domingo, abril 24

Acreditar na Ressurreição pode ser muito simples!

O tempo de Quaresma, e sobretudo a preparação próxima à Páscoa na missão, é sempre cheia de actividades. Numa dessas actividades as lágrimas vieram-me aos olhos. Ao passar o filme sobre a vida de Jesus aos catecúmenos, fui surpreendido por uma expressão de regozijo dos catecúmenos ao verem Jesus Ressuscitado. Expressaram-se com um bater de palmas espontâneo e comovente ao ver Jesus ressuscitado
aparecer aos discípulos depois da sua paixão e morte. Afinal, sem muitas explicações e sem muitas teorias biblicas e teológicas, estes catecúmenos fizeram-me ver que pode ser realmente muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus...

P. Filipe com estudantes catecúmenos

Finalmente... o dia do meu baptismo

Ao aproximar-se o Domingo da Ressurreição de Jesus, são muitas as actividades na missão de Kacheliba. Uma das actividades é o curso de formação final para os catecúmenos. Realizou-se na semana passada em 3 locais da nossa (extensa!) paróquia. Aqui no centro da missão cerca de 80 adolescentes e jovens receberam as últimas instruções preparatórias para o Baptismo. Ao todo, em toda a paróquia, são mais de 170 adolescentes, jovens e adultos que serão baptizados neste tempo Pascal. Estes catecúmenos finalizaram um programa de catequeses de 2 anos e vêem agora o dia do seu baptismo chegar. É grande a alegria estampada no rosto de muitos destes catecúmenos... percebe-se que receber o Baptismo significa algo importante para as suas vidas.

Algumas das adolescentes catecúmenas

Junto dos que ainda não O conhecem

O meu tríduo Pascal este ano foi realizado numa das nossas capelas mais antigas da Missão chamada Kodich. Fica a uns 30km norte do centro Kacheliba. Ali tínhamos um grupo de 48 catecúmenos no curso final de preparação para o Baptismo. Desde 4ª feira até sábado receberam as últimas catequeses. Na 5ª feira santa presidi à Última Ceia do Senhor e 4 adolescentes receberam a comunhão pela primeira vez. Tinham sido baptizados quando eram bebés. Obviamente que antes da celebração receberam o sacramento da Reconciliação (pobremente apenas conhecido como “confissão” por muitos!). Um deles, um jovem já crescido, não comunicava sequer em swahili. Só mesmo a língua local Pökot. Já imaginam... eu já “pesco” umas coisas da língua local, mas escutar a sua confissão foi de facto um acto de fé da minha parte! Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece.

Depois da celebração passamos o filme sobre a vida de Jesus ao ar livre. São muitas as pessoas, cristãos e não cristãos, que comparecem. Claro que a electricidade essa só mesmo com o gerador. Mas... (in)felizmente passada cerca de 1 hora chegou uma surpresa: a chuva! Chuva aqui é sempre uma benção até porque este ano ainda não tinha chovido. Porém... toda a aldeia em peso teve que “fugir”. E a chuva, sempre tão abençoada nestas paragens, acabou por estragar a “festa”. Mas havia mais no dia seguinte...

Estudantes da escola primária para raparigas de Kacheliba

Na sexta feira santa a celebração da adoração da Cruz começou às 3 da tarde. Pelo meio a Via Sacra que foi percorrida nas ruas da aldeia. E que forma mais eficaz de anunciar a Morte e Ressurreição de Jesus. No regreso à capela eramos já quatro vezes mais pessoas na capela! Seguiu-se o filme da paixão de Cristo. Desta vez fomos acolhidos no salão da escola primária recentemente construído. Veio de novo a chuva mas desta vez estavamos bem acolhidos. Vários cristãos me disseram que nessa noite não ficou ninguém em casa em toda a aldeia. Não os contei mas deveriam ser seguramente mais de 300 pessoas!

O sábado Santo foi o culminar das celebrações... sempre muito adaptadas à realidade local pois claro! 15 baptismos: 10 adolescentes e 5 mulheres adultas. Confesso que a alegria, a concentração e a profundidade de alguns destes neófitos deixaram no meu coração um sentimento de que Deus toca de verdade a vida destas pessoas. Mas nem as quase 5 horas de celebração cansaram esta gente. O filme desta vez foi sobre S. Pedro e os primeiros cristãos após a ressurreição de Jesus. Foi pena que quase a acabar o filme o meu gerador ficou sem “zagolina”! Nada a fazer... ainda assim já cheguei a casa quase às 3 da manhã – contente por Deus me dar a oportunidade de ser sua testemunha da Ressurreição junto deste povo.

P. Filipe de visita a uma escola debaixo da árvore numa das nossas capelas

Liturgias mais ou menos litúrgicas

Devo confessar que as liturgías entre este povo que apenas começa a conhecer Jesus, são tudo menos “ao pé da letra e da rúbrica”! O silêncio, parte tão fundamental da litúrgia para a assimilação do que se celebra é algo que aqui fica um pouco de lado. Para o Pökot tudo o que se relaciona com Töroröt (Deus para este povo) significa entrar na esfera da celebração. Não quer isto dizer que as celebrações deixam de ser menos vividas, menos sentidas. São apenas e essencialmente diferentes. São o espaço de expressão alegre do que acreditam desde há séculos. São sentimentos tradicionais depois trazidos para a liturgia cristã. Com mais ou menos silêncio, com mais ou menos incenso, com mais ou menos ordem e regras litúrgicas, a Ressurreição de Jesus entrou já na vida e no coração de vários cristãos Pökot. É a força da Vida, da Boa Nova da Ressurreição que renova e faz novas todas as coisas em Cristo.

Um dos nossos catequistas anciãos com a sua esposa na sua "boma" (lar)

Desejo-vos a todos uma Santa Páscoa, cheia de significado e profundidade para a luta de cada dia da vossa vida. É lá que o valor da Vida e Ressurreição de Jesus fazem sentido! É lá que Ele quer ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Afinal de contas... até porque parece que é de facto muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus! SANTA E FELIZ PÁSCOA!

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sexta-feira, dezembro 24

Pureza de Natal


"Obrigado, P. Filipe! Este bocadinho de açucar e arroz vai dar-nos um Natal bonito lá em casa!"
Esta foi a resposta dada por algumas das pessoas que trabalham connosco na Missão. Agradeciam o tradicional "zawadi ya Krismasi" (lembrança de Natal) que costumamos oferecer-lhes.
Que alegria mais pura! Que pureza do verdadeiro sentido de Natal: o pouco, o simples, o humilde que traz uma enorme alegria e faz sorrir quem assim recebe.

Mais uma vez, uma lição grande para mim. Estas palavras e atitudes fazem-me voltar às origens. Fazem-me pensar naquele Menino Salvador que muito poucos reconheceram. Pobre - sem ter onde nascer em condições apropriadas; simples - sem grandes anúncios, sem grandes festas; só os pastores, a "escumalha" do povo de Israel, conseguiu olhar mais profundo e perceber que naquele Menino simples, pobre e humilde, nascia a Alegria maior que o mundo jamais acolheu!

São os gestos desta gente simples, pura e humilde que hoje me ensinaram a olhar mais profundo no que realmente significa celebrar a verdadeira alegria do Natal. Sem mesas recheadas de doces e requintadas refeições, sem luzinhas na árvore de Natal, sem os múltiplos anúncios natalícios que encharcam os nossos ouvidos e olhos, sem o corre-corre das prendas e lembranças...
Se me perguntam se sem tudo isso pode haver Natal... pois eu digo que sim! Precisamente porque este sentido do Natal, simples mas cheio de alegria, é aquele que me enche a vida e o coração.

Fica aqui a partilha de um texto que foi publicado na Agência Ecclesia há 2 dias em que descrevo como vivo o Natal em Pokot. Clique aqui.

A Todos um Santo e Feliz Natal, cheio da Alegria simples, pobre e humilde que é aquela que traz verdadeiro sentido à nossa vida!
Que Deus vos abençoe com um ano de 2010 cheio da Sua Paz.


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segunda-feira, novembro 29

Mensagem à minha paróquia

Regressando ao Quénia, enviei esta pequena mensagem à minha paróquia de Nogueira do Cravo. Linda a coincidência de regressar à Missão no Quénia na ocasião do Dia Mundial das Missões 2010. Tudo de bom a todos e uma vez mais muito obrigado! Deus vos abençõe a todos!

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sexta-feira, outubro 22

Retornar Revivendo a Missão

É verdade! É verdade! Foi muito tempo sem dar notícias por estas bandas... eu bem o sei! E, porque não me queda de outra, não posso mais fazer do que pedir desculpa a todos aqueles que têm visitado este cantinho do Amor de Deus na minha vida sem encontrar novidades. E não é que não as hajam... muito pelo contrário!

Momentos importantes na vida familiar
Muitos já saberão... estive em Portugal de férias desde meados de Agosto até meados de Outubro. Razão: o matrimónio do meu irmão Nuno com a minha cunhada Sofia. Momentos em que o amor de Deus se faz mais visível através do amor humano.
E logo na chegada fiquei surpreendido pelo carinho e amor que os paroquianos de Nogueira do Cravo quiseram expressar comigo. Confesso que não estava nada à espera. Fiquei desengonçado... desajeitado... fora de onda! Ainda mais quando estava a chegar de cerca de 15 horas de viagem... mas é assim que Deus mostra o seu amor e carinho por nós. Foi tudo muito inesperado para mim. Mas é assim que Deus, de vez em quando, nos faz umas carícias.

Momento da chegada à paróquia

Tempo de muita comunhão e sentido de missão
Durante estes dois ultimos meses foram muitos os testemunhos de pessoas que me falavam de um carinho e compromisso muito grande à missão. Não a mim... não! À missão pois ela é a que fala mais alto.
Foram também dois meses de intensos e renovadores encontros. Desde logo a celebração do matrimónio entre o meu irmão e a minha cunhada. Foi um dos momentos mais bonitos e profundos que jamais senti na minha vida sacerdotal e missionária: ser instrumento de Deus para que Ele, e não eu, mas Ele, abençoasse aquele amor que d'Ele nasceu no coração destes dois seus amigos, que no fundo são sangue do meu sangue!
Celebrações de baptismos que tinham até sido já marcados antes dos meninos nascerem...
Visitas a e de amigos que o tempo não apaga...
Encontros missionários mais programados ou nem tanto assim... Festa Missionária na Maia, encontro Jamborii dos Escuteiros de Nogueira do Cravo... enfim... um sem número de momentos de partilha missionária.
Mas apesar de tudo, sentir e presentir que esse Deus de Amor Incondicional continua a actuar na vida de tantos amigos e amigas, familiares, juventude... são tantos esses sinais! Obrigado a todos e em especial a um grupo muito bonito que sempre vive a missão com o coração - UTrilho!!!! Sois de facto espectaculares!

O regresso de coração cheio e também preocupado
Não foi fácil regressar aqui onde Deus me chama... por um lado a alegria de voltar para o meio daqueles que são os que Deus escolheu para eu crescer na fé junto deles; por outro lado várias situações de doenças e complicações da vida de alguns familiares e amigos... Situações que continuam no meu coração e nas minhas orações. Mas a vida é assim mesmo... e também a missionária não foge à regra! Muitos foram aqueles que não pude visitar como desejaria, como seria bom... mas ainda assim sei que nunca nós missionários estamos sós! Somos apenas e tão simplesmente servos inúteis (mesmo que felizes!) d'Aquele que nos envia.

A todos o meu bem-haja! Não há palavras para poder expressar tanto carinho, tanta proximidade, tanto amor para comigo e para com a missão. Agora é regressar ao dia a dia da Missão sempre com os seus grandes desafios, as também com todas as bençãos de Deus... essas bila shaka (swahili para "de certeza") nunca faltarão!

Um bom domingo do Dia Mundial das Missões 2010... Até breve já por terras Pokot!

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sábado, junho 12

Pastoral em Tempo Pascal

O tempo pascal é, como sempre e como todos os outros tempos, de muito trabalho. Estamos particularmente envolvidos nos baptismos dos adolescentes que receberam as catequeses durante 2 anos e terminaram a formação na Páscoa passada (2010). Este ano mudámos um pouco a tradição e em vez de baptizarmos a todos aqui no centro da paróquia na vigília pascal, decidimos ir visitar as capelas onde vivem com as suas famílias e baptizar lá junto com os cristãos originários dessas mesmas comunidades.
Visita a uma das comunidades

Por vezes isto é mesmo um grande desafio: algumas vezes os padrinhos têm que ser os mesmos para quase todos… como por exemplo, amanhã (30 de Abril) vou a uma das nossas capelas que é mais distante… não tanto em distancia mas sim em tempo para lá chegar: 1h 15m. Isto porque as estradas, ou se quisermos as picadas, não são nada famosas. Estamos em plena época das chuvas e cada vez que saímos é uma aventura! Aqui em Kacheliba o rio voltou a fazer das suas e transbordou e a água chegou mesmo a passar sobre a ponte… no caminho destruiu parte da estrada e ainda algumas casas de pessoas ali do centro, algumas tinham as suas lojazitas de vender algumas coisitas… muitos dos produtos foram por água abaixo.


Na "boma" duma comunidade

Ainda ontem tive um pouco de problemas em passar um dos leitos de um rio no caminho para uma capela. É que o rio quando passa deixa as margens como paredes… ontem foi preciso ir pedir uma enxada para aplanar as margens do leito do rio de modo que pudesse passar. Depois de umas tentativas a coisa lá foi.
Um outro problema que dizia acima é que em algumas capelas os cristãos baptizados são bem poucos. Como a que vou amanhã… estamos mesmo nos começos e por isso os padrinhos acabem por ter de ser sempre os mesmos para quase todos os baptizados. Mas creio que são momentos importantes e lindos para as pessoas.


Nestes dias tivemos 3 encontros simultâneos de catecúmenos. Ao todo os adolescentes são quase 200. Como é tempo de férias (ainda depois do 1º trimestre), podemos fazer os encontros de catecúmenos e formação usando as instalações das escolas. Começámos no domingo à tarde e terminou esta manhã. Este trabalho não o podemos fazer sem os catequistas. Assim um grupo (de cerca de 85) reuniu-se aqui em Kacheliba. Outro numa das capelas a sul – Serewo – a 25km daqui e onde fui todos os dias para celebrar a missa à tarde e à noite passar um filme sobre a bíblia que acompanha as catequeses. Ali estavam cerca de 45. Uma outra capela a norte da paróquia – Kodich – também com uns 55, com o mesmo sistema e onde foi o meu colega Hubert. Já regressávamos sempre depois das 11 da noite! Mas graças a Deus correu bem ao que parece e é sempre uma alegria poder assim ver a vida que floresce nestes cristãos do amanhã.


Depois de amanhã começamos o encontro de fim de semana com os jovens da paróquia. São sempre mais de 100! E terminaremos no domingo. Logo de seguida mais uma semana de formação e encontro com os catequistas aqui na paróquia.

Escrito em 28 de Abril 2010

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domingo, abril 4

Surpresas Divinas em cada dia

O meu último post continha uma promessa: dar notícias em breve! Passaram 3 meses… talvez para alguns a definição de “breve” abrange esses 3 meses! Porém, quando o escrevi queria mesmo dizer “muito em breve”! Não pude cumprir essa promessa. As minhas desculpas. Mas aqui estou… quanto mais não seja para vos saudar com um abraço de amizade no Senhor Jesus Ressuscitado. Quanto não valem as festas cristãs para nos “obrigar” (com muito gosto!) a reactivar os laços de amizade.
Durante estes 3 meses devo confessar que foram muitas as surpresas de Deus – positivas e também as menos felizes...
P. Filipe e P. Hubert na celebração da missa na familia Sakal

Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão. Muitos conhecidos e conhecidas da paróquia. A família Sakal é uma das poucas famílias com convicções cristãs fortes na nossa paróquia. Os Pökot são de tradição poligâmica (em que um marido pode ter várias esposas).

O casal Sakal à esquerda com os seus padrinhos de casamento

Naquele dia queriam juntar todos os seus afilhados de Baptismo, de Crisma e de Casamento. Ao mesmo tempo convidaram os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento também. Num local onde os “católicos praticantes” - isto é, “comungantes” - são poucos, podemos já imaginar que o casal Sakal foi chamado a apadrinhar muitas crianças, jovens e ainda alguns matrimónios.
Nesse dia, toda a vizinhança teve um dia de festa. E festa aqui significa também uma refeição melhorada com um pouco de arroz e carne, algo bem raro nas dietas diárias deste povo.
Foi lindo o momento em que o casal apresentou todos os seus afilhados uns aos outros. Ainda emocionante foi ver o gosto com que no final da missa apresentaram a todos os presentes os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento.

Um aspecto de toda a assembleia

A razão de tanta festa saída das próprias palavras do casal deixa qualquer missionário contente com o empenho desenvolvido ao longo dos anos na missão. Disseram: “quisemos juntar-nos hoje somente para aprofundarmos o que significa ser padrinho ou madrinha da fé que nasce em cada um de nós. Queremos que na nossa paróquia sejamos mais e mais conscientes do que realmente significa apadrinhar ou apoiar alguém na sua caminhada de fé na igreja.” Confesso que fiquei surpreendido e maravilhado como Deus vai realizando tantas maravilhas no meio deste povo que apenas há 35 anos começou a escutar a Palavra de Deus.

Preparando a comida

Um “espinho duro” no coração
Um dos momentos mais difíceis para mim na missão até hoje aconteceu no início de Março deste ano. Aquilo que era previsto ser uma greve dos alunos da escola secundária masculina (aqui mesmo ao lado da missão) acabou por ter contornos bem dolorosos.
O dia ainda começava a clarear quando fomos despertados aqui na missão por gritos. Os estudantes tinham começado a atirar pedras e a bater no director da escola. Corremos eu e o meu colega P. Hubert. Ao chegarmos demos com uma multidão de estudantes enfurecidos a destruir o escritório do director com ele lá dentro. Alguns mesmo batiam-lhe com paus arrancados dos ramos das árvores do recinto da escola. Imediatamente acudimos o Director da escola e tentámos defendê-lo da fúria enraivecida dos alunos. Não os conseguimos acalmar mas pelo menos conseguimos defender o pobre Director de ficar mais ferido ou mesmo de o chegarem a matar. Eu não acreditava no que via à minha frente. Quase 2 centenas de estudantes que mais pareciam guerreiros com pedras e paus nas mãos, prontos para avançar não fosse eu e o meu colega estarmos entre eles e o Director. Em vão corria eu à frente dos rapazes tentando acalmá-los. Pelo contrário, tentavam ludibriar-me para chegar até ao escritório do Director onde estava também o meu colega P. Hubert. Tomou 30 minutos à polícia para chegar para que os estudantes dispersassem da escola. Esse dia foi muito longo pois logo se sucederam reuniões de emergência para ver o que fazer a seguir. A escola foi encerrada por uma semana. Foi a semana mais dura desde a minha chegada à missão. Tudo porque todos os dias dessa semana foram necessários para reuniões com uma espécie de Conselho Escolar onde pais, autoridades locais, professores e o “patrocinador” da escola (a paróquia da Missão) estamos presentes. Depois foi necessário receber cada um dos estudantes um a um para tentar perceber os motivos da rebelião. Acabámos por expulsar 8 alunos da escola e mandar outros 7 de suspensão por 2 semanas
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Alunas da escola secundária para raparigas
recentemente aberta em Serewo

O mais doloroso foi aperceber-me que o motivo profundo e trágico deste grave acontecimento é o tribalismo. Os Pökot começaram a enviar os seus filhos para a escola de uma forma mais geral apenas há uns 10 anos a esta parte. Há muito poucos naturais preparados para assumir cargos como professores, médicos, enfermeiros e mesmo pessoal técnico dos mais diversos campos. Por isso, há muitas outras pessoas de outras tribos que aqui prestam serviços como professores, médicos, enfermeiros. Parece que neste momento os políticos locais começaram uma campanha de querer mandar todos os não-Pökot de outras tribos para fora deste local. O mais duro e puro tribalismo. Estou plenamente convencido que é uma campanha que começa no próprio representante Pökot no governo, uma espécie de governador do distrito. Algo grave que apenas nos mostra que ainda há muito trabalho para fazer até chegar ao coração dos Pökot com as palavras de Jesus: amor ao próximo, perdão e comunhão… Apesar de dura, esta experiência apenas me confirma que este é o lugar certo para onde Deus me enviou no momento justo e na altura certa: a missão é testemunho da Verdade, do Amor e da Compreensão. Para mim, estas são razões mais do que suficientes para querer continuar aqui a servir o Reino de Deus – a missão a que Deus me enviou!

Ainda assim… o triunfo da VIDA!
Esta Páscoa foi a primeira passada aqui na missão de Kacheliba. O ano passado encontrava-me a terminar o curso da língua swahili na Tanzania. E claro que foi bem especial…
Todos já escutámos como a Páscoa vivida na missão é sempre especial. Se esperamos celebrações litúrgicas seguidas à risca pelos cânones litúrgicos pois essas não as encontramos aqui. E talvez isso seja mesmo aquilo que torna a vida da Igreja em África… digamos que… diferente!

Adolescentes baptizados na noite de Páscoa em Konyao

Ontem à noite celebrei a vigília pascal numa das nossas capelas mais distantes chamada Konyao, a uns 50km de Kacheliba, 1 hora de viagem (se tudo corre bem!!!). Esperavam-me 18 adolescentes para serem baptizados depois de 2 anos de Catecumenado. Juntar-se-iam nesta noite os cristãos de 2 capelas para celebrar os baptismos de novos cristãos.
Logo à chegada foi necessário prover a luz à capela pois ali ainda não há electricidade. Com uma bateria, um inversor de corrente e umas gambiarras com lâmpadas já podemos “dar à luz”. A capela estava bem composta e ao longe já escutava os ensaios dos cânticos para uma noite que seria longa.
Depois de 3 horas e meia de celebração a alegria estava de facto estampada no rosto de todos. Realmente (pensava eu com os meus botões), a VIDA do RESSUSCITADO é algo incrivelmente grande e que enche o coração de todos os povos. Sejam eles mais ou menos instruídos. Mais ou menos profundos na sua fé…
O regresso à missão foi já de madrugada… com o único senão que viajava sozinho de regresso! Não… não tinha medo! Graças a Deus, neste momento, há segurança mesmo durante a noite. O único problema era mesmo se tivesse algum problema mecânico… aparte dos furos que são o “pão-nosso” de cada dia e que são normais nestas paragens! Tudo correu bem e à chegada, já perto das 2 da manhã, ainda encontrei os meus colegas a pé que também regressavam dos seus empenhos noutras capelas.
Hoje, dia de Páscoa, a manhã começou de novo cedo. Numa outra capela chamada Simotwo, esperavam mais adolescentes para serem baptizados. Pelo caminho tive que “inventar carreiros” para poder chegar à capela… a chuva das últimas semanas (outra surpresa linda e bem apreciada de Deus) tinha tornado o caminho normal impraticável. Entre atalhos e “desatalhos”, lá chegámos com a graça de Deus.
Já a comunidade cristã estava reunida e entusiasmada praticando os cânticos pascais alegres depois do tempo da Quaresma. Durante toda a celebração a alegria de novos cristãos era bem evidente: sorrisos e cantos alegres ecoavam a cada momento. Os 7 adolescentes que foram baptizados e que receberam a comunhão pela primeira vez luziam de contentamento com as suas pequenas velas acesas. Era mais que evidente que a Graça e a Luz de Jesus Ressuscitado enchia os seus corações.

O sistema eléctrico à doc

Deus é sem dúvida o Deus das surpresas… boas e também as menos boas. É que em todas elas Ele nunca deixa de nos abençoar: nas boas enche-nos de alegria; nas menos boas dá-nos a sua força e coragem para enfrentarmos cada dia com o entusiasmo e a alegria da VIDA NOVA da RESSURREIÇÃO – ALEGRIA, PAZ, AMOR MÚTUO E ENTREGA DA VIDA PELOS OUTROS.


Grupo de adolescentes baptizados em Simotwo no dia de Páscoa

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS VÓS!
PASKA NYÖ KARAM
(Feliz Páscoa em Pökot)

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sábado, janeiro 2

CARÍCIAS DE DEUS TÖRORÖT NO NATAL 2009

Uma nova década começou! Há quem diga que temos que esperar até ao início de 2011 para verdadeiramente começar uma nova década. Coisas de calendários. Seja como for… a vida para nós em Pökot continua o seu ritmo de sempre: com momentos de alegria, de profundo sentir do caminhar de Deus Töroröt junto com este povo e ainda com outros mais difíceis e desafiantes, mas também eles repletos de esperança e paz. É esse o desejo mais profundo do povo Pökot para as suas vidas. Estas festividades foram para mim cheias de tudo isto um pouco… ao ponto até de me confundiram com um enfermeiro!
Mães com seus filhos para Baptismo na noite de Natal

Instrumento da Graça de Deus
O Natal de 2009 vai ser por mim recordado como o Natal em que celebrei o sacramento do Baptismo pela primeira vez em África. Baptismo de crianças até aos 5 anos. Talvez alguns possam perguntar: mas o que é que há de diferente? Essencialmente nada. Mas se pensar que para as crianças que baptizei tenha sido a primeira vez que viram um sacerdote, talvez comecemos a ver algumas diferenças. Se pensar ainda que todos estes baptismos foram celebrados no meio de comunidades onde a maioria das pessoas não são sequer baptizados, este momento obtém ainda mais significado.

Uma das crianças baptizadas na noite de Natal

Pensando ainda que estas crianças pertencem somente à 2ª ou 3ª geração de cristãos em terras Pökot, a importância ganha ainda mais sentido. Pensar, por fim, que algumas destas crianças talvez não cheguem à idade adulta devido à alta taxa de mortalidade infantil neste cantinho da África, faz com que me sinta um privilegiado em poder ser um instrumento da graça de Deus para estas crianças e suas famílias.
Para a maioria destas crianças, são as mães as grandes interessadas em baptizar os filhos. Os pais, em raros casos baptizados eles próprios, geralmente deixam a educação dos filhos entregue às mães. Há excepções. Com certeza que sim! E começam a ser cada vez mais pouco a pouco.

No dia de Natal durante a missa

Noite de Natal – quase à luz da vela
Na noite de Natal celebrei a missa numa capela chamada Kitelakapel, uns 25km do centro da missão. Deus abençoou-nos nestes dias com chuva, uma raridade nestas paragens. A noite estava fresca… temia que as pessoas não viessem para a celebração. Mas os meus medos foram infundados. É certo que a celebração deveria começar pelas 8 da noite. Mas como de noite não há sol, é difícil para as pessoas saberem bem ao certo as horas do dia… da noite, neste caso! E depois… pressas para quê? Festa é festa! Celebrar com propriedade é algo que os africanos sabem fazer muito bem.

Baptismos durante o Dia de Natal em Konyao

Comigo estava o Ir. Eduardo, português de “gema” como eu. Está a estudar em Nairobi e foi bonito termos passado o Natal juntos. Juntos chegámos e a primeira coisa foi montar o sistema de electricidade ligado a uma bateria e um “inverter”. Bom… chamar “sistema de electricidade” a uns cabos com 2 lâmpadas ligados a uma máquina que transforma 12volts de uma bateria para 220volts é um nome pomposo. Mas lá conseguimos com uns fios e uns troncos de árvores arranjados no local a servir de postes. Luz já tínhamos… mas a verdadeira LUZ, Jesus Cristo, esse estava a chegar!
Depois de esperar pelos pais que iam baptizar as crianças, os padrinhos e mais pessoas para a celebração, começamos a missa pelas 10.30h da noite. A alegria era grande pois sentíamos que o Deus Menino estava de facto a chegar também para estas crianças pela primeira vez. Foram 22 as crianças baptizadas. A missa foi demorada. Para além do número de baptismos, devemos também explicar e orientar cada passo da celebração como se fosse a primeira vez. De facto, para muitos presentes terá sido a primeira vez que estiveram presentes numa celebração de Baptismo.
No final da celebração, já depois da meia-noite, a festa continuou. Convidaram-nos para uma refeição especial de Natal: farinha de milho (tradicional “ugali”) e galinha cozida com uns temperos/ervas locais. E que petisco! Mas o melhor ainda estava para vir. As pessoas tinham preparado canções e danças… para toda a noite!

Os cristãos distribuindo almoço no dia de Natal

Dia de Natal – a alegria do Baptismo
A alvorada do dia de Natal custou um bocadinho mais. A noite tinha sido mais longa do que o costume. Mas havia mais baptismos e celebração numa outra capela. Desta vez quase na extremidade norte da paróquia. 1 hora de caminho do centro da missão. Konyao é o seu nome. Lá nos esperaram as comunidades de 2 capelas: a anfitriã, Konyao, e uma próxima (1 hora de caminho a pé) chamada Kodera. O mesmo ritual da noite anterior: juntar as crianças, os pais (as mães neste caso!) e os padrinhos para o baptismo e finalizar os detalhes todos para o registo no livro dos baptismos. Foram 16 crianças baptizadas numa atmosfera de alegria super-contagiante e que não deixa ninguém presente sem dar o seu pezinho de dança durante a celebração. Nesta capela existe ainda um grupinho de meninas que chamamos de “alelluia dancers”. Abrilhantaram ainda mais o momento.

O nosso almoço no Dia de Natal - à direita Ir. Eduardo

Mas os verdadeiros “artistas” eram as crianças baptizadas. O sorriso com que algumas acolhiam os óleos santos bem como até a água baptismal, a alegria das mães e padrinhos ao ver os seus filhotes baptizados foram para mim o melhor presente de Natal que um ministro de Deus pode receber. Sem dúvida que a graça de Deus e o próprio Deus atravessam e enchem de graça este momento tão sagrado como é o Baptismo. A alegria sincera e profunda expressa nas caras das crianças, das mães e padrinhos não podia provir de outro lugar senão de Deus mesmo.
No final da celebração, como não podia deixar de ser, o especial almoço de Natal: arroz com pedacinhos de carne de cabra. É um verdadeiro manjar e a comida especial para os dias de festa.

Celebração da Missa no Dia Sagrada Família

Domingo da Sagrada Família – confundido com um enfermeiro
De há uns anos para cá que é tradição celebrar o Baptismo para crianças no tempo de Natal nas várias capelas da missão. No domingo seguinte ao dia de Natal planeamos que iria celebrar na capela de Chepoghe, no extremo sul da paróquia. Porém, havia uma dúvida: seriamos capazes de atravessar os rios sazonais para lá chegar? Tinha chovido bastante nestes dias, uma das maiores bênçãos de Deus para este povo. Decidimos que caminharíamos para lá chegar se assim fosse necessário. E assim partimos. Com maior ou menor dificuldade conseguimos chegar. E já nos esperavam os cristãos da capela anfitriã bem como de uma comunidade vizinha chamada Serewo. Foi necessário ainda esperar um bom tempo até que tudo e todos estivessem prontos para a celebração da missa com os baptismos. Desta vez, a capela era pequena para todos. Daí que celebrámos debaixo da grande e sagrada árvore para os Pökot em frente da capela. No final da celebração foi-me explicado que aquela árvore foi no passado o local de muitas celebrações tradicionais Pökot. Agora foi transformada no local da mais importante celebração: a Eucaristia.

Momento durante a homilia (ao fundo a capela local)

A mesma alegria e o mesmo entusiasmo das outras eucaristias com Baptismos foi vivida também aqui. Ainda que tive que interromper a missa em vários momentos pois cristãos e outras pessoas continuavam a chegar da vizinhança. E aqui há que dar sempre as boas-vindas.
Um momento caricato e engraçado nesta celebração foi o facto de duas das crianças que baptizei não pararem de chorar e berrar sempre que me aproximava para administrar os óleos santos e o sinal da cruz. Até que compreendi a razão. Os paramentos deste dia eram brancos e por isso eu estava todo vestido de branco. Estas 2 crianças confundiram-me, nem mais nem menos, com o enfermeiro do dispensário local. E com razão choravam! É que o que esse homem de branco lhes tinha feito tinha sido somente dar-lhes injecções que fazem doer! E assim fui confundido com o enfermeiro… finalmente acabaram por já não temer a minha proximidade depois de várias tentativas. Peripécias da vida missionária!

Momento durante o Baptismo

Foram de verdade muitas as graças e as alegrias que vivi e continuo a viver com este povo Pökot. Certamente que um Natal muito diferente do nosso lusitano. Mas sem deixar de ser a realização de um sonho missionário também para mim. Sem merecer nenhuma destas graças, louvo a Deus por cada detalhe e cada carícia do seu amor que vou partilhando com este povo amado por Ele, Töroröt.
Logo a seguir ao Natal visitamos uma família para uma celebração muito especial… algo que vos direi que nos ensina qual o real sentido da vida cristã. Encontrei-o aqui, no meio deste povo que pouco a pouco vai conhecendo o Amor de Deus que é sem dúvida um Deus de Amor. Conto-vos tudo no meu próximo post!Até lá… Um Santo e Bom Ano de 2010 para todos vós! Um ano cheio das maiores bênçãos de Deus!

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domingo, agosto 2

A escola primária de Kacheliba para raparigas

No final do mês de Agosto, no início do 3º período do ano escolar aqui no Quénia, cerca de 400 raparigas irão instalar-se de vez na recém construída escola primária de Kacheliba.

Esta escola é internato pelo simples facto de que muitas das crianças em terras Pokot têm que deslocar-se vários quilómetros desde suas casas para poder receber a educação primária.
A escola foi construída pela nossa comunidade missionária. Foram várias as organizações que financiaram o projecto: Manos Unidas de Espanha, a província italiana dos Missionários Combonianos, Edukans (através da Diocese de Kitale) e ainda uma contribuição local do governo queniano.
A construção iniciou-se em Agosto de 2008, sendo que, passado 1 ano, quase todo o complexo está terminado.
A construção tem 3 fases:

Fase 1: construção de 4 dormitórios, latrinas e banheiros, cozinha com despensa e salão de estudo que serve também de refeitório;

Fase 2: construção de 9 salas de aulas em 3 blocos, bloco administrativo e latrinas;

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola;

Fica ainda a faltar a construção da vedação de todo o recinto escolar... até que mais ajudas possam ser encontradas.

Ficam de seguida 3 pequenas apresentações sobre cada uma das fases.

Fase 1: construção dos dormitórios, latrinas,
duches, cozinha e salão de estudo/refeitório.

Fase 2: construção de 3 bocos com 9 salas de aula, bloco administrativo e latrinas

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola

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domingo, julho 12

Presentes de Deus!

Foi já há umas semanas a última vez que abri o meu diário aqui no blog. A razão é simples e a mais óbvia de sempre: tempo!
Sim, também por estas bandas o tempo é apertado para tudo o que desejaria escrever. Cada dia que passa daria uma boa página de diário missionário…
Amanhã terão passado 2 meses desde que regressei definitivamente a Kacheliba. Foram 2 meses de intensas actividades e também alguns contratempos.

Numa das comunidades durante a distribuição do milho
Dar de comer a quem tem fome
Desde o dia 5 de Junho, dia do meu aniversário, que iniciei a distribuição de milho doado pelo nosso Bispo da Diocese assim como algum que também nós como comunidade missionário comprámos. Foi uma oportunidade de poder conhecer as 51 capelas da nossa paróquia. Nesse dia 5 de Junho, iniciar esta distribuição do milho foi o melhor presente que Deus me podia ter dado. ainda que, numa das comunidades, me ofereceram uma pequenina garafinha de plástico de mel... Em duas semanas foi possível ir a quase todas as capelas. É que as chuvas continuam teimosas em não passar por estas terras. As sementeiras começam a secar.

Uma das "shambas" (campos) com o milho já seco

É desolador ver muitos campos com o milho estragado devido á falta de água. As pessoas começam a perder a esperança e temem que este ano seja como o ano passado: sem colheitas. É por isso necessário ajudar um pouco as pessoas. Só que é impossível ajudar toda a gente… o grande “nó na garganta” que todo o missionário experimenta! Levamos a cada capela 2 sacos de milho de 90kgs cada um. 100 foram doados pelo Bispo da Diocese, outros 100 comprámos ao preço de 27 euros cada um.
Um dos médicos atendendo as pessoas com problemas oculares

Catequistas e operações aos olhos
Tivemos também 3 dias de encontro com os catequistas. Este encontro é realizado cada 6 semanas. São 3 dias intensos de formação e de planear o andamento das actividades da missão. Sem os catequistas seria impossível para nós poder chegar às pessoas. São cerca de 45 os catequistas e cada um trás o seu relatório do andamento das suas comunidades. Um trabalho constante em comum da busca da vontade de Deus para a paróquia.
Na outra semana tivemos também uma equipa de 15 médicos especialistas dos olhos aqui na missão por 4 dias. São muitas as pessoas com cataratas e com glaucomas nos olhos. Muitos já desde há muitos anos… doenças que podiam ser evitadas com um pouco mais de higiene e cuidado no lavar os olhos cada dia. Foram atendidas nestes 4 dias cerca de 600 pessoas, metade das quais (300) tendo mesmo sido submetidas a cirurgias. Foi uma actividade financiada pelo Lions Club de Kitale, a Diocese a que pertencemos.
O dispensário da Missão improvisado em "bloco operatório"

A mais bela experiência do Anúncio de Jesus
Há uma semana atrás também recebemos cá o Sr. Bispo para administrar o sacramento do Crisma a cerca de 250 cristãos. Realizámos duas celebrações: uma no sábado numa das nossas capelas e outra no domingo aqui no centro da missão. Torna-se mais fácil para os cristãos de mais longe se deslocarem.
Porém, as visitas às comunidades locais é o trabalho que mais me apaixona e me faz sentir bem realizado como missionário. Chamamos a estas visitas às comunidades de “matembezi” em língua kiswahili. Chemakeu é uma dessas comunidades que visitei num destes dias. Fica a cerca de uma hora daqui da missão de carro. Vivi uma das mais belas experiências desde que cheguei ao Quénia. Saí daqui da missão de manhã com o catequista pois também ele tinha vindo aqui à missão com a sua mãe por causa das operações aos olhos que referi acima. Aproveitei para levar a uma escola primária dois sacos de milho pois as crianças nesta escola não são apoiadas ainda pelo governo assim que a comida da escola depende da ajuda dos próprios pais das crianças e da missão.
Chegámos a Chemakeu e estive uns minutos em casa do catequista. Melhor… na sua cabana! É um bom catequista e com muita vontade de trabalhar e anunciar Jesus, mas também tem alguns problemas na sua vida que não o deixam sobreviver só com este trabalho. Depois caminhámos a uma outra família e à sua cabana. Aqui chamámos à casa das pessoas "boma"; normalmente a "boma" é o recinto, a área onde têm duas ou três cabanas, um curral em forma de cabana também para os animais e o pátio em frente das cabanas... Caminhámos cerca de meia hora pela savana dentro até à casa de uma senhora cristã baptizada, mas que já há uns tempos tinha deixado de vir à capela. Resolvemos com o catequista ir fazer uma celebração domiciliária... quase a chegar fomos surpreendidos por uma valente chuvada! Graças a Deus! E que bem que soube aquela chuva cair pelas orelhas abaixo... Chegámos todos encharcados, mas também felizes pelo dom de "ilat", chuva em Pökot... ou melhor, o espírito da chuva para os Pökot. Fomos recebidos com o tradicional chá queniano (chá preto com umas gotas de leite de cabra!), e entretanto os vizinhos foram chegando. Uma hora depois, entre conversa e chegada de vizinhos, dentro da cabana estávamos cerca de 20 pessoas. Destas só 4 eram baptizadas, excluindo eu e o catequista, pois claro! Todos os outros, senhoras, alguns jovens pastores e alguns homens casados, ainda não eram baptizados e pouco sabiam de Jesus e de quem é Jesus. Mais uma vez também voltei a confirmar o quanto necessito de aprender a língua local Pökot, pois tudo o que disse em Kiswahili tinha de ser traduzido. O catequista foi o que dirigiu o momento de oração que fizemos, lendo a passagem do evangelho do domingo seguinte e explicando-o. Veio depois a minha vez de também apresentar quem é Jesus, o que é a bíblia e porque é que lemos o livro da bíblia; explicar porque é importante escutar o que Jesus disse e nos diz hoje através da bíblia... o básico e mínimo por onde se começa o anúncio de Jesus, O Filho de Deus, Töroröt, Deus para os Pökot. Todos rezamos e o tempo passou de uma forma que nem sequer demos conta. Estivemos naquela "boma" cerca de 3 horas. Uma alegria enorme na despedida... e eu também me sentia muito feliz e realizado pois foi para isto, sobretudo para isto, que fui chamado por Deus como missionário. Era hora de regressar não sem antes passar pela “boma” de um outro cristão jovem que está a viver com 4 filhos, depois da mãe os ter abandonado a todos por causa da falta de comida... algo que me chocou bastante...

Visita a uma das capelas com as crianças da pré-primária na sua sala de aulas debaixo da árvore!

Quando chegámos estavam a preparar uns frutos selvagens que é a comida que têm nestes dias em casa. Graças a Deus as crianças têm assegurada uma refeição na escola de milho e feijão misturados. Mas há outros que não vão ainda à escola... estes frutos selvagens custam a preparar e só no dia seguinte iriam estar comestíveis... pelo que nesse dia, como em tantos outros, iriam deitar-se com o estômago vazio. Acabei por deixei-lhes o equivalente a 1 euro que é suficiente para comprar 2 quilos de milho e que os ajudará a ter uma refeição à noite por 2 ou 3 dias! Situações que, contadas a muita da gente jovem nos países desenvolvidos, não dá para acreditar!
Apesar de tudo nesse dia regressei feliz e realizado para casa... feliz pelo dom da vocação missionária a que Deus me chamou.

A anterior capela de Lokomolo

Um domingo nas comunidades
Hoje, domingo, fui celebrar a uma comunidade chamada Lokomolo. À minha chegada foi-me dito que se esperavam outras pessoas de duas comunidades/capelas “próximas”. Próximas no conceito Pökot, pode significar que estavam a cerca de 2 horas de caminho a pé! Lógico que em vez de começarmos às 10.30, a celebração começou já perto do meio dia. É o horário africano que olha mais para o tempo em quantidade do que a quantidade do tempo. Celebrámos numa das salas de aulas da escola ali construída pela Missão. A capela, ainda recente, ficou sem o tecto devido a um temporal há cerca de um ano. Desde então, estamos a tentar organizar-nos junto com as pessoas para podermos repor o telhado de chapa de zinco… São muitas as despesas que temos e nem sempre chega para tudo ao mesmo tempo! Assim que é necessário ir esperando também pela providência!
Devo dizer que a um dado momento, contando as criancinhas pequeninas e bem irrequietas, estaríamos umas 80 pessoas naquela “capela” improvisada. A grande maioria, uma vez mais, não baptizados. Para a comunhão aproximaram-se apenas umas 20 pessoas.
Mas este, foi um dia especial: sem contar e sem me ter preparado convenientemente, foi-me pedido pelos catequistas que celebrasse a missa em língua local Pökot. Normalmente celebrava em língua kiswahili. Nunca o tinha feito antes na língua local e, mesmo a ler, é bem distinta do kiswahili e bem mais difícil. Lancei-me! Nos momentos justos, as pessoas lá iam respondendo à missa, sinal que a minha pronúncia ia sendo entendida pelo menos em parte. Mas devo confessar que me custou. Claro que a homilia foi em kiswahili e traduzida pelo catequista, mas… foi uma experiência mais que me ensinou que o Espírito de Deus é aquele que trabalha nas pessoas, muito para além das nossas próprias capacidades ou especialidades!!!
Entre o meu falar Pökot meio enrascado, o choro intercalado das crianças e o entrar e sair de algumas das pessoas por razões que não conseguia escrutinar, a verdade é que a aparente apatia dos cristãos durante as celebrações em muitas das nossas paróquias na Europa, por e simplesmente aqui não existe. Em muitos momentos foi mesmo necessário parar a homilia para que as crianças fossem atendidas (normalmente com a mamita da mãe… fim do pio!) ou que as pessoas que entravam se acomodassem. Definitivamente… celebrações bem distintas e diferentes das nossas liturgias europeias tantas vezes cheias de “pompa e circunstancia”.
No final da missa (que ainda assim durou 2 horas), há lugar a discursos e boasvindas aos visitantes das outras capelas; depois o chazinho queniano do costume. Entre isto e mais aquilo, deixei a capela de regresso à Missão já depois das 3 da tarde.
Mais um dia feliz na vocação a que Deus me chamou. Conto, como sempre, com a vossa oração, sobretudo, para que Deus nos envie o dom das chuvas, tão escassa e tão necessária para a sobrevivência destes povos.

Escola de Lokomolo construída pela Missão lugar da celebração da Eucaristia

“Pensamentos do meu diário”
Kacheliba, Pökot Norte – Quénia
12 de Julho 2009

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domingo, maio 24

Regresso em cheio!

Eis-me de regresso à terra Pökot – Kacheliba! Depois de 4 meses de estudo intensivo da língua kiswahili na Tanzania, eis que é chegado o momento de me instalar definitivamente na missão.Poderia dizer que os meus dois primeiros dias deste regresso foram um aperitivo bastante apaladado: eucaristia debaixo das árvores, crianças a aprender a ler e a escrever debaixo de outras árvores, ser bons samaritanos e ajudar a polícia a desenvencilhar-se da sua pick-up atascada no rio, furo no nosso carro, cruzar o rio a pé antes de nos aventurarmos com a pick-up…, enfim… aquilo a que chamaria a vida de um missionário aventureiro no tempo das chuvas por estas paragens. Mas a Missão é muito mais do que isto…

Regressei a Kacheliba no dia 13 de Maio. Não! Não o escolhi de propósito. Apenas e tão somente aconteceu. Alguns dos nossos jovens lusitanos costumam dizer “correu mal” quando algo não saiu da forma esperada. Bom… no meu caso diria “Não podia ter corrido melhor!” Talvez (ou será mesmo isso) Deus queria dizer-me que a sua bênção por intercessão de Maria estaria sempre comigo. Senti que Maria chegava comigo a Kacheliba nesse dia. E por isso não devo temer seja o que for. Não fosse eu um bom portuga e devoto de N. Sra. de Fátima.
O meu superior e colega de missão, P. Giancarlo Guiducci já estava à minha espera em Kitale. Esta á a cidade mais próxima da nossa missão onde costumamos ir às compras. Fica a 80km de Kacheliba. 40 dos quais em estrada alcatroada. Os restantes 40 são em terra batida. Mas… encontrei a estrada muito melhor do que a deixei em Janeiro passado. Aqui trabalhou-se durante estes meses.
Surpresa das surpresas… à minha chegada o meu colega P. Hubert tinha preparado um bolo para celebrar a minha chegada. Digamos que um pedacito de bolo aqui nestas paragens é de facto uma raridade. Nesse dia também jantámos com a comunidade das irmãs franciscanas, a nova congregação que entretanto veio trabalhar aqui em Kacheliba depois da partida das Irmãs Combonianas em Março passado. É uma comunidade pequenina a das irmãs: duas irmãs africanas, a Irmã Agnes e a Irmã Ciprian. Uma é a encarregada do dispensário ou Centro de Saúde aqui da missão. A mais jovem, a Irmã Ciprian dá aulas na escola primária da missão. Desde logo me senti em casa. A Mama Tereza, a senhora que ajuda as Irmãs nas lides da casa, lançou-me um sorriso de alegria do meu retorno de tal forma que logo percebi que era bom sentir-me em casa de novo.
Logo pela manhã do dia seguinte saí com o meu colega P. Hubert. Fomos visitar uma capela que foi começada há bem pouco tempo, há poucos meses. Tão poucos que ainda nem sequer se prevê a construção da capela. Graças a Deus, na nossa paróquia podemos chegar a todas as capelas com a pick-up. Ainda que para isso algumas vezes seja necessário sair do carro e com a machada, cortar uns arbustos ou árvores que entretanto cresceram no meio do caminho. Outras vezes, no tempo das chuvas, temos que atravessar rios sazonais. Desta vez não fomos nós a atascar-nos no rio… já alguém lá estava a “dar de beber aos cavalos” (do jipe)! Nada mais nada menos que o carro da polícia. Escoltavam um outro jipe das Nações Unidas para chegar até uma escola a menos de 1km do rio. A UN anda a fazer um levantamento das escolas que recebem ajuda para a alimentação das crianças. Há que arregaçar as calças (as mangas não pois aqui anda-se sempre de manga curta!), tirar as sandálias e meter-se ao riacho para ajudar a resolver o assunto. Mais ou menos tempo decorrido, sempre se arranja maneira de retirar de lá o jipe. Fomos à nossa vida e chegámos à nossa capela com o nome bastante simples de Katukumwok. Fácil de pronunciar não? Debaixo de umas árvores, estava uma cadeira e um banquito. “Podemos celebrar aqui?” – perguntou o catequista. “Claro que sim!” – respondemos de imediato. “Uma mesa e outra cadeira estão a caminho” – retorquiu ainda o catequista. Mais tarde vi que a mesa tinha sido transportada à cabeça por uma das senhoras desde uma distância de pelo menos 2km!
A uns metros dali estava a escola pré-primária… claro está também debaixo das árvores. Contei as crianças: 23! “Mas são muitas mais” – disse-nos o professor. “Os outros estão com os pais nos campos! Por isso não puderam vir. Estão com os pais a ajudá-los a cultivar os campos!” Crianças de 4, 6, 7 anos? – pensei. É verdade! Estamos no tempo das chuvas e como aqui as chuvas são também escassas e incertas muitas vezes, há que aproveitar o tempo e as chuvas para plantar um pouco de milho e de soja. Os Pökot, por natureza e tradição, não são agricultores. São pastores. Mas há já bastantes que começaram também a cultivar terrenos. Um dos frutos de 30 anos de trabalho missionário também nestas paragens. Foi bonito por isso ver pelo caminho fora as pessoas nos campos. Sente-se a esperança no ar, a esperança de poder recolher algo dos campos. A alegria do dom das chuvas, dádiva de Ilat – o espírito das chuvas – um dom maior do Deus Töroröt, Deus Único em língua Pökot.
Voltamos às crianças da escola pré-primária. Quiseram presentear-nos com uma canção a Maria. Ao princípio estavam um pouco envergonhados. Raramente vêem o missionário e muito menos um branco. Lindo! Um ritmo e uma cadência no canto que deixariam algumas bandas rock envergonhadas!
Começamos a eucaristia. O meu colega celebra a missa em língua Pökot, mas tudo o resto é em língua swahili, depois traduzida para Pökot pelo catequista. Sim… é verdade! A língua kiswahili em vários lugares da nossa paróquia/missão não é suficiente. Especialmente as senhoras e os anciãos, que não foram à escola, falam apenas o Kipökot. Sim! Adivinharam… dentro de alguns meses tentarei também aprender o Kipökot… outra língua mais! Apenas e só que esta é bem mais difícil que o kiswahili. Veremos!
É normal que as pessoas aqui celebrem a missa com todo o à vontade e também com tudo aquilo que são: simples e puros, celebrando a louvando a Deus Töroröt com toda a alegria e simplicidade. As mães com o seus filhotes ao colo, muitas vezes até a serem amamentados, seguem as palavras do meu colega P. Hubert como alguém que deseja saber mais e mais sobre o amor de Deus por eles e por toda a humanidade. É confortante saber como, mesmo no meio de tanta simplicidade, há nestes corações dos Pököt uma ânsia de conhecer e saber mais sobre Deus, sobre Jesus, sobre a nossa vida voltada para Ele. Na Europa e no mundo assim dito “civilizado” Deus já passou de moda… já não precisamos dele (pelo menos assim pensam alguns!). Aqui, conhecer Deus e escutar como Ele nos ama mesmo nas mais degradantes situações, é um privilégio que muitos Pököt não têm acesso.
No regresso à missão, já a meio da tarde, pude também observar a apanha dos “kumbekumbe”, uma espécie de insectos que são um dos melhores petiscos cá destas terras no tempo das chuvas. Normalmente nascem e crescem dentro dos formigueiros. Há toda uma técnica especial para os apanhar. Secam-nos ou torram-nos e depois serve-se frio com uma pitada de mais nada. Assim mesmo. Crus. Tenho que experimentar um dia destes… pode ser que me saibam a saudosas moelas ou pataniscas!
Regressámos à missão sem outras complicações, graças a Deus. Pelas 4 e tal da tarde tomamos o nosso almoço quase como nos casamentos… mas olhai que aqui não houve casamento nem aperitivos em casa da noiva antes da cerimónia… Houve sim alegria! Pelas 6 da tarde a capela estava quase cheia na celebração da missa com os jovens da escola secundária para a missa que celebramos com eles todas as quintas-feiras. Uma alegria e jovialidade como poderão imaginar.
O dia não podia terminar sem outra situação do dia a dia da missão. Todos os dias o gerador da missão é ligado pelas 7 da noite até às 9 e pouco uma vez que aqui nesta missão ainda não temos electricidade pública. Temos cerca de 300 jovens da escola primária e secundária da missão nos internatos. É necessário por isso prover-lhes com alguma luz para o estudo nocturno também. Nesse dia o gerador não queria começar… levamos o carro para ligar a bateria pensando que poderia ser da bateria do mesmo gerador. Nada! Verificámos tudo e nada… bom tudo não… quase tudo! Afinal era um dos fusíveis que estava queimado. É que aqui não temos as páginas amarelas para ir procurar um técnico para nos resolver o problema… ou o resolvemos nós ou então ninguém o resolve… O “busca-busca” do problema não foi à luz da vela mas sim à luz das pilhas ou foxes como assim chamamos na minha terra. Só faltava a música psicadélica como nas discotecas…
No dia seguinte dirigimo-nos para a outra missão comboniana nesta região Pökot. Encontramo-nos com os outros missionários e missionárias para um dia de retiro. Escusado será dizer que o carro vai sempre cheio de pessoas. Há sempre gente a querer movimentar-se e a pedir boleia. Felizmente hoje em dia já há alguns transportes públicos mas algumas pessoas não podem sequer pagar a viagem assim que se dirigem aos missionários para pedir boleia. Levamos connosco um dos nossos catequistas, dois estudantes combonianos que farão a sua experiência missionária nessa missão, e mais algumas pessoas. São cerca de 120km em estrada de terra batida… às vezes, no tempo das chuvas, não tão batida quanto seria desejável, pois em vários momentos tivemos que sair fora da estrada-picada para fugir à lama e poças de água que nos poderiam deixar atascados. Felizmente conseguimos passar todos os possíveis problemas com maior ou menor facilidade. A um dado momento chovia que “Deus a dava”! Pobres pessoas que iam atrás na pick-up. Tivemos que parar para recolher-nos por uns momentos numa das cabanas perto da estrada. Chegámos até bem perto da missão. Mas havia um último obstáculo: atravessar o rio que levava alguma água no seu leito, suficiente para nos fazer esperar uma meia hora. Atravessámos o rio várias vezes a pé. É a primeira coisa que tem que ser feita ao queremos atravessar um rio. Tirar de novo as sandálias, arregaçar as calças até acima do joelho e meter-se rio dentro. Eu e o meu colega Hubert, assim que entrámos no rio a pé, logo concordámos que haveria que esperar para ver se o rio baixava…
Entretanto tivemos tempo de ainda pôr no devido lugar o pneu que tínhamos furado uns quilómetros antes… mas os furos aqui são “tão naturais como a sua sede” – como dizia a publicidade.
Por fim, achamos que poderíamos atravessar… já depois de mais de meia hora de espera. E lançamo-nos ao rio… sempre numa incerteza mas com a certeza suficiente de que poderemos atravessar sem muitas dificuldades. Pulo aqui e pulo acolá, lá conseguimos atravessar para alívio dos que vinham connosco, bem como nosso também.
No dia seguinte, o retiro foi oportuno para agradecer a Deus pela boa viagem que tivemos… por nos ter permitido chegar bem a Amakuriat, o nome da outra missão comboniana em terras Pökot. Aqui está mais uma comunidade missionária comboniana entre o povo Pököt: 3 sacerdotes e 4 irmãs missionárias combonianas.
Legendas fotos:
Foto 1: Crianças referidas no artigo da escola debaixo da árvore em Tandopos
Foto 2: Mães Pokot referidas no artigo na comunidade de Tandapos
Foto 3: Crianças Pokt durante a missa em Tandapos
Foto 4: Escola primária com 8 salas de aula em Lokornoi

Kacheliba, terra Pökot (Quénia) – Maio 2009

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sábado, fevereiro 14

Fome no Quénia 1

Agnes Ekelan - "Só posso comer se vender a lenha!"

Agnes Ekelan, uma mulher turkana, é apenas uma das pessoas que enfrenta a crise alimentar no Quénia. Estimativas dizem que são cerca de 10 milhões em todo o país. A razão desta crise alimentar é uma combinação de factores: uma falha total nas colheitas devido à falta de chuvas e seca, preços elevados dos alimentos e o efeito dos confrontos pós-eleitorais no início de 2008 que não permitiram o cultivo dos campos, cortando para menos de metade a produção de milho, alimento base no país.

No dia 16 de Janeiro, o presidente declarou esta crise alimentar um desastre nacional e apelou os países desenvolvidos para a necessidade de 300 milhões de euros para enfrentar as necessidades alimentares dos 10 milhões de pessoas em risco. Normalmente o Programa Alimentar Mundial alimenta 1.4 milhões de pessoas e o governo queniano outro milhão. Mas esta crise alimentar afecta muitíssimas mais pessoas.

Pobre, viúva e faminta
São estas três palavras que definem a vida de Agnes Ekelan, uma mulher turkana que vive numa aldeia perto de Lodwar, a capital árida do distrito Turkana, noroeste do Quénia. À medida que o país enfrenta a crise alimentar, Elekan e centenas de milhares de pessoas noutras regiões afectadas pela seca agonizam diariamente não sabendo onde e quando encontrar a próxima refeição.
Elekan não sabe a sua idade, mas aparenta estar perto dos 50 anos de idade. Este testemunho foi concedido à IRIN no passado dia 7 de Fevereiro.

"Tenho 6 filhos; o meu marido morreu há vários anos de modo que tenho sido só eu a alimentar as ciranças. Porém, no último ano, tem-se tornado cada vez mais difícil alimentá-los pelo simples motivo de que não há comida.!

"Caminhei os 7Km desde a nossa aldeia de Naotin até Lodwar carregando um molho de lenha e algumas vasouras (pequenas escovas feitas de material local) para vender. Desde que cheguei aqui ontem, não comi nada porque não consegui vender a lenha; deixei as crianças em casa sem comida; tenho que conseguir vender a lenha hoje ou não como e não terei nada para levar para casa."

"Agora vou até ao pequeno mercado onde alguns vendedores vendem peixe esperando apenas que uma alma caridosa me dê a parte das espinhas..."

"No passado, era mais fácil conseguir encontrar comida porque os vendedores de outras partes do país traziam vegetais, fruta e cereais, tal como milho e feijões para vender aqui em Lodwar; mas desde a violência (pós-eleitoral) no ano passado, estes produtos começaram a ser poucos, imagino que por causa dos vendedores deixarem de vir aqui. Se se conseguem encontrar são muito caros e o pouco dinheiro que consigo ao vender a lenha não é sequer suficiente para um pouco de farinha."

"Eu continuo a perguntar-me: se não conseguir vender a lenha, onde vou conseguir comida? Não tenho sequer forças para regressar a casa. O governo ou alguma pessoa rica tem que vir ajudar-nos! Estamos a morrer aqui em Lodwar!"

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Fome no Quénia 2

Alice Wanjiru -
"Agora não temos carne e menos ugali*"
Há cerca de um mês, o presidente do Quénia, declarou como desastre nacional, a crise alimentar que o país está a enfrentar. Poucas chuvas, a violência pós-eleitoral do ano passado que não permitiu o cultivo dos campos, a corrupção política e ainda o preço elevado dos alimentos a nível mundial, são algumas das razões que levaram o país a esta situação. Foi pedida a ajuda internacional de países mais desenvolvidos para enfrentar esta situação.

O Programa Alimentar das Nações Unidas alimenta já 1.2 milhões de quenianos, especialmente em zonas mais áridas e dificeis. Esta crise está a aumentar o número de pessoas a passar fome no país para umas centenas de milhar acima dos acima mencionados. Estes novos "sedentos" encontram-se nas periferias pobres das cidades do país bem como nas áreas áridas do país.
Eis de seguida o testemunho de Alice Wanjiru, 44 anos, residente num dos maiores bairros de lata de Nairobi e em toda a África, Kibera. Ela sobrevive vendendo vegetais nas vielas do bairro.
"O preço da maioria dos produtos alimentares quase duplicou desde o ano passado; o meu marido, os meus três filhos e eu tivemos que fazer algumas mudanças no que comemos e nas quantidades de comida. Em vez de usarmos o pacote inteiro de 2Kg de unga (farinha de milho), agora usamos metade ou 3/4 para fazer ugali*. E agora nunca comemos carne."
"Até agora eu ainda não vi a unga subsidiada (pacote de 5Kg de farinha de milho ser vendida a cerca de 1,30€) que o governo dizia disponibilizar para os pobres; o facto é que as coisas têm piorado."

"O único meio de conseguir ganhar algum dinheiro é vender estes tomates e o meu marido é um jua kali (trabalha em todo o tipo de trabalhos numa base ocasional). Temos ainda 3 filhos que temos que alimentar e levar à escola. Até as escolas aumentaram as propinas este ano."

"Com o preço elevado dos alimentos, é muito dificil recuperar da perda das nossas coisas durante a violência (Janeiro a Março 2008) pós eleitoral; eu tinha 5 casas (barracas do bairro de lata); 4 tinha-as arrendadas e 1 delas costumava vender lá vegetais e cereais."

"Durante a violência, estas barracas foram primeiro roubadas e depois incendiadas; agora só vendo vegetais. Eu tenho mesmo um documento oficial a dizer que essas barracas eram minhas, mas eentretanto essas barracas foram reconstruídas e outras pessoas estão lá a fazer os seus negócios; o documento parece que não vale mesmo nada!"

"Agora estou preocupada em saber como vou poder conseguir o dinheiro para manter as crianças na escola. Peço ao governo para nos ajudar, especialmente aqueles que perdemos as nossas posses durante a violência pós-eleitoral; precisamos de ser compensados de forma a podermos voltar à posição (económica) que tinhamos antes da violência."

* farinha cozida - base alimentar do povo no Quénia.

Fonte: IRIN Africa News

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domingo, janeiro 4

Ano novo mas… os problemas de sempre!

Viajei ontem, dia 2 de Janeiro, desde a missão que me tocou em terras Pökot, Kacheliba, até Nairobi. Dentro de uma semana devo partir com outros três colegas meus para a Tanzânia. Iremos estudar durante quatro meses a língua swahili, muito necessária para trabalhar nestes países da África do leste.
Esta manhã, depois do merecido descanso das 9 horas de viagem com cerca de 500km percorridos por estradas ou por caminhos com o nome de estradas, pude ler com calma o jornal diário do Quénia, coisa a que não me é possível aceder em Kacheliba. E… bom! Ano Novo… mas os problemas são os de sempre.

A noite de 31 de Dezembro 2008 na missão de Kacheliba era tudo menos a habitual de todos os dias. Era evidente que esta era uma noite diferente. Logo que anoiteceu, começa-se a ouvir a celebração de fim de ano nos altifalantes da Igreja Independente Africana no centro de Kacheliba. Apenas a um escasso quilómetro da nossa missão. Nós, católicos, tínhamos já celebrado ao final da tarde desse dia. Agradecemos ao Senhor Deus Töroröt Papo, todas as bênçãos e benefícios do ano de 2008, pedindo-lhe também as maiores bênçãos para o ano novo, sempre aguardado com muita esperança. Porém, ao acordar do outro dia, do outro ano, a esperança é confrontada com os problemas de ontem: um ano com colheitas muito fracas, falta de acesso a água potável, começo do tempo seco que produz falta de alimentos, falta de dinheiro para enviar os filhos e filhas para o começo do novo ano escolar…
No entanto, a esperança dos povos africanos é algo de único e muito peculiar. Para uma grande maioria é a esperança que os mantém vivos. A única coisa que lhes resta. Ainda que saibam que pouco pode mudar, tantas vezes! Mas o testemunho e a confiança que nos dão, o não baixar os braços diante das dificuldades, diante dos problemas de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, é algo que nos faz pensar no significado da vida, no significado e razão de viver.
O som dos cânticos animados na Igreja, a pregação feita bem ao estilo protestante por um lado, bem como os sons da típica e pacífica noite Pökot por outro traziam-nos na expectativa do raiar de um novo ano. Ao longe, nos intervalos das celebrações da Igreja Protestante, escutava os sons celebrativos dos cânticos Pökot, ao redor da fogueira, no meio da escuridão da noite. Misturado com os sons humanos, percebia os sons dos animais, das cabras e das ovelhas. Quase como que também eles fazendo a sua festa de passagem de ano.
Chegada a meia noite, o começo do Ano Novo, houve explosão de alegria no ar. Gritos, cantos, tambores, todo o tipo de sons e expressões. Explosão de alegria por causa da esperança e das bênçãos que cada dia e cada noite são para o povo Pökot. No entanto, para muitos outros Pökot, mais no interior das suas aldeias, esta noite é apenas e tão só uma mais como tantas outras… é que isto de festas de passagem de ano é algo mais ocidental!!!

No dia seguinte, dia 1 de Janeiro, tocou-me ir com o pároco da missão a uma das nossas capelas celebrar a Eucaristia. O lugar chama-se Simotwa. Uma comunidade a cerca de 25 minutos do centro da missão. Porém, uma comunidade que durante o tempo das chuvas fica completamente isolada devido ao largo rio que tem que ser atravessado. Neste tempo seco a pickup consegue percorrer os cerca de 300mt de areia no leito do rio para depois chegar à capela. Porém, dizia-me o meu colega P. António, no tempo das chuvas temos que vir a pé, isto se pudermos e conseguirmos atravessar o rio. Caso contrário, a comunidade fica isolada durante meses. O grande problema é sempre encontrar o caminho correcto para a aldeia. Isto porque, seja no tempo seco seja no tempo das chuvas, os trilhos e os caminhos desaparecem pura e simplesmente. Há que adivinhar mais ou menos a olho a correcta direcção, para depois ter mesmo que inventar os trilhos e caminhos a percorrer.
Depois de esperarmos cerca de uma hora e meia para que os cristãos chegassem para a celebração (algo que é da praxe!) os cristãos desta comunidade mostraram a sua alegria pela vinda dos missionários: ofereceram-nos um bode! E esta é uma oferta valiosa. Os animais são para os Pökot o seu meio de sustento nas relações sociais e humanas. Seja para vender para conseguir dinheiro para comida, para tratamentos médicos ou mesmo para enviar os filhos à escola (algo que era bastante raro em anos anteriores).
Esta comunidade tem a sorte de a missão ter ali construído uma escola primária que visitámos enquanto esperávamos pela chegada das pessoas. Uma escola bem equipada para ter sido construída no meio do nada. Uma escola que é o orgulho da aldeia. Uma escola que tem as oito turmas que compõem a educação primária neste país.
Regressámos à missão com a certeza de que tínhamos celebrado de novo a esperança de um amanhã diferente. Um amanhã e uma esperança que não sabemos quando se concretizará. Mas uma esperança que nos faz acreditar que algo virá e mudará, ainda que este país pareça estar a levantar-se paulatinamente dos problemas que o assolaram há um ano atrás, depois das eleições mais sangrentas na curta história do Quénia desde a sua independência em 1963.

Ontem, ao longo da viagem, pude avistar ao longe vários campos de refugiados internos causados pela violência pós-eleitoral que há um ano deixou em dois meses, segundo números oficiais, 1133 mortos e cerca de 350 mil pessoas refugiadas no seu próprio país. Como é que, depois de um ano, as autoridades e o governo deste país não resolveram ainda o problema destes milhares de quenianos que foram forçados a fugir das suas casas e áreas de residência sob pena de serem mortos? No jornal de hoje é ainda referido que as vítimas da Igreja incendiada em Eldoret onde morreram 35 pessoas, entre elas algumas crianças, estão ainda na morgue do hospital desta mesma cidade. Esperam que os testes de ADN estejam finalizados. Esses testes destinam-se a identificar as vítimas, uma vez que ficaram irreconhecíveis. Este episódio que correu as televisões de todo o mundo no dia 1 de Janeiro de 2008 ainda não foi encerrado. As famílias, depois de um ano, continuam à espera dos corpos dos seus familiares para proceder às cerimónias fúnebres, tão importantes para a paz dos africanos depois da morte.
A violência pós-eleitoral do ano passado é ainda a responsável por uma lei sobre os meios de comunicação social que acaba de ser assinada ontem pelo presidente do país. Segundo os críticos, esta lei dá poderes aos políticos de governar sobre toda a indústria dos média. Podem, inclusive, mandar cortar editoriais e conteúdos programáticos dos jornais e televisões em ocasiões de emergência. Sob as mesmas circunstâncias, podem mesmo mandar a polícia destruir computadores e máquinas de imprensa escrita e televisiva. Segundo muitos, este é o fim da liberdade de imprensa no país, fazendo-os acreditar que voltamos aos tempos da ditadura até 2002 sob o governo de Daniel arap Moi. Problemas de sempre… apesar do ano novo!

No meio de todos os tumultos, um caso feliz… aquele que tantas vezes mantém viva a confiança e esperança destes povos. No bairro de lata de Kibera, o maior de todo o país, apenas aqui ao lado da casa provincial onde me encontro neste momento, surge uma notícia feliz. Doze crianças pobres deste bairro acabam de receber cada um bolsas de estudo de uma organização não governamental para prosseguir os seus estudos na escola secundária. Razão: no ano passado, ainda durante toda a tensão e conflito pós-eleitoral, estes 12 adolescentes, em condições degradantes de insegurança e onde tudo parecia tornar-se num colapso, conseguiram pontuações entre os 100 melhores estudantes nos exames nacionais finais da escola primária. Um caso de sucesso que só confirma a renovação da esperança que estes povos nunca parecem perder… apesar de tudo e acima de tudo!

P. Filipe Resende, mccj
Relatos da Missão em Kacheliba
North Pökot – Quénia

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