: missão que me espera!

Olá malta amiga!
Encontro-me, como sabeis, quase de partida e de volta para o Quénia. Será, se Deus quiser, no dia 16 de Novembro próximo. E já não é sem tempo! Se tivesse dependido só de mim... já lá estava, obviamente! Mas, graças a Deus, estou a recuperar muito bem... já quase a 100%.
Gostaria de iniciar aqui a publicação de algumas notícias sobre o Quénia. São notícias que são publicadas no sitio da web de um dos jornais do Quénia o "Daily Nation". Para facilitar a compreensão, acrescento-lhes a tradução em legendas... até porque o inglês do Quénia não é propriamente o puro "british".
Espero que esta seja uma forma de, juntos, irmos preparando esta partida missionária. Nem vou só, nem parto só! Parto em nome de todos vós também, amigos e amigas!
Espero que gostem de iniciar a partida comigo... como dizemos no Quénia: safari njema, ou seja, boa viagem!

Turkana, Quénia - Seca dura há 2 anos
O grupo étnico Turkana situa-se no noroeste do país, vizinhos do povo Pokot.
Os Combonianos temos 2 missões nesta zona semi-desértica, tal como a zona Pokot.

Missão de Barpello: Projecto médico em risco

Graças a Deus, o problema deste dispensário

foi solucionado com alguma boa vontade por parte de todos.

Graças a Deus!

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quinta-feira, setembro 25

Entre 2005 e 2007, aumentou em 75 milhões o número das pessoas que no mundo sofrem a fome, elevando o total a 923 milhões de pessoas.
Veja o filme desta notícia abaixo ou clique aqui para aceder à notícia escrita.

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quarta-feira, junho 20

Questões Direitos Humanos em Oeiras


A Amnistia Internacional organiza dia 22, às 21:30, uma sessão na "Biblioteca Operária de Oriense", em Oeiras, sobre meninos soldado e o comércio de armas aonde apresentarão igualmente as questões do Darfur.
Participe e conheça um pouco mais sobre a realidade destas crianças que têm de crescer com uma arma nas mãos, em vez de um brinquedo.´


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Darfur... aumenta o número de refugiados

António Guterres alerta para dificuldades no Darfur

O Sudão foi dos países que mais contribuiu para o aumento de refugiados desde 2005. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o número de pessoas que são obrigadas a refugiarem-se aumentou de 21 milhões em 2005 para 33 milhões o ano passado. Os valores são considerados sem precedentes se se tiver em conta o último quinquénio.
Apesar de em primeiro lugar estar o Afeganistão (2,1 milhões de refugiados), o Sudão aparece logo de seguida com 686 mil refugiados, segundo o relatório "Tendências Mundiais em 2006" do ACNUR. A organização alerta ainda para o problema dos deslocados internos. No caso do Darfur (oeste do Sudão), o chefe da organização, o português António Guterres, alertou para as dificuldades que estão a sentir nesta zona: "O desempenho de organizações como o ACNUR está gravemente limitado, o que pode parecer intolerável, mas o desespero dos seus responsáveis não é nada quando comparado com o de milhões de deslocados daquela região africana".

Fonte: Plataforma por África

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