terça-feira, abril 10

A “Ressurreição” da Helena Chebet

Adolescentes Pokot depois da circuncisão

A Helena Chebet é uma menina Pökot com 13 anos. Em Janeiro passado, no início do ano lectivo no Quénia, entrou para o oitavo e ultimo ano da escola primária. Devido às condições difíceis das terras Pökot, os estudantes dos dois últimos anos da primária estudam em regime de internato. Em meados de Fevereiro, foi enviada a casa para recolher cerca de 6 euros para poder efectuar o registo no exame nacional da escola primária. Passou 1 semana, passaram 2 semanas, passou 1 mês e a Helena não regressava à escola.

Mães Pokot durante a cerimónia da circuncisão


Retida para ser casada

Esta é uma situação mais comum do que seria desejável em Pökot. Os seus pais retiveram-na na sua boma (palavra swahili para designar casa da família). Preparavam-na para ser a terceira mulher de um dos amigos do seu pai, um homem com uma idade acima dos 50 anos de idade. Para poder ser dada em casamento, deve primeiro ser submetida à circuncisão. Esta tradição está muito enraizada nesta cultura Pökot, mesmo que proibida pela lei do país. Trata-se da excisão do clitóris e dos lábios maiores das partes genitais da mulher. É efectivamente chamada “mutilação genital feminina”. Depois de ser circuncidada, a Helena seria entregue ao seu marido. Em troca, o pai da Helena receberia uma quantidade específica de vacas e cabras acordada entre o pai da Helena e o seu amigo. Normalmente, o dote pode variar entre 10 a 20 vacas e 5 a 10 cabras que são pagas ao pai da “noiva”. Obviamente que em toda esta saga, a Helena nunca disse sequer uma palavra ou emitiu qualquer opinião!


É necessário actuar depressa

Há cerca de duas semanas, foi-nos comunicado que as tentativas de resgate da Helena falhavam. Normalmente procura-se envolver os chefes locais para pôr em prática a lei. Os pais não podem reter e retirar as suas filhas da escola antes de terminar a escola primária. Parece que nem mesmo o chefe da aldeia estava a fazer bem o seu papel. Daí que decidimos apresentar o caso à polícia local. No dia seguinte, sábado, logo pela manhã decidimos visitar a boma e tentar resgatar a Helena. Comigo ia o chefe da polícia, a directora da escola onde a Helena estuda e a Irmã Cyprian, sua professora e irmã missionária aqui em Kacheliba.

Adolescente Pokot circuncidada e a mãe


Boas notícias

À nossa chegada não encontramos ninguém na boma à parte dos 2 ou 3 filhotes mais novos, irmãos da Helena. Tudo nos fazia parecer que foram avisados antes da nossa chegada. Ter-se-ao escondido e desaparecido de casa à pressa. Procuramos perguntar pela Helena. Não havia lugar onde poderia a encontrar. E os vizinhos tão pouco pareciam querer colaborar. Regressámos de mãos a abanar. Mas nem tudo eram más notícias: a Helena estava ainda em casa. Não tinha ainda sido circuncidada nem entregue ao seu marido. Mas o tempo não jogava a nosso favor... Sabendo que tínhamos procurado a Helena, os seus pais poderiam apressar as “coisas”. Não fiquei convencido! E decidimos, regressar nesse mesmo dia já com ao anoitecer. Certamente que não esperavam que regressáramos nesse mesmo dia. E muito menos já de noite. O factor surpresa poderia jogar a nosso favor...


“Padre, pode levar a vossa menina!”

Às 8 da noite chegávamos à boma da família da Helena. De novo eu, o chefe da polícia e a Irmã. Ao entrarmos na boma, um dos irmãos mais velhos da Helena imediatamente nos recebeu parecendo agradado com a nossa chegada. “Padre, nós concordamos em que leve a vossa menina!” - disse. “Vossa menina?!” – perguntei admirado. É que a ideia é que uma vez que a Helena é apoiada nos estudos pela nossa paróquia de Kacheliba, a Helena passou a ser “nossa” da missão! Respirei fundo ao saber que o pai não estava em casa. Com algum custo, sentámos-nos e conversámos por uma boa meia hora com os familiares e os vizinhos. Tentávamos explicar que a Helena tem o direito de terminar a escola primária e que não pode ser impedida de receber a sua educação desta forma. Aí, foi-nos dita a razão pela qual o pai queria “casar” a Helena: queria uma terceira mulher para ele! Ao conseguir os animais do dote da Helena, teria o suficiente para uma terceira mulher!

Adolescentes Pokot circuncidadas


“Voltei a sentir gosto por viver!”

Conseguimos regressar com a Helena nessa noite. No regresso, a Helena disse-nos que a sua entrega ao que viria a ser seu marido estava programada para daí a dois dias. Tudo estava programado! A Helena não se cansava de nos agradecer: “Via a minha vida já sem sentido...” – disse. “Eu quero terminar a escola primária e fazer os meus estudos, mas os meus pais só pensavam nos animais que poderiam receber ao entregar-me ao amigo do meu pai! Sinto que agora a minha vida voltou a ter sentido!”

No dia seguinte, domingo, celebrei a missa nessa capela. No final da missa, o pai da Helena quis tirar satisfações, tendo mesmo ameaçado um dos locais que nos ajudou a chegar à boma da Helena. Estava muito zangado o pai da Helena. Estava surpreendido, pois este senhor tinha mesmo sido um pastor local da Igreja Luterana... quando tomou a segunda mulher teve que deixar esse serviço na sua Igreja. Como pode alguém ter até sido pastor protestante, com alguns estudos e ainda assim comportar-se deste modo? Toda a comunidade local o condenou pela sua maneira de actuar. Se continuar assim a proceder, certamente que será aplicada a lei e poderá mesmo ser preso por contrariar a disposto na lei em defesa das crianças. A Helena está agora em segurança aqui na missão, pois nem mesmo nas férias poderá regressar a casa. O risco de ser de imediatamente tomada para ser casada é grande...

Adolescente Pokot em recobro dentro da cabana logo após ter sido circuncidada


Para mim, toda esta saga, e sobretudo as palavras da Helena, ajudam-me a entender como a Ressurreição de Jesus continua a acontecer hoje, e concretamente também aqui em Pökot. A Helena sentia que a sua vida tinha perdido todo o sentido, já não valia sequer a pena viver. Agora ela voltou à Vida, voltou a sorrir e a sentir que vale a pena viver. Tal como o escreve S. João, Jesus veio para que tenhamos vida e vida em abundância (Jo. 10,10). Também aqui essa Vida e essa Vida Nova da Sua Ressurreição continua a acontecer!

Os anciãos Pokot que procuram manter tradições intactas como a circuncisão...

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domingo, abril 24

Acreditar na Ressurreição pode ser muito simples!

O tempo de Quaresma, e sobretudo a preparação próxima à Páscoa na missão, é sempre cheia de actividades. Numa dessas actividades as lágrimas vieram-me aos olhos. Ao passar o filme sobre a vida de Jesus aos catecúmenos, fui surpreendido por uma expressão de regozijo dos catecúmenos ao verem Jesus Ressuscitado. Expressaram-se com um bater de palmas espontâneo e comovente ao ver Jesus ressuscitado
aparecer aos discípulos depois da sua paixão e morte. Afinal, sem muitas explicações e sem muitas teorias biblicas e teológicas, estes catecúmenos fizeram-me ver que pode ser realmente muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus...

P. Filipe com estudantes catecúmenos

Finalmente... o dia do meu baptismo

Ao aproximar-se o Domingo da Ressurreição de Jesus, são muitas as actividades na missão de Kacheliba. Uma das actividades é o curso de formação final para os catecúmenos. Realizou-se na semana passada em 3 locais da nossa (extensa!) paróquia. Aqui no centro da missão cerca de 80 adolescentes e jovens receberam as últimas instruções preparatórias para o Baptismo. Ao todo, em toda a paróquia, são mais de 170 adolescentes, jovens e adultos que serão baptizados neste tempo Pascal. Estes catecúmenos finalizaram um programa de catequeses de 2 anos e vêem agora o dia do seu baptismo chegar. É grande a alegria estampada no rosto de muitos destes catecúmenos... percebe-se que receber o Baptismo significa algo importante para as suas vidas.

Algumas das adolescentes catecúmenas

Junto dos que ainda não O conhecem

O meu tríduo Pascal este ano foi realizado numa das nossas capelas mais antigas da Missão chamada Kodich. Fica a uns 30km norte do centro Kacheliba. Ali tínhamos um grupo de 48 catecúmenos no curso final de preparação para o Baptismo. Desde 4ª feira até sábado receberam as últimas catequeses. Na 5ª feira santa presidi à Última Ceia do Senhor e 4 adolescentes receberam a comunhão pela primeira vez. Tinham sido baptizados quando eram bebés. Obviamente que antes da celebração receberam o sacramento da Reconciliação (pobremente apenas conhecido como “confissão” por muitos!). Um deles, um jovem já crescido, não comunicava sequer em swahili. Só mesmo a língua local Pökot. Já imaginam... eu já “pesco” umas coisas da língua local, mas escutar a sua confissão foi de facto um acto de fé da minha parte! Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece.

Depois da celebração passamos o filme sobre a vida de Jesus ao ar livre. São muitas as pessoas, cristãos e não cristãos, que comparecem. Claro que a electricidade essa só mesmo com o gerador. Mas... (in)felizmente passada cerca de 1 hora chegou uma surpresa: a chuva! Chuva aqui é sempre uma benção até porque este ano ainda não tinha chovido. Porém... toda a aldeia em peso teve que “fugir”. E a chuva, sempre tão abençoada nestas paragens, acabou por estragar a “festa”. Mas havia mais no dia seguinte...

Estudantes da escola primária para raparigas de Kacheliba

Na sexta feira santa a celebração da adoração da Cruz começou às 3 da tarde. Pelo meio a Via Sacra que foi percorrida nas ruas da aldeia. E que forma mais eficaz de anunciar a Morte e Ressurreição de Jesus. No regreso à capela eramos já quatro vezes mais pessoas na capela! Seguiu-se o filme da paixão de Cristo. Desta vez fomos acolhidos no salão da escola primária recentemente construído. Veio de novo a chuva mas desta vez estavamos bem acolhidos. Vários cristãos me disseram que nessa noite não ficou ninguém em casa em toda a aldeia. Não os contei mas deveriam ser seguramente mais de 300 pessoas!

O sábado Santo foi o culminar das celebrações... sempre muito adaptadas à realidade local pois claro! 15 baptismos: 10 adolescentes e 5 mulheres adultas. Confesso que a alegria, a concentração e a profundidade de alguns destes neófitos deixaram no meu coração um sentimento de que Deus toca de verdade a vida destas pessoas. Mas nem as quase 5 horas de celebração cansaram esta gente. O filme desta vez foi sobre S. Pedro e os primeiros cristãos após a ressurreição de Jesus. Foi pena que quase a acabar o filme o meu gerador ficou sem “zagolina”! Nada a fazer... ainda assim já cheguei a casa quase às 3 da manhã – contente por Deus me dar a oportunidade de ser sua testemunha da Ressurreição junto deste povo.

P. Filipe de visita a uma escola debaixo da árvore numa das nossas capelas

Liturgias mais ou menos litúrgicas

Devo confessar que as liturgías entre este povo que apenas começa a conhecer Jesus, são tudo menos “ao pé da letra e da rúbrica”! O silêncio, parte tão fundamental da litúrgia para a assimilação do que se celebra é algo que aqui fica um pouco de lado. Para o Pökot tudo o que se relaciona com Töroröt (Deus para este povo) significa entrar na esfera da celebração. Não quer isto dizer que as celebrações deixam de ser menos vividas, menos sentidas. São apenas e essencialmente diferentes. São o espaço de expressão alegre do que acreditam desde há séculos. São sentimentos tradicionais depois trazidos para a liturgia cristã. Com mais ou menos silêncio, com mais ou menos incenso, com mais ou menos ordem e regras litúrgicas, a Ressurreição de Jesus entrou já na vida e no coração de vários cristãos Pökot. É a força da Vida, da Boa Nova da Ressurreição que renova e faz novas todas as coisas em Cristo.

Um dos nossos catequistas anciãos com a sua esposa na sua "boma" (lar)

Desejo-vos a todos uma Santa Páscoa, cheia de significado e profundidade para a luta de cada dia da vossa vida. É lá que o valor da Vida e Ressurreição de Jesus fazem sentido! É lá que Ele quer ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Afinal de contas... até porque parece que é de facto muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus! SANTA E FELIZ PÁSCOA!

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sexta-feira, dezembro 24

Pureza de Natal


"Obrigado, P. Filipe! Este bocadinho de açucar e arroz vai dar-nos um Natal bonito lá em casa!"
Esta foi a resposta dada por algumas das pessoas que trabalham connosco na Missão. Agradeciam o tradicional "zawadi ya Krismasi" (lembrança de Natal) que costumamos oferecer-lhes.
Que alegria mais pura! Que pureza do verdadeiro sentido de Natal: o pouco, o simples, o humilde que traz uma enorme alegria e faz sorrir quem assim recebe.

Mais uma vez, uma lição grande para mim. Estas palavras e atitudes fazem-me voltar às origens. Fazem-me pensar naquele Menino Salvador que muito poucos reconheceram. Pobre - sem ter onde nascer em condições apropriadas; simples - sem grandes anúncios, sem grandes festas; só os pastores, a "escumalha" do povo de Israel, conseguiu olhar mais profundo e perceber que naquele Menino simples, pobre e humilde, nascia a Alegria maior que o mundo jamais acolheu!

São os gestos desta gente simples, pura e humilde que hoje me ensinaram a olhar mais profundo no que realmente significa celebrar a verdadeira alegria do Natal. Sem mesas recheadas de doces e requintadas refeições, sem luzinhas na árvore de Natal, sem os múltiplos anúncios natalícios que encharcam os nossos ouvidos e olhos, sem o corre-corre das prendas e lembranças...
Se me perguntam se sem tudo isso pode haver Natal... pois eu digo que sim! Precisamente porque este sentido do Natal, simples mas cheio de alegria, é aquele que me enche a vida e o coração.

Fica aqui a partilha de um texto que foi publicado na Agência Ecclesia há 2 dias em que descrevo como vivo o Natal em Pokot. Clique aqui.

A Todos um Santo e Feliz Natal, cheio da Alegria simples, pobre e humilde que é aquela que traz verdadeiro sentido à nossa vida!
Que Deus vos abençoe com um ano de 2010 cheio da Sua Paz.


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segunda-feira, novembro 29

Mensagem à minha paróquia

Regressando ao Quénia, enviei esta pequena mensagem à minha paróquia de Nogueira do Cravo. Linda a coincidência de regressar à Missão no Quénia na ocasião do Dia Mundial das Missões 2010. Tudo de bom a todos e uma vez mais muito obrigado! Deus vos abençõe a todos!

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sexta-feira, outubro 22

Retornar Revivendo a Missão

É verdade! É verdade! Foi muito tempo sem dar notícias por estas bandas... eu bem o sei! E, porque não me queda de outra, não posso mais fazer do que pedir desculpa a todos aqueles que têm visitado este cantinho do Amor de Deus na minha vida sem encontrar novidades. E não é que não as hajam... muito pelo contrário!

Momentos importantes na vida familiar
Muitos já saberão... estive em Portugal de férias desde meados de Agosto até meados de Outubro. Razão: o matrimónio do meu irmão Nuno com a minha cunhada Sofia. Momentos em que o amor de Deus se faz mais visível através do amor humano.
E logo na chegada fiquei surpreendido pelo carinho e amor que os paroquianos de Nogueira do Cravo quiseram expressar comigo. Confesso que não estava nada à espera. Fiquei desengonçado... desajeitado... fora de onda! Ainda mais quando estava a chegar de cerca de 15 horas de viagem... mas é assim que Deus mostra o seu amor e carinho por nós. Foi tudo muito inesperado para mim. Mas é assim que Deus, de vez em quando, nos faz umas carícias.

Momento da chegada à paróquia

Tempo de muita comunhão e sentido de missão
Durante estes dois ultimos meses foram muitos os testemunhos de pessoas que me falavam de um carinho e compromisso muito grande à missão. Não a mim... não! À missão pois ela é a que fala mais alto.
Foram também dois meses de intensos e renovadores encontros. Desde logo a celebração do matrimónio entre o meu irmão e a minha cunhada. Foi um dos momentos mais bonitos e profundos que jamais senti na minha vida sacerdotal e missionária: ser instrumento de Deus para que Ele, e não eu, mas Ele, abençoasse aquele amor que d'Ele nasceu no coração destes dois seus amigos, que no fundo são sangue do meu sangue!
Celebrações de baptismos que tinham até sido já marcados antes dos meninos nascerem...
Visitas a e de amigos que o tempo não apaga...
Encontros missionários mais programados ou nem tanto assim... Festa Missionária na Maia, encontro Jamborii dos Escuteiros de Nogueira do Cravo... enfim... um sem número de momentos de partilha missionária.
Mas apesar de tudo, sentir e presentir que esse Deus de Amor Incondicional continua a actuar na vida de tantos amigos e amigas, familiares, juventude... são tantos esses sinais! Obrigado a todos e em especial a um grupo muito bonito que sempre vive a missão com o coração - UTrilho!!!! Sois de facto espectaculares!

O regresso de coração cheio e também preocupado
Não foi fácil regressar aqui onde Deus me chama... por um lado a alegria de voltar para o meio daqueles que são os que Deus escolheu para eu crescer na fé junto deles; por outro lado várias situações de doenças e complicações da vida de alguns familiares e amigos... Situações que continuam no meu coração e nas minhas orações. Mas a vida é assim mesmo... e também a missionária não foge à regra! Muitos foram aqueles que não pude visitar como desejaria, como seria bom... mas ainda assim sei que nunca nós missionários estamos sós! Somos apenas e tão simplesmente servos inúteis (mesmo que felizes!) d'Aquele que nos envia.

A todos o meu bem-haja! Não há palavras para poder expressar tanto carinho, tanta proximidade, tanto amor para comigo e para com a missão. Agora é regressar ao dia a dia da Missão sempre com os seus grandes desafios, as também com todas as bençãos de Deus... essas bila shaka (swahili para "de certeza") nunca faltarão!

Um bom domingo do Dia Mundial das Missões 2010... Até breve já por terras Pokot!

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sábado, junho 12

Um Casamento Tradicional Pökot

A 24 de Abril, sábado, participei na segunda parte do casamento tradicional de um casal jovem de uma das nossas capelas. Digo a segunda parte pois a primeira tinha sido já realizada umas semanas atrás onde os pais do noivo e o noivo vão até à boma (a casa – conjunto de cabanas ou lar Pökot) dos pais da noiva onde todos se sentam e negoceiam qual o dote a pagar pela filha. Essa é a primeira parte do casamento tradicional pökot.
A caminho da casa da noiva com o dote (gado)

No sábado todos nos reunimos em casa dos pais do noivo e este é o dia em que o noivo vai “buscar” a noiva e a traz para casa para começarem a viver juntos. Todos os amigos e vizinhos se agruparam em casa dos pais do noivo onde as vacas estavam a ser reunidas para serem levadas para o dote da noiva. Contei 13 touros (mansinhos não como os das touradas!). Três deles eram ainda bezerros. Esse foi um dos problemas que mais tarde os pais da noiva tiveram que resolver com o noivo. Partimos todos juntos e, como sempre claro, com muitos cantos de alegria e de contentamento. A casa da noiva não era muito longe… uns 5km! O grande grupo de pessoas eram sobretudo mulheres que tornam a festa bem alegre e bem contagiante com os seus cantos. Ao chegar à boma da noiva a entrada está bloqueada com cordas e atilhos tradicionais.

O noivo a caminho - Julius

Ninguém pode entrar. Sempre através de cantos, os que estão dentro perguntam o que é que ali viemos fazer. Os animais estão ali todos diante da porta da cerca da boma à espera que as negociações funcionem. Os que estamos do lado de fora vamos respondendo: “Viemos buscar a noiva para o nosso noivo!” – respondemos também através de cânticos. De dentro respondem que ela não está em casa, que foi de viagem…

Todos à porta da cancela... fechada!

Claro que se têm que seguir alguns pedidos dos amigos que acompanham o noivo… também dei o meu contributo com 50 xelins (cerca de meio euro!) Depois de pedidos e mais uns trocos acabam por abrir a cerca e os animais entram para o cural e todos explodem de alegria. Porém, noiva ainda nem vê-la. Está escondida numa das cabanas. Os familiares vão ver os animais que foram trazidos pelo noivo e confirmam se tudo está como acordado no dia do primeiro encontro. Parece que haviam alguns problemas…
A "boma" dos pais da noiva

O pai do noivo é chamado para dentro de uma das cabanas para se encontrar com o pai e os tios da noiva. O noivo está com os seus amigos fora da cabana à espera do resultado das negociações entre os anciãos e pais dos noivos. Entretanto os membros da família da noiva distribuem o chá do costume a todos. O pai do noivo saiu e explicou que o número de animais trazidos não corresponde ao acordado. Parece ser que tinham acordado que seriam 19 touros. O noivo trouxe apenas 13 e 3 deles são ainda bezerros! Foi então agora chamar o noivo para que ele diga o que pretende fazer. Por tradição nenhum noivo traz os animais todos neste dia. Ficam sempre alguns por pagar para mais tarde… Assim que o Júlio teve que pôr-se de acordo quando trazer os restantes. Parece que finalmente se chegou a acordo. Entretanto, durante todo o tempo de negociações a noiva nem vê-la ainda, apesar de o ambiente na boma ser de festa completa. As mulheres nunca se cansam de cantar, dançar e pular…

Uma forma engraçada de "servir" as canecas!

Todos a aguardar resultados das "negociações"
Entretanto as mulheres vão à água... ao rio mais próximo

Chegados ao ponto de acordo é então servida a refeição… aqui não há nem 1º nem 2º prato… há um só apenas! Alguns pratos têm mesmo que ser partilhados! Olhei para a comida e logo vi que era comida de festa: arroz e um pouco de feijão… É a comida dos “banquetes.” Entretanto a chuva também fez das suas… e a meio do pratinho de arroz e feijão foi necessário correr para debaixo das goteiras das cabanas para nos protegermos da chuva.

À "mesa" do casamento com o noivo

Sim! Aqui também acreditam que o dia do casamento com chuva é dia de casamento abençoado. Depois de um bom bocado até que terminámos o arrozito com os feijões parou de chover. Eis que finalmente a noiva saiu da sua “toca” (cabana!) acompanhada por 8 adolescentes a cantar e em procissão… E… eis que agora sim! A festa iria começar…

Aspecto da procissão nupcial

Como bons africanos a dita “procissão” devia deslocar-se por uns 30 metros entre a cabana “esconderijo” e a cabana onde as negociações tomaram lugar. Normalmente não toma 2 minutos a percorrer esse espaço. Mas neste dia, passo à frente e passo atrás (de dança!) foram uns bons 20 minutos! Por fim a noiva lá entrou na cabana. Mas o encontro com o noivo não tinha chegado ainda. As raparigas, “damas de honor”, continuaram a dançar cá fora. Cada uma é chamada para ir buscar um dos “amigos do noivo” para que venham diante das moças a cantar e dançar. Ali há um diálogo de cantos procurando dizer se estes “amigos e amigas dos noivos” são por acaso os noivos! É claro que antes que todos acabem de perfilar e serem “julgados” diante das cantoras e dançarinas passa mais meia hora!



Até que por fim é chamada a noiva (sempre através de cânticos) para que vá buscar o seu noivo e o apresente a todos os convidados para a aprovação final. Somente aqui a noiva sai e vai buscar o noivo que está ao lado da cabana mas do lado de fora. É então o auge da alegria para todos os convidados ali presentes. Os cânticos, mais uma vez, a narrarem a história dos noivos pois claro! Bom… e de ali para o local onde se seguirão os discursos.


Por fim... juntos!

Aqui todos os convidados vão também oferecer os seus presentes. Mais uns 10 minutos de “procissão” a cantar e dançar (mesmo com a chuva a encharcar). Tocou-me a mim e ao catequista que estava comigo abrir as hostes com uma oração e umas palavrinhas. Foi um momento muito bonito e também de evangelização. Isto porque lemos um texto de S. Paulo sobre a vida em casal. Pois claro que se seguiram umas palavrinhas explicativas.


Seguiram-se depois muitos outros discursos e também orações. E digo orações porque estariam ali além de nós outras 5 ou 6 igrejas diferentes com o seu pastor. O noivo é católico, mas a noiva é luterana e os pais dela de uma outra igreja protestante africana aqui da área. Assim que é uma “fartança” tutti-frutti de igrejas pois claro!
Chegou o momento de a mãe da noiva e as irmãs vestirem e darem os seus presentes à mãe do noivo e às suas irmãs. Aqui entendemos irmãs também as cunhadas, as tias e as sobrinhas… é o conceito africano de família alargada. À mãe do noivo uma saia e t-shit novas. Às outras um destes típicos panos africanos que as mulheres usam à volta da cintura e que serve também de saia. As famosas capulanas. São entregues uma por uma, com cada uma a fazer uma festa enorme correndo à volta dos noivos com muita alegria. Pensava eu com os meus botões: que alegria tão grande manifestada por somente lhe terem dado um pano novo! Quanta alegria! E a quantos, noutras partes do mundo, lhes são dadas coisas bem mais valiosas e nem festa se faz, nem um obrigado!!!
Chegou o momento dos convidados oferecerem os seus presentes. Os convidados: os católicos, os protestantes, os jovens de cada uma das igrejas, os vizinhos, os familiares… Os presentes: algumas cabras, ovelhas, canecas de alumínio (usadas para o chá!), roupas, pratos, travessas, termos (onde costumam guardar o chá ainda a ferver) e também dinheiro… O dinheiro é curiosamente posto dentro de uma bacia que está coberta com um pano para que ninguém saiba o que cada um vai dando! Porém ninguém dá mais do que o equivalente a 3 ou 4 euros… uma fortuna para alguns. O salário de um dia de 2,5 euros aqui nesta zona é já um bom salário diário.
Bom… mas a festa ainda não tinha acabado. Teria agora que o noivo tomar a noiva oficialmente da boma dos seus pais e levá-la para a sua casa. Mais um momento de júbilo, claro. Regressamos então para a boma do noivo onde a festa continuou até ao dia seguinte, domingo. O meu colega Hubert foi celebrar a missa numa capela perto e no regresso teve que entrar para a festa também. A mim já se fazia tarde e a chuva tinha feito das suas. Porém, não pude abandonar sem de novo ter comido mais um prato de arroz e feijão… a comida por excelência das festas. Nada de bolos, açucares, pudins flã nem nada do que se lhe pareça!
Como já era quase noite tinha que regressar. Tinha medo que não iria poder atravessar o rio grande que ficava no caminho de regresso. E “meu pensado” (não dito!) meu feito! Como tinha chovido muito era impossível passar com o carro.

Um outro dia cruzando o rio a pé até ao carro

Foi necessário ir procurar uma outra boma para deixar o carro até ao dia seguinte. Atravessámos o rio a pé onde já nos esperava o meu colega Hubert do outro lado do rio com o outro carro. No dia seguinte levei o meu colega a esse mesmo rio, atravessou-o a pé, tomou o carro, foi celebrar a uma capela perto dali e, no final da tarde, já o meu colega pôde regressar e atravessar com o carro pois já não havia água no rio.
E é assim a vida que todos os dias vamos encontrando e agradecendo a Deus. Aventuras que depois de 2 ou 3 vezes já o deixam de ser e passam a ser mais bem “trabalhos” pesaditos depois de um dia de visita às comunidades!

Escrito em 30 Abril 2010


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Pastoral em Tempo Pascal

O tempo pascal é, como sempre e como todos os outros tempos, de muito trabalho. Estamos particularmente envolvidos nos baptismos dos adolescentes que receberam as catequeses durante 2 anos e terminaram a formação na Páscoa passada (2010). Este ano mudámos um pouco a tradição e em vez de baptizarmos a todos aqui no centro da paróquia na vigília pascal, decidimos ir visitar as capelas onde vivem com as suas famílias e baptizar lá junto com os cristãos originários dessas mesmas comunidades.
Visita a uma das comunidades

Por vezes isto é mesmo um grande desafio: algumas vezes os padrinhos têm que ser os mesmos para quase todos… como por exemplo, amanhã (30 de Abril) vou a uma das nossas capelas que é mais distante… não tanto em distancia mas sim em tempo para lá chegar: 1h 15m. Isto porque as estradas, ou se quisermos as picadas, não são nada famosas. Estamos em plena época das chuvas e cada vez que saímos é uma aventura! Aqui em Kacheliba o rio voltou a fazer das suas e transbordou e a água chegou mesmo a passar sobre a ponte… no caminho destruiu parte da estrada e ainda algumas casas de pessoas ali do centro, algumas tinham as suas lojazitas de vender algumas coisitas… muitos dos produtos foram por água abaixo.


Na "boma" duma comunidade

Ainda ontem tive um pouco de problemas em passar um dos leitos de um rio no caminho para uma capela. É que o rio quando passa deixa as margens como paredes… ontem foi preciso ir pedir uma enxada para aplanar as margens do leito do rio de modo que pudesse passar. Depois de umas tentativas a coisa lá foi.
Um outro problema que dizia acima é que em algumas capelas os cristãos baptizados são bem poucos. Como a que vou amanhã… estamos mesmo nos começos e por isso os padrinhos acabem por ter de ser sempre os mesmos para quase todos os baptizados. Mas creio que são momentos importantes e lindos para as pessoas.


Nestes dias tivemos 3 encontros simultâneos de catecúmenos. Ao todo os adolescentes são quase 200. Como é tempo de férias (ainda depois do 1º trimestre), podemos fazer os encontros de catecúmenos e formação usando as instalações das escolas. Começámos no domingo à tarde e terminou esta manhã. Este trabalho não o podemos fazer sem os catequistas. Assim um grupo (de cerca de 85) reuniu-se aqui em Kacheliba. Outro numa das capelas a sul – Serewo – a 25km daqui e onde fui todos os dias para celebrar a missa à tarde e à noite passar um filme sobre a bíblia que acompanha as catequeses. Ali estavam cerca de 45. Uma outra capela a norte da paróquia – Kodich – também com uns 55, com o mesmo sistema e onde foi o meu colega Hubert. Já regressávamos sempre depois das 11 da noite! Mas graças a Deus correu bem ao que parece e é sempre uma alegria poder assim ver a vida que floresce nestes cristãos do amanhã.


Depois de amanhã começamos o encontro de fim de semana com os jovens da paróquia. São sempre mais de 100! E terminaremos no domingo. Logo de seguida mais uma semana de formação e encontro com os catequistas aqui na paróquia.

Escrito em 28 de Abril 2010

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domingo, agosto 2

A escola primária de Kacheliba para raparigas

No final do mês de Agosto, no início do 3º período do ano escolar aqui no Quénia, cerca de 400 raparigas irão instalar-se de vez na recém construída escola primária de Kacheliba.

Esta escola é internato pelo simples facto de que muitas das crianças em terras Pokot têm que deslocar-se vários quilómetros desde suas casas para poder receber a educação primária.
A escola foi construída pela nossa comunidade missionária. Foram várias as organizações que financiaram o projecto: Manos Unidas de Espanha, a província italiana dos Missionários Combonianos, Edukans (através da Diocese de Kitale) e ainda uma contribuição local do governo queniano.
A construção iniciou-se em Agosto de 2008, sendo que, passado 1 ano, quase todo o complexo está terminado.
A construção tem 3 fases:

Fase 1: construção de 4 dormitórios, latrinas e banheiros, cozinha com despensa e salão de estudo que serve também de refeitório;

Fase 2: construção de 9 salas de aulas em 3 blocos, bloco administrativo e latrinas;

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola;

Fica ainda a faltar a construção da vedação de todo o recinto escolar... até que mais ajudas possam ser encontradas.

Ficam de seguida 3 pequenas apresentações sobre cada uma das fases.

Fase 1: construção dos dormitórios, latrinas,
duches, cozinha e salão de estudo/refeitório.

Fase 2: construção de 3 bocos com 9 salas de aula, bloco administrativo e latrinas

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola

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domingo, julho 12

Presentes de Deus!

Foi já há umas semanas a última vez que abri o meu diário aqui no blog. A razão é simples e a mais óbvia de sempre: tempo!
Sim, também por estas bandas o tempo é apertado para tudo o que desejaria escrever. Cada dia que passa daria uma boa página de diário missionário…
Amanhã terão passado 2 meses desde que regressei definitivamente a Kacheliba. Foram 2 meses de intensas actividades e também alguns contratempos.

Numa das comunidades durante a distribuição do milho
Dar de comer a quem tem fome
Desde o dia 5 de Junho, dia do meu aniversário, que iniciei a distribuição de milho doado pelo nosso Bispo da Diocese assim como algum que também nós como comunidade missionário comprámos. Foi uma oportunidade de poder conhecer as 51 capelas da nossa paróquia. Nesse dia 5 de Junho, iniciar esta distribuição do milho foi o melhor presente que Deus me podia ter dado. ainda que, numa das comunidades, me ofereceram uma pequenina garafinha de plástico de mel... Em duas semanas foi possível ir a quase todas as capelas. É que as chuvas continuam teimosas em não passar por estas terras. As sementeiras começam a secar.

Uma das "shambas" (campos) com o milho já seco

É desolador ver muitos campos com o milho estragado devido á falta de água. As pessoas começam a perder a esperança e temem que este ano seja como o ano passado: sem colheitas. É por isso necessário ajudar um pouco as pessoas. Só que é impossível ajudar toda a gente… o grande “nó na garganta” que todo o missionário experimenta! Levamos a cada capela 2 sacos de milho de 90kgs cada um. 100 foram doados pelo Bispo da Diocese, outros 100 comprámos ao preço de 27 euros cada um.
Um dos médicos atendendo as pessoas com problemas oculares

Catequistas e operações aos olhos
Tivemos também 3 dias de encontro com os catequistas. Este encontro é realizado cada 6 semanas. São 3 dias intensos de formação e de planear o andamento das actividades da missão. Sem os catequistas seria impossível para nós poder chegar às pessoas. São cerca de 45 os catequistas e cada um trás o seu relatório do andamento das suas comunidades. Um trabalho constante em comum da busca da vontade de Deus para a paróquia.
Na outra semana tivemos também uma equipa de 15 médicos especialistas dos olhos aqui na missão por 4 dias. São muitas as pessoas com cataratas e com glaucomas nos olhos. Muitos já desde há muitos anos… doenças que podiam ser evitadas com um pouco mais de higiene e cuidado no lavar os olhos cada dia. Foram atendidas nestes 4 dias cerca de 600 pessoas, metade das quais (300) tendo mesmo sido submetidas a cirurgias. Foi uma actividade financiada pelo Lions Club de Kitale, a Diocese a que pertencemos.
O dispensário da Missão improvisado em "bloco operatório"

A mais bela experiência do Anúncio de Jesus
Há uma semana atrás também recebemos cá o Sr. Bispo para administrar o sacramento do Crisma a cerca de 250 cristãos. Realizámos duas celebrações: uma no sábado numa das nossas capelas e outra no domingo aqui no centro da missão. Torna-se mais fácil para os cristãos de mais longe se deslocarem.
Porém, as visitas às comunidades locais é o trabalho que mais me apaixona e me faz sentir bem realizado como missionário. Chamamos a estas visitas às comunidades de “matembezi” em língua kiswahili. Chemakeu é uma dessas comunidades que visitei num destes dias. Fica a cerca de uma hora daqui da missão de carro. Vivi uma das mais belas experiências desde que cheguei ao Quénia. Saí daqui da missão de manhã com o catequista pois também ele tinha vindo aqui à missão com a sua mãe por causa das operações aos olhos que referi acima. Aproveitei para levar a uma escola primária dois sacos de milho pois as crianças nesta escola não são apoiadas ainda pelo governo assim que a comida da escola depende da ajuda dos próprios pais das crianças e da missão.
Chegámos a Chemakeu e estive uns minutos em casa do catequista. Melhor… na sua cabana! É um bom catequista e com muita vontade de trabalhar e anunciar Jesus, mas também tem alguns problemas na sua vida que não o deixam sobreviver só com este trabalho. Depois caminhámos a uma outra família e à sua cabana. Aqui chamámos à casa das pessoas "boma"; normalmente a "boma" é o recinto, a área onde têm duas ou três cabanas, um curral em forma de cabana também para os animais e o pátio em frente das cabanas... Caminhámos cerca de meia hora pela savana dentro até à casa de uma senhora cristã baptizada, mas que já há uns tempos tinha deixado de vir à capela. Resolvemos com o catequista ir fazer uma celebração domiciliária... quase a chegar fomos surpreendidos por uma valente chuvada! Graças a Deus! E que bem que soube aquela chuva cair pelas orelhas abaixo... Chegámos todos encharcados, mas também felizes pelo dom de "ilat", chuva em Pökot... ou melhor, o espírito da chuva para os Pökot. Fomos recebidos com o tradicional chá queniano (chá preto com umas gotas de leite de cabra!), e entretanto os vizinhos foram chegando. Uma hora depois, entre conversa e chegada de vizinhos, dentro da cabana estávamos cerca de 20 pessoas. Destas só 4 eram baptizadas, excluindo eu e o catequista, pois claro! Todos os outros, senhoras, alguns jovens pastores e alguns homens casados, ainda não eram baptizados e pouco sabiam de Jesus e de quem é Jesus. Mais uma vez também voltei a confirmar o quanto necessito de aprender a língua local Pökot, pois tudo o que disse em Kiswahili tinha de ser traduzido. O catequista foi o que dirigiu o momento de oração que fizemos, lendo a passagem do evangelho do domingo seguinte e explicando-o. Veio depois a minha vez de também apresentar quem é Jesus, o que é a bíblia e porque é que lemos o livro da bíblia; explicar porque é importante escutar o que Jesus disse e nos diz hoje através da bíblia... o básico e mínimo por onde se começa o anúncio de Jesus, O Filho de Deus, Töroröt, Deus para os Pökot. Todos rezamos e o tempo passou de uma forma que nem sequer demos conta. Estivemos naquela "boma" cerca de 3 horas. Uma alegria enorme na despedida... e eu também me sentia muito feliz e realizado pois foi para isto, sobretudo para isto, que fui chamado por Deus como missionário. Era hora de regressar não sem antes passar pela “boma” de um outro cristão jovem que está a viver com 4 filhos, depois da mãe os ter abandonado a todos por causa da falta de comida... algo que me chocou bastante...

Visita a uma das capelas com as crianças da pré-primária na sua sala de aulas debaixo da árvore!

Quando chegámos estavam a preparar uns frutos selvagens que é a comida que têm nestes dias em casa. Graças a Deus as crianças têm assegurada uma refeição na escola de milho e feijão misturados. Mas há outros que não vão ainda à escola... estes frutos selvagens custam a preparar e só no dia seguinte iriam estar comestíveis... pelo que nesse dia, como em tantos outros, iriam deitar-se com o estômago vazio. Acabei por deixei-lhes o equivalente a 1 euro que é suficiente para comprar 2 quilos de milho e que os ajudará a ter uma refeição à noite por 2 ou 3 dias! Situações que, contadas a muita da gente jovem nos países desenvolvidos, não dá para acreditar!
Apesar de tudo nesse dia regressei feliz e realizado para casa... feliz pelo dom da vocação missionária a que Deus me chamou.

A anterior capela de Lokomolo

Um domingo nas comunidades
Hoje, domingo, fui celebrar a uma comunidade chamada Lokomolo. À minha chegada foi-me dito que se esperavam outras pessoas de duas comunidades/capelas “próximas”. Próximas no conceito Pökot, pode significar que estavam a cerca de 2 horas de caminho a pé! Lógico que em vez de começarmos às 10.30, a celebração começou já perto do meio dia. É o horário africano que olha mais para o tempo em quantidade do que a quantidade do tempo. Celebrámos numa das salas de aulas da escola ali construída pela Missão. A capela, ainda recente, ficou sem o tecto devido a um temporal há cerca de um ano. Desde então, estamos a tentar organizar-nos junto com as pessoas para podermos repor o telhado de chapa de zinco… São muitas as despesas que temos e nem sempre chega para tudo ao mesmo tempo! Assim que é necessário ir esperando também pela providência!
Devo dizer que a um dado momento, contando as criancinhas pequeninas e bem irrequietas, estaríamos umas 80 pessoas naquela “capela” improvisada. A grande maioria, uma vez mais, não baptizados. Para a comunhão aproximaram-se apenas umas 20 pessoas.
Mas este, foi um dia especial: sem contar e sem me ter preparado convenientemente, foi-me pedido pelos catequistas que celebrasse a missa em língua local Pökot. Normalmente celebrava em língua kiswahili. Nunca o tinha feito antes na língua local e, mesmo a ler, é bem distinta do kiswahili e bem mais difícil. Lancei-me! Nos momentos justos, as pessoas lá iam respondendo à missa, sinal que a minha pronúncia ia sendo entendida pelo menos em parte. Mas devo confessar que me custou. Claro que a homilia foi em kiswahili e traduzida pelo catequista, mas… foi uma experiência mais que me ensinou que o Espírito de Deus é aquele que trabalha nas pessoas, muito para além das nossas próprias capacidades ou especialidades!!!
Entre o meu falar Pökot meio enrascado, o choro intercalado das crianças e o entrar e sair de algumas das pessoas por razões que não conseguia escrutinar, a verdade é que a aparente apatia dos cristãos durante as celebrações em muitas das nossas paróquias na Europa, por e simplesmente aqui não existe. Em muitos momentos foi mesmo necessário parar a homilia para que as crianças fossem atendidas (normalmente com a mamita da mãe… fim do pio!) ou que as pessoas que entravam se acomodassem. Definitivamente… celebrações bem distintas e diferentes das nossas liturgias europeias tantas vezes cheias de “pompa e circunstancia”.
No final da missa (que ainda assim durou 2 horas), há lugar a discursos e boasvindas aos visitantes das outras capelas; depois o chazinho queniano do costume. Entre isto e mais aquilo, deixei a capela de regresso à Missão já depois das 3 da tarde.
Mais um dia feliz na vocação a que Deus me chamou. Conto, como sempre, com a vossa oração, sobretudo, para que Deus nos envie o dom das chuvas, tão escassa e tão necessária para a sobrevivência destes povos.

Escola de Lokomolo construída pela Missão lugar da celebração da Eucaristia

“Pensamentos do meu diário”
Kacheliba, Pökot Norte – Quénia
12 de Julho 2009

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domingo, maio 31

Começando a entrar nos esquemas… da missão!

Hoje, 24 de Maio, dia da Ascensão do Senhor, presidi e fiz a homilia em Kiswahili pela primeira vez. Celebrei duas missas. A primeira foi com os estudantes da escola internato aqui da missão, a escola primária. Começamos pelas 8.15h e depois a missa seguinte às 10,30h, ainda que a hora de começo na verdade é às 10.00h. Mas estamos em África!!!
Aspecto da celebração da missa na Missão de Kacheliba

Esta segunda missa é com as pessoas aqui de Kacheliba e ainda os alunos da escola secundária também aqui da missão. É também uma escola de internato. Muitas das escolas aqui são internatos pois as pessoas vivem muitas vezes bem longe das escolas e por isso têm que enviar os filhos para a escola e ficar em regimes de internato… no entanto as condições não são nada comparáveis aos nossos colégios internos… nem por sombras! É a necessidade que faz termos os internatos.
Senti-me de verdade muito bem. Penso que os 4 meses que foram investidos na aprendizagem da língua foram bons. Eu tive que me preparar escrevendo a homilia, pensando ler nas missas. Sim, li um pouco mas a um dado momento pus o papel de parte e fui por aí fora. Mais de acordo com gramática ou menos, o importante é que as pessoas no final da missa me disseram que entenderam bem o que quis dizer; diziam ter entendido bem a explicação do evangelho. Posso dizer-vos que sentia um pouco de medo ao começo. Não é o mesmo que o inglês ou muito menos que o Português… mas sinceramente senti que tantos os alunos como as pessoas me seguiam. Pelo menos iam respondendo também ao que lhes ia perguntando durante a homilia… Creio que este foi um primeiro passo que dei e que agora será já com mais e mais confiança. Além do mais, o kiswahili aqui do Quénia não é o kiswahili dos professores na escola da língua… é muito mais fluente e por vezes as regras gramaticais não existem… Assim que me sinto muito feliz por mais este passo na inculturação e na introdução da vida missionária.

Crianças Pokot durante uma celebração
numa das capelas... ao ar livre!

Visitas às capelas
Ao longo desta semana pude visitar com o meu colega Hubert, várias capelas bem como escolas das quais somos os “patrocinadores”, aqui dizem em inglês, sponsors! Em toda a paróquia creio que são há volta de 20 escolas primárias de quem somos “sponsors”, ou seja, foi a missão a começar as infra-estruturas. Muitas delas não têm ainda as salas de aula para os 8 anos que compõem a escola primária aqui no Quénia. As escolas sempre foram uma das grandes prioridades da missão, depois do trabalho de evangelização. Há 30 anos não existiam praticamente escolas nenhumas aqui na zona.
Na sexta-feira, dia 22 de Maio, eu e o Hubert saímos daqui da missão ao final da manhã para uma reunião numa das escolas não muito longe aqui da missão. Uns 20 minutos de carro. Porém, por causa de um grande rio que enche e é bem largo quando chove (como estes dias!) torna este lugar quase inacessível para lá chegarmos de carro. Neste dia a “estrada-picada” até não estava nada mal. A reunião começou pelas 13.30h. Era uma reunião com o representante da área do ministério da educação. Há aqui em cada escola uma espécie de Comissão Escolar, o que em Portugal seria o Conselho Pedagógico, de que fazem parte o “sponsor”, o director da escola, representantes do governo e pais. Isto parece tudo muito oficial e pomposo, mas na realidade são comissões constituídas pelas pessoas do lugar. O problema era que a anterior comissão era provisória. Numa dessas comissões, imaginem, o presidente era uma pessoa cega, um dos pais, e o tesoureiro não sabia ler nem escrever… Parece anedótico… mas era verdade! Não é que seja mau que as pessoas diminuídas fisicamente ou culturalmente façam parte destas comissões… pelo contrário, mas a preparação destas pessoas aqui não é a mesma que o mundo ocidental muitas vezes oferece. Parece que a anterior comissão conseguiu dinheiro de um fundo monetário do governo e construíram a escola com salas de aula novas. Antes a escola funcionava em apenas 2 salas de aula construídas há uns anos atrás pela missão. Muito bem! Chamaram um construtor local para o trabalho… das 8 salas de aula apenas 4 podem ser usadas pois as outras estão a ponto de cair… sem nunca terem sido usadas! A construção foi muito pobre. A reunião começou debaixo de umas árvores no terreno da escola. Nas reuniões aqui todos falam, bom… pelo menos os anciãos e os homens. As mulheres é-lhes dada voz já depois de todos terem falado e dado a sua opinião… infelizmente, pois muitas vezes são as mães as grandes interessadas na educação das crianças. A um dado momento, depois de já 3 horas de reunião, a chuva ameaçou! Fomos todos para dentro de uma sala de aula. E a reunião continuou até às 6.30 da tarde, ou seja, depois de 5 horas de reunião, foi constituída uma nova comissão escolar. Aquilo que mais me chamou a atenção é a forma como as pessoas têm a capacidade de resolver problemas entre eles… Os anciãos são de verdade pessoas cheias de experiência e muitas vezes são os grandes construtores da união entre este povo. Mas também se dão para o torto, são os principais factores de desavenças entre as pessoas… O importante é que no final todos estávamos contentes com o resultado da reunião. Este ano a escola tem apenas duas classes-anos a funcionar, muitas vezes com poucos alunos, como estes dias. Isto porque tradicionalmente os Pökot não são ainda muito abertos à educação das crianças. Muitas vezes enviam as crianças à escola pois, pelo menos na escola, geralmente, as crianças podem ter uma refeição. Apesar de que neste tempo de fome, sabemos de escolas a quem o governo não enviou comida suficiente e os alunos não têm muito para comer. Esta escola é uma delas…
Anciãos Pokot - os "juízes" locais

Também temos problemas logísticos...
Na quarta-feira anterior também tivemos uma outra reunião numa das nossas capelas. Desta vez bem mais longe daqui da missão. Mais de um hora por caminhos que só são “arranjados” quando o missionário vem para visitar a comunidade. Por fim lá chegamos. Desta vez o problema era diferente. Há 20 anos o terreno para a construção da capela foi doado ou comprado pela missão (não sabemos!). É cerca de 1 hectare. O ancião morreu há 2 anos. A sua mulher (parece que este só tinha uma ao contrário de muitos outros!) juntamente com os filhos (um deles é guarda em Mombasa… a 1200km daqui!) reclamam o terreno, ou querem apenas que o terreno da capela fique reduzida a um espaço de ¼ do hectare… Certamente que este caso é, aí em Portugal, um caso de tribunal… até porque não sabemos se há algum acordo escrito ou não deste terreno. De qualquer forma o terreno é dos cristãos desse lugar e por isso terão que ser eles também a decidir junto com os anciãos como resolver este problema. E mais uma vez, é linda a forma como as pessoas se escutam! Todos intervêm (normalmente os homens, ainda que aqui foram também as mulheres que são muitas vezes as que vêm mais à Igreja… tal como aí em Portugal!). Escutam-se, procuram clarificar coisas e por fim os anciãos são os juízes que decidem o que fazer. Até o chefe local representante do Governo nesta localidade, uma espécie de presidente da junta, está na reunião, mas são os anciãos aqueles que têm o poder tradicional de decidir. Desta vez parece que a pobre senhora e os filhos não vão conseguir muito, uma vez que os anciãos pareciam perguntar-lhes… porque é que esperaram que o velhote morresse para reclamar?!?! No entanto adiamos a decisão até uma outra reunião com eles em Agosto para procurarmos bem pelo documento ou acordo de utilização do terreno para a capela. Mais uma vez… foram os anciãos aqueles que procuram decidir as coisas. Tivemos ainda tempo de visitar a escola dessa localidade… com 8 salas de aulas, mas as paredes são feitas como as cabanas nesta área… só que com chapa de zinco por cima. Estão a planear, com a ajuda da missão e do governo, eles mesmos construir uma escola com condições mais permanentes. Veremos…
Na quinta-feira tivemos ainda outra reunião numa outra capela, junto com os cristãos e os anciãos para procurar um substituto do catequista para aquela capela… como vedes… muitas reuniões… muitas coisas até a parecer muito oficiais… mas todas debaixo da árvore… está-se melhor e mais frescos!
Anciãos Pokot durante uma celebração comunitária

Muitas pessoas não têm que comer em casa
Mas até hoje, aquilo que mais me tem chocado e até feito pensar muito é que em todos os lugares que vamos as pessoas pedem-nos ajuda. Este tempo é de facto um tempo em que muitas pessoas estão a passar fome. As últimas colheitas foram muito escassas e além do mais há já muito tempo. Todos os dias pela manhã e durante o dia temos pessoas aqui à porta a pedir ajuda. Certamente que algumas delas talvez não necessitam assim tanto, ou não querem fazer nenhum… e aí está a grande dificuldade que me parte o coração… saber quem realmente necessita. Graças a Deus tem chovido bastante e vemos que muitas pessoas têm cultivado bastante. Diz o Hubert que mais do que em outros anos. Porém, até que o milho, o centeio ou a cevada (uma espécie de cevada!) cresçam e estejam prontos para serem transformados em alimento, ainda temos os meses de Junho e Julho. As colheitas começam apenas para meados de Agosto. E digo-vos sinceramente que este tem sido o maior desafio que tenho experimentado desde que cheguei aqui à missão. Nesta semana terminei de escrever uma lista de 616 pessoas que em toda a paróquia estão necessitadas. São listas que os catequistas nos trouxeram das capelas. Não incluímos na lista toda a gente pois todas as listas tinham cerca de 2000 pessoas! Pedimos-lhes que indicassem apenas aqueles que estão mesmo necessitados por serem idosos, doentes ou incapacitados. Entregámos essa lista ao Sr. Bispo pois ele mesmo prometeu ajudar com alguns sacos de milho. Estes dias, recebemos a confirmação de que o Sr. Bispo vai enviar cerca de 100 sacos de milho, cerca de 9000kg de milho. Também nós, aqui na missão, comprámos também outros 100 sacos de milho. Ao todo são cerca de 18mil kg de milho. Iremos distribuir pelas 52 capelas 3 sacos (270kg) para serem distribuídos por aquelas pessoas necessitadas. Serão os nossos catequistas a distribuir. Ficaremos com um maior número de sacos aqui na missão pois é onde mais pessoas vêm pedir ajuda. Não é muito, mas pelo menos é um pequeno gesto que ajudará a aliviar um pouco estes tempos de dificuldade. Cada saco custa-nos cerca de 27 euros, pelo que será uma boa maquia, mas cremos que bem empregues para ajudar esta gente. Calculamos que os 200 sacos de milho possam dar para sensivelmente 55 mil refeições. Isto quer dizer que podemos alimentar cerca de 900 pessoas durante estes dois próximos meses, até às próximas colheitas, se Deus ajudar com a chuva. No entanto, este é um trabalho de distribuição sempre muito difícil… quem é que não está necessitado estes dias?!?!
Na verdade, as necessidades são muitas, e dou-me conta também que entre as pessoas mesmas, aquelas que podem e têm um pouco mais porque têm trabalho aqui no centro ou mesmo na missão, elas mesmas ajudam muitas outras pessoas. É o caso da nossa cozinheira e da cozinheira das irmãs, ou o nosso construtor, também ele africano, que todos os dias alimentam a muitas outras pessoas também… situações que de facto nos fazem pensar…
Mas como dizemos aqui em kiswahili, “Mungu atatusaidia kwa sababu anatupenda sana”, ou seja, “Deus ajudar-nos-á porque muito nos ama!”

Ugali - comida típica africana: farinha de milho
preparada aqui para o "manjar" de um casamento

E a vida na missão continua… sempre com as vossas orações amigas! Bem hajam! Sörö nyo man – Muito obrigado em língua pökot.
"Pensamentos do meu diário"
Kacheliba, 24 de Maio 2009
Festa da Ascensão do Senhor

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