terça-feira, abril 10

Imagens por mil palavras

Car@s Amig@s:
Já lá vai muito tempo desde os meus últimos "posts" no "Mungu ni Upendo"... Certamente que seja qual for a altura, é sempre bom voltar aqui para partilhar convosco. Mas... Páscoa, tempo de festejar a ressurreição de Jesus é um tempo ainda mais apropriado para "ressuscitar" o Mungu ni Upendo!
Deixo-vos de seguida algumas fotos das celebrações pascais que celebrei com os cristãos Pokot.

Quinta Feira Santa
Previstas as celebrações da última ceia... Mas, devido a uma celebração na escola da capela onde celebrei o tríduo pascal, as celebrações litúrgicas foram substituídas por discursos finais dos políticos presentes na celebração da escola... é que começaram pelas 6 da tarde e terminaram às 11 da noite! Sorte deles que tinha levado o gerador e gambiarras de lâmpadas para a celebração... serviu para outro efeito de qualquer dos modos!!!

Sexta Feira Santa
Celebração da Adoração da Cruz e Via Sacra na nossa capela de Kodich. Muitos jovens estudantes. À noite, já até às 11 da noite, o projectar do filme de Jesus atraiu mais de 350 pessoas! As imagens têm mais sucesso do que um sermão!

Na nossa capela de Kodich

Adoração da Cruz

Via Sacra no recinto da Escola de Kodich

Via Sacra


Sábado Santo - Vigília Pascal
De novo no Salão polivalente da escola de Kodich com mais de 300 pessoas. Viveu-se muito intensamente esta celebração onde 15 jovens receberam o baptismo. A vigília entrou pela noite dentro com ainda a projecção de um filme sobre S. Pedro e os primeiros cristãos depois da Ressurreição de Jesus.

Vigília Pascal durante a recitação do Precónio Pascal

No Salão Polivalente da Escola de Kodich durante a Vigília Pascal

Domingo de Páscoa
Presidi à celebração em Kacheliba, o centro da paróquia. Muita cor, uma alegria contagiante e mais 13 jovens que receberam o baptismo. Jovens que são oriundos das capelas mais próximas de Kacheliba. Todos os adolescentes e jovens que receberam o baptismo terminaram um curso de catequeses de 2 anos! Oramos por todos eles e elas para que sejam cristãos convictos no coração e na acção!

Início da Missa do dia de Páscoa com acólitos e Infância Missionária
Baptismos
Administração do Óleo do Crisma depois do Baptismo
Aspecto do Grupo Coral e Assembleia
Celebração Eucarística

OBRIGADO A TODOS PELAS VOSSAS ORAÇÕES!
VALE A PENA DOAR A VIDA PELA MISSÃO

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sábado, junho 12

Um Casamento Tradicional Pökot

A 24 de Abril, sábado, participei na segunda parte do casamento tradicional de um casal jovem de uma das nossas capelas. Digo a segunda parte pois a primeira tinha sido já realizada umas semanas atrás onde os pais do noivo e o noivo vão até à boma (a casa – conjunto de cabanas ou lar Pökot) dos pais da noiva onde todos se sentam e negoceiam qual o dote a pagar pela filha. Essa é a primeira parte do casamento tradicional pökot.
A caminho da casa da noiva com o dote (gado)

No sábado todos nos reunimos em casa dos pais do noivo e este é o dia em que o noivo vai “buscar” a noiva e a traz para casa para começarem a viver juntos. Todos os amigos e vizinhos se agruparam em casa dos pais do noivo onde as vacas estavam a ser reunidas para serem levadas para o dote da noiva. Contei 13 touros (mansinhos não como os das touradas!). Três deles eram ainda bezerros. Esse foi um dos problemas que mais tarde os pais da noiva tiveram que resolver com o noivo. Partimos todos juntos e, como sempre claro, com muitos cantos de alegria e de contentamento. A casa da noiva não era muito longe… uns 5km! O grande grupo de pessoas eram sobretudo mulheres que tornam a festa bem alegre e bem contagiante com os seus cantos. Ao chegar à boma da noiva a entrada está bloqueada com cordas e atilhos tradicionais.

O noivo a caminho - Julius

Ninguém pode entrar. Sempre através de cantos, os que estão dentro perguntam o que é que ali viemos fazer. Os animais estão ali todos diante da porta da cerca da boma à espera que as negociações funcionem. Os que estamos do lado de fora vamos respondendo: “Viemos buscar a noiva para o nosso noivo!” – respondemos também através de cânticos. De dentro respondem que ela não está em casa, que foi de viagem…

Todos à porta da cancela... fechada!

Claro que se têm que seguir alguns pedidos dos amigos que acompanham o noivo… também dei o meu contributo com 50 xelins (cerca de meio euro!) Depois de pedidos e mais uns trocos acabam por abrir a cerca e os animais entram para o cural e todos explodem de alegria. Porém, noiva ainda nem vê-la. Está escondida numa das cabanas. Os familiares vão ver os animais que foram trazidos pelo noivo e confirmam se tudo está como acordado no dia do primeiro encontro. Parece que haviam alguns problemas…
A "boma" dos pais da noiva

O pai do noivo é chamado para dentro de uma das cabanas para se encontrar com o pai e os tios da noiva. O noivo está com os seus amigos fora da cabana à espera do resultado das negociações entre os anciãos e pais dos noivos. Entretanto os membros da família da noiva distribuem o chá do costume a todos. O pai do noivo saiu e explicou que o número de animais trazidos não corresponde ao acordado. Parece ser que tinham acordado que seriam 19 touros. O noivo trouxe apenas 13 e 3 deles são ainda bezerros! Foi então agora chamar o noivo para que ele diga o que pretende fazer. Por tradição nenhum noivo traz os animais todos neste dia. Ficam sempre alguns por pagar para mais tarde… Assim que o Júlio teve que pôr-se de acordo quando trazer os restantes. Parece que finalmente se chegou a acordo. Entretanto, durante todo o tempo de negociações a noiva nem vê-la ainda, apesar de o ambiente na boma ser de festa completa. As mulheres nunca se cansam de cantar, dançar e pular…

Uma forma engraçada de "servir" as canecas!

Todos a aguardar resultados das "negociações"
Entretanto as mulheres vão à água... ao rio mais próximo

Chegados ao ponto de acordo é então servida a refeição… aqui não há nem 1º nem 2º prato… há um só apenas! Alguns pratos têm mesmo que ser partilhados! Olhei para a comida e logo vi que era comida de festa: arroz e um pouco de feijão… É a comida dos “banquetes.” Entretanto a chuva também fez das suas… e a meio do pratinho de arroz e feijão foi necessário correr para debaixo das goteiras das cabanas para nos protegermos da chuva.

À "mesa" do casamento com o noivo

Sim! Aqui também acreditam que o dia do casamento com chuva é dia de casamento abençoado. Depois de um bom bocado até que terminámos o arrozito com os feijões parou de chover. Eis que finalmente a noiva saiu da sua “toca” (cabana!) acompanhada por 8 adolescentes a cantar e em procissão… E… eis que agora sim! A festa iria começar…

Aspecto da procissão nupcial

Como bons africanos a dita “procissão” devia deslocar-se por uns 30 metros entre a cabana “esconderijo” e a cabana onde as negociações tomaram lugar. Normalmente não toma 2 minutos a percorrer esse espaço. Mas neste dia, passo à frente e passo atrás (de dança!) foram uns bons 20 minutos! Por fim a noiva lá entrou na cabana. Mas o encontro com o noivo não tinha chegado ainda. As raparigas, “damas de honor”, continuaram a dançar cá fora. Cada uma é chamada para ir buscar um dos “amigos do noivo” para que venham diante das moças a cantar e dançar. Ali há um diálogo de cantos procurando dizer se estes “amigos e amigas dos noivos” são por acaso os noivos! É claro que antes que todos acabem de perfilar e serem “julgados” diante das cantoras e dançarinas passa mais meia hora!



Até que por fim é chamada a noiva (sempre através de cânticos) para que vá buscar o seu noivo e o apresente a todos os convidados para a aprovação final. Somente aqui a noiva sai e vai buscar o noivo que está ao lado da cabana mas do lado de fora. É então o auge da alegria para todos os convidados ali presentes. Os cânticos, mais uma vez, a narrarem a história dos noivos pois claro! Bom… e de ali para o local onde se seguirão os discursos.


Por fim... juntos!

Aqui todos os convidados vão também oferecer os seus presentes. Mais uns 10 minutos de “procissão” a cantar e dançar (mesmo com a chuva a encharcar). Tocou-me a mim e ao catequista que estava comigo abrir as hostes com uma oração e umas palavrinhas. Foi um momento muito bonito e também de evangelização. Isto porque lemos um texto de S. Paulo sobre a vida em casal. Pois claro que se seguiram umas palavrinhas explicativas.


Seguiram-se depois muitos outros discursos e também orações. E digo orações porque estariam ali além de nós outras 5 ou 6 igrejas diferentes com o seu pastor. O noivo é católico, mas a noiva é luterana e os pais dela de uma outra igreja protestante africana aqui da área. Assim que é uma “fartança” tutti-frutti de igrejas pois claro!
Chegou o momento de a mãe da noiva e as irmãs vestirem e darem os seus presentes à mãe do noivo e às suas irmãs. Aqui entendemos irmãs também as cunhadas, as tias e as sobrinhas… é o conceito africano de família alargada. À mãe do noivo uma saia e t-shit novas. Às outras um destes típicos panos africanos que as mulheres usam à volta da cintura e que serve também de saia. As famosas capulanas. São entregues uma por uma, com cada uma a fazer uma festa enorme correndo à volta dos noivos com muita alegria. Pensava eu com os meus botões: que alegria tão grande manifestada por somente lhe terem dado um pano novo! Quanta alegria! E a quantos, noutras partes do mundo, lhes são dadas coisas bem mais valiosas e nem festa se faz, nem um obrigado!!!
Chegou o momento dos convidados oferecerem os seus presentes. Os convidados: os católicos, os protestantes, os jovens de cada uma das igrejas, os vizinhos, os familiares… Os presentes: algumas cabras, ovelhas, canecas de alumínio (usadas para o chá!), roupas, pratos, travessas, termos (onde costumam guardar o chá ainda a ferver) e também dinheiro… O dinheiro é curiosamente posto dentro de uma bacia que está coberta com um pano para que ninguém saiba o que cada um vai dando! Porém ninguém dá mais do que o equivalente a 3 ou 4 euros… uma fortuna para alguns. O salário de um dia de 2,5 euros aqui nesta zona é já um bom salário diário.
Bom… mas a festa ainda não tinha acabado. Teria agora que o noivo tomar a noiva oficialmente da boma dos seus pais e levá-la para a sua casa. Mais um momento de júbilo, claro. Regressamos então para a boma do noivo onde a festa continuou até ao dia seguinte, domingo. O meu colega Hubert foi celebrar a missa numa capela perto e no regresso teve que entrar para a festa também. A mim já se fazia tarde e a chuva tinha feito das suas. Porém, não pude abandonar sem de novo ter comido mais um prato de arroz e feijão… a comida por excelência das festas. Nada de bolos, açucares, pudins flã nem nada do que se lhe pareça!
Como já era quase noite tinha que regressar. Tinha medo que não iria poder atravessar o rio grande que ficava no caminho de regresso. E “meu pensado” (não dito!) meu feito! Como tinha chovido muito era impossível passar com o carro.

Um outro dia cruzando o rio a pé até ao carro

Foi necessário ir procurar uma outra boma para deixar o carro até ao dia seguinte. Atravessámos o rio a pé onde já nos esperava o meu colega Hubert do outro lado do rio com o outro carro. No dia seguinte levei o meu colega a esse mesmo rio, atravessou-o a pé, tomou o carro, foi celebrar a uma capela perto dali e, no final da tarde, já o meu colega pôde regressar e atravessar com o carro pois já não havia água no rio.
E é assim a vida que todos os dias vamos encontrando e agradecendo a Deus. Aventuras que depois de 2 ou 3 vezes já o deixam de ser e passam a ser mais bem “trabalhos” pesaditos depois de um dia de visita às comunidades!

Escrito em 30 Abril 2010


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domingo, outubro 18

O meu Dia Mundial das Missões 2009

Como pode um missionário em pleno “terreno missionário” deixar de partilhar a sua missão no Dia Mundial das Missões? Claro que é bem mais forte do que ele…
É por isso que aqui estou de regresso. Há já muito tempo que o tempo não me dava tempo de “temperar” este espaço missionário. Aqui regresso hoje, na esperança de que esta partilha mais possa ajudar-nos a todos a viver este dia e mês missionário com um coração grande.


A capela de Lokelelian

Não… não me perdi nem estou em crise!
Sei que alguns de vós têm visitado este cantinho missionário e desde há muitas semanas que não encontram nada “de novo”. Alguns até já me escreveram a perguntar se estava bem, se ainda estava no Quénia, se tudo estava a correr bem… Outros mesmo chegaram a telefonar-me e enviar sms… A todos quero agradecer pela vossa preocupação e pelas vossas orações.
Mas de facto os últimos meses foram e têm sido de muito trabalho e também cansaço físico ao ponto de não encontrar um tempinho para partilhar convosco. Mas neste dia fiz uma promessa a mim mesmo de não falhar e… custe o custar aqui estou convosco mais uma vez.
A verdade mesmo é que me sinto muito feliz e cada vez mais integrado na realidade desta missão que Deus me confiou. Um dos meus colegas (já com 75 anos!) foi de descanso à Itália por 2 meses. Ficamos só eu e o P. Hubert. Trabalho triplicado pois claro! Graças a Deus já regressou para desanuviar um pouco o trabalho!



Lá onde o Evangelho acaba de chegar
Em toda a minha vida missionária, este foi o meu primeiro Dia Mundial das Missões que vivi como missionário em pleno “terreno missionário”, entre este meu povo querido, os Pökot. Todos os outros anos tinha-os vivido ou em Nairobi, capital deste país (durante os meus estudos de teologia) ou em Portugal, terra missionária também mas, convenhamos, de características distintas! E não podia ter sido mais bonito e realizador.
Tocou-me celebrar a Eucaristia hoje numa das nossas capelas mais recentemente abertas: Lokelelïan a escassos 2km da fronteira com o Uganda.
A capela ou a Igreja… bom… essa foi construída pelos próprios cristãos deste lugar: uns ramos de sisal servem de paredes e uns ramos já secos protegem um pouco do sol tórrido destas paragens. Cristãos propriamente ditos (baptizados) não há muitos. O facto de a poligamia ser praticada por este povo faz com que muitos “cristãos de coração” não possam receber o baptismo. No entanto, não deixam de estar presentes e de rezar cada semana nesta que é a sua Igreja.



Muitas das pessoas começaram mesmo a escutar há muito pouco tempo a Palavra de Deus e o facto de Deus se ter feito Homem em Jesus Cristo. Töroröt, como conhecem e chamam a Deus desde há séculos, esse é bem mais “conhecido”. Mas o Deus Pai de Jesus Cristo e da bíblia, esse, é ainda demasiado recente por estas terras para que mesmo os cristãos baptizados O possam conhecer verdadeiramente.

A alegria que paira no ar
Lokelelïan fica a cerca de 1h15m do centro da missão em Kacheliba. 45 minutos de 4x4 e outros 30 minutos a pé. Sim porque os últimos 6 km demoram “apenas e somente” 30 minutos a percorrer tal é o “tapete” todo o terreno que temos que atravessar. Ainda antes de chegar ao local onde deixar o carro para depois caminhar, já estavam dois cristãos à minha espera. Um mais jovem que o outro. Tinham vindo arranjar a estrada em alguns lugares para que tivéssemos menos problemas em passar. Graças a Deus, mesmo que fora de época para as colheitas, as chuvas parecem estar a chegar e tem já chovido em alguns lugares. Era o caso de Lokelelïan. Por isso todo o cuidado é pouco para não se ficar encalhado na lama.
Ainda ao longe já se escutavam as batidas dos tambores e os cantos dos cristãos que já se encontravam na capela. À chegada a alegria do costume e sempre tão renovadora e nova, distinta! Li nos rostos sorridentes e no ritmo das palmas uma alegria verdadeira e sincera pela chegada do missionário.

A missão é dar e receber
Na sua mensagem para este Dia Mundial das Missões o Papa lembrava (assim como as leituras da eucaristia de hoje) que o trabalho do seguidor de Jesus não é outro senão aquele do Serviço. E assim mesmo me senti hoje com estes cristãos amigos de Lokelelïan. Depois da celebração da missa (cerca de 2 horas), sempre cheia de vida e de alegria, entre o meu arranhado Pökot e o Kiswahili (celebramos a missa em 2 línguas, imaginem!), pela segunda vez consecutiva na visita a esta capela, é “pecado mortal” virar costas sem pelo menos tomar um chazinho à moda do Quénia. Confesso que a hospitalidade desta comunidade (como muitas outras também) ensinariam a muitos de nós, ditos civilizados, as boas maneiras de hospedagem. É a “boma” (conjunto de várias cabanas onde a família Pökot vive) da Mama Lilian, uma das primeiras cristãs desta comunidade. Um sorriso sempre lindo e acolhedor. Uma profundidade no seu olhar sereno e confiante. Eu até estava com um pouco de pressa para regressar à missão, mas de nada me valeu… depois do chazinho (também partilhado com os outros cristãos) presentearam-me com uma garrafa de Sprite, algo bem raro nestas paragens e sobretudo naquele local da nossa missão.

A casa do catequista construida pouco a pouco

Terão caminhado alguns kms para acompanharem o prato de feijão e milho cozidos com esta pequena-grande carícia. Missão é sem dúvida um dar e receber. Dar e dar-se assim como Jesus; receber talvez não tanto valores materiais mas gestos muito simples e sinceros destas pessoas que valem por milhões! Gestos que demonstram que é no dar e receber que nós cristãos encontramos verdadeiramente a felicidade.


Com estudantes que me acompanharam hoje na "Boma"

Com um coração cheio de bênçãos de Deus e destes gestos tão simples e tão enriquecedores é feita a vida do missionário; sentimentos compensadores de outras tantas desventuras e dificuldades que também são parte do dia a dia da missão. Mas… como dizia, S. Daniel Comboni, “as obras de Deus nascem aos pés da Cruz” – lugar de desolação e sofrimento mas também lugar do nascimento da Vida plena em Deus!
Para todos vós uma boa continuação do mês missionário sempre sem se esquecerem que de facto, todos nós temos e devemos e somos de facto missionários do Amor do Pai.

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domingo, julho 12

Presentes de Deus!

Foi já há umas semanas a última vez que abri o meu diário aqui no blog. A razão é simples e a mais óbvia de sempre: tempo!
Sim, também por estas bandas o tempo é apertado para tudo o que desejaria escrever. Cada dia que passa daria uma boa página de diário missionário…
Amanhã terão passado 2 meses desde que regressei definitivamente a Kacheliba. Foram 2 meses de intensas actividades e também alguns contratempos.

Numa das comunidades durante a distribuição do milho
Dar de comer a quem tem fome
Desde o dia 5 de Junho, dia do meu aniversário, que iniciei a distribuição de milho doado pelo nosso Bispo da Diocese assim como algum que também nós como comunidade missionário comprámos. Foi uma oportunidade de poder conhecer as 51 capelas da nossa paróquia. Nesse dia 5 de Junho, iniciar esta distribuição do milho foi o melhor presente que Deus me podia ter dado. ainda que, numa das comunidades, me ofereceram uma pequenina garafinha de plástico de mel... Em duas semanas foi possível ir a quase todas as capelas. É que as chuvas continuam teimosas em não passar por estas terras. As sementeiras começam a secar.

Uma das "shambas" (campos) com o milho já seco

É desolador ver muitos campos com o milho estragado devido á falta de água. As pessoas começam a perder a esperança e temem que este ano seja como o ano passado: sem colheitas. É por isso necessário ajudar um pouco as pessoas. Só que é impossível ajudar toda a gente… o grande “nó na garganta” que todo o missionário experimenta! Levamos a cada capela 2 sacos de milho de 90kgs cada um. 100 foram doados pelo Bispo da Diocese, outros 100 comprámos ao preço de 27 euros cada um.
Um dos médicos atendendo as pessoas com problemas oculares

Catequistas e operações aos olhos
Tivemos também 3 dias de encontro com os catequistas. Este encontro é realizado cada 6 semanas. São 3 dias intensos de formação e de planear o andamento das actividades da missão. Sem os catequistas seria impossível para nós poder chegar às pessoas. São cerca de 45 os catequistas e cada um trás o seu relatório do andamento das suas comunidades. Um trabalho constante em comum da busca da vontade de Deus para a paróquia.
Na outra semana tivemos também uma equipa de 15 médicos especialistas dos olhos aqui na missão por 4 dias. São muitas as pessoas com cataratas e com glaucomas nos olhos. Muitos já desde há muitos anos… doenças que podiam ser evitadas com um pouco mais de higiene e cuidado no lavar os olhos cada dia. Foram atendidas nestes 4 dias cerca de 600 pessoas, metade das quais (300) tendo mesmo sido submetidas a cirurgias. Foi uma actividade financiada pelo Lions Club de Kitale, a Diocese a que pertencemos.
O dispensário da Missão improvisado em "bloco operatório"

A mais bela experiência do Anúncio de Jesus
Há uma semana atrás também recebemos cá o Sr. Bispo para administrar o sacramento do Crisma a cerca de 250 cristãos. Realizámos duas celebrações: uma no sábado numa das nossas capelas e outra no domingo aqui no centro da missão. Torna-se mais fácil para os cristãos de mais longe se deslocarem.
Porém, as visitas às comunidades locais é o trabalho que mais me apaixona e me faz sentir bem realizado como missionário. Chamamos a estas visitas às comunidades de “matembezi” em língua kiswahili. Chemakeu é uma dessas comunidades que visitei num destes dias. Fica a cerca de uma hora daqui da missão de carro. Vivi uma das mais belas experiências desde que cheguei ao Quénia. Saí daqui da missão de manhã com o catequista pois também ele tinha vindo aqui à missão com a sua mãe por causa das operações aos olhos que referi acima. Aproveitei para levar a uma escola primária dois sacos de milho pois as crianças nesta escola não são apoiadas ainda pelo governo assim que a comida da escola depende da ajuda dos próprios pais das crianças e da missão.
Chegámos a Chemakeu e estive uns minutos em casa do catequista. Melhor… na sua cabana! É um bom catequista e com muita vontade de trabalhar e anunciar Jesus, mas também tem alguns problemas na sua vida que não o deixam sobreviver só com este trabalho. Depois caminhámos a uma outra família e à sua cabana. Aqui chamámos à casa das pessoas "boma"; normalmente a "boma" é o recinto, a área onde têm duas ou três cabanas, um curral em forma de cabana também para os animais e o pátio em frente das cabanas... Caminhámos cerca de meia hora pela savana dentro até à casa de uma senhora cristã baptizada, mas que já há uns tempos tinha deixado de vir à capela. Resolvemos com o catequista ir fazer uma celebração domiciliária... quase a chegar fomos surpreendidos por uma valente chuvada! Graças a Deus! E que bem que soube aquela chuva cair pelas orelhas abaixo... Chegámos todos encharcados, mas também felizes pelo dom de "ilat", chuva em Pökot... ou melhor, o espírito da chuva para os Pökot. Fomos recebidos com o tradicional chá queniano (chá preto com umas gotas de leite de cabra!), e entretanto os vizinhos foram chegando. Uma hora depois, entre conversa e chegada de vizinhos, dentro da cabana estávamos cerca de 20 pessoas. Destas só 4 eram baptizadas, excluindo eu e o catequista, pois claro! Todos os outros, senhoras, alguns jovens pastores e alguns homens casados, ainda não eram baptizados e pouco sabiam de Jesus e de quem é Jesus. Mais uma vez também voltei a confirmar o quanto necessito de aprender a língua local Pökot, pois tudo o que disse em Kiswahili tinha de ser traduzido. O catequista foi o que dirigiu o momento de oração que fizemos, lendo a passagem do evangelho do domingo seguinte e explicando-o. Veio depois a minha vez de também apresentar quem é Jesus, o que é a bíblia e porque é que lemos o livro da bíblia; explicar porque é importante escutar o que Jesus disse e nos diz hoje através da bíblia... o básico e mínimo por onde se começa o anúncio de Jesus, O Filho de Deus, Töroröt, Deus para os Pökot. Todos rezamos e o tempo passou de uma forma que nem sequer demos conta. Estivemos naquela "boma" cerca de 3 horas. Uma alegria enorme na despedida... e eu também me sentia muito feliz e realizado pois foi para isto, sobretudo para isto, que fui chamado por Deus como missionário. Era hora de regressar não sem antes passar pela “boma” de um outro cristão jovem que está a viver com 4 filhos, depois da mãe os ter abandonado a todos por causa da falta de comida... algo que me chocou bastante...

Visita a uma das capelas com as crianças da pré-primária na sua sala de aulas debaixo da árvore!

Quando chegámos estavam a preparar uns frutos selvagens que é a comida que têm nestes dias em casa. Graças a Deus as crianças têm assegurada uma refeição na escola de milho e feijão misturados. Mas há outros que não vão ainda à escola... estes frutos selvagens custam a preparar e só no dia seguinte iriam estar comestíveis... pelo que nesse dia, como em tantos outros, iriam deitar-se com o estômago vazio. Acabei por deixei-lhes o equivalente a 1 euro que é suficiente para comprar 2 quilos de milho e que os ajudará a ter uma refeição à noite por 2 ou 3 dias! Situações que, contadas a muita da gente jovem nos países desenvolvidos, não dá para acreditar!
Apesar de tudo nesse dia regressei feliz e realizado para casa... feliz pelo dom da vocação missionária a que Deus me chamou.

A anterior capela de Lokomolo

Um domingo nas comunidades
Hoje, domingo, fui celebrar a uma comunidade chamada Lokomolo. À minha chegada foi-me dito que se esperavam outras pessoas de duas comunidades/capelas “próximas”. Próximas no conceito Pökot, pode significar que estavam a cerca de 2 horas de caminho a pé! Lógico que em vez de começarmos às 10.30, a celebração começou já perto do meio dia. É o horário africano que olha mais para o tempo em quantidade do que a quantidade do tempo. Celebrámos numa das salas de aulas da escola ali construída pela Missão. A capela, ainda recente, ficou sem o tecto devido a um temporal há cerca de um ano. Desde então, estamos a tentar organizar-nos junto com as pessoas para podermos repor o telhado de chapa de zinco… São muitas as despesas que temos e nem sempre chega para tudo ao mesmo tempo! Assim que é necessário ir esperando também pela providência!
Devo dizer que a um dado momento, contando as criancinhas pequeninas e bem irrequietas, estaríamos umas 80 pessoas naquela “capela” improvisada. A grande maioria, uma vez mais, não baptizados. Para a comunhão aproximaram-se apenas umas 20 pessoas.
Mas este, foi um dia especial: sem contar e sem me ter preparado convenientemente, foi-me pedido pelos catequistas que celebrasse a missa em língua local Pökot. Normalmente celebrava em língua kiswahili. Nunca o tinha feito antes na língua local e, mesmo a ler, é bem distinta do kiswahili e bem mais difícil. Lancei-me! Nos momentos justos, as pessoas lá iam respondendo à missa, sinal que a minha pronúncia ia sendo entendida pelo menos em parte. Mas devo confessar que me custou. Claro que a homilia foi em kiswahili e traduzida pelo catequista, mas… foi uma experiência mais que me ensinou que o Espírito de Deus é aquele que trabalha nas pessoas, muito para além das nossas próprias capacidades ou especialidades!!!
Entre o meu falar Pökot meio enrascado, o choro intercalado das crianças e o entrar e sair de algumas das pessoas por razões que não conseguia escrutinar, a verdade é que a aparente apatia dos cristãos durante as celebrações em muitas das nossas paróquias na Europa, por e simplesmente aqui não existe. Em muitos momentos foi mesmo necessário parar a homilia para que as crianças fossem atendidas (normalmente com a mamita da mãe… fim do pio!) ou que as pessoas que entravam se acomodassem. Definitivamente… celebrações bem distintas e diferentes das nossas liturgias europeias tantas vezes cheias de “pompa e circunstancia”.
No final da missa (que ainda assim durou 2 horas), há lugar a discursos e boasvindas aos visitantes das outras capelas; depois o chazinho queniano do costume. Entre isto e mais aquilo, deixei a capela de regresso à Missão já depois das 3 da tarde.
Mais um dia feliz na vocação a que Deus me chamou. Conto, como sempre, com a vossa oração, sobretudo, para que Deus nos envie o dom das chuvas, tão escassa e tão necessária para a sobrevivência destes povos.

Escola de Lokomolo construída pela Missão lugar da celebração da Eucaristia

“Pensamentos do meu diário”
Kacheliba, Pökot Norte – Quénia
12 de Julho 2009

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