terça-feira, abril 10

Imagens por mil palavras

Car@s Amig@s:
Já lá vai muito tempo desde os meus últimos "posts" no "Mungu ni Upendo"... Certamente que seja qual for a altura, é sempre bom voltar aqui para partilhar convosco. Mas... Páscoa, tempo de festejar a ressurreição de Jesus é um tempo ainda mais apropriado para "ressuscitar" o Mungu ni Upendo!
Deixo-vos de seguida algumas fotos das celebrações pascais que celebrei com os cristãos Pokot.

Quinta Feira Santa
Previstas as celebrações da última ceia... Mas, devido a uma celebração na escola da capela onde celebrei o tríduo pascal, as celebrações litúrgicas foram substituídas por discursos finais dos políticos presentes na celebração da escola... é que começaram pelas 6 da tarde e terminaram às 11 da noite! Sorte deles que tinha levado o gerador e gambiarras de lâmpadas para a celebração... serviu para outro efeito de qualquer dos modos!!!

Sexta Feira Santa
Celebração da Adoração da Cruz e Via Sacra na nossa capela de Kodich. Muitos jovens estudantes. À noite, já até às 11 da noite, o projectar do filme de Jesus atraiu mais de 350 pessoas! As imagens têm mais sucesso do que um sermão!

Na nossa capela de Kodich

Adoração da Cruz

Via Sacra no recinto da Escola de Kodich

Via Sacra


Sábado Santo - Vigília Pascal
De novo no Salão polivalente da escola de Kodich com mais de 300 pessoas. Viveu-se muito intensamente esta celebração onde 15 jovens receberam o baptismo. A vigília entrou pela noite dentro com ainda a projecção de um filme sobre S. Pedro e os primeiros cristãos depois da Ressurreição de Jesus.

Vigília Pascal durante a recitação do Precónio Pascal

No Salão Polivalente da Escola de Kodich durante a Vigília Pascal

Domingo de Páscoa
Presidi à celebração em Kacheliba, o centro da paróquia. Muita cor, uma alegria contagiante e mais 13 jovens que receberam o baptismo. Jovens que são oriundos das capelas mais próximas de Kacheliba. Todos os adolescentes e jovens que receberam o baptismo terminaram um curso de catequeses de 2 anos! Oramos por todos eles e elas para que sejam cristãos convictos no coração e na acção!

Início da Missa do dia de Páscoa com acólitos e Infância Missionária
Baptismos
Administração do Óleo do Crisma depois do Baptismo
Aspecto do Grupo Coral e Assembleia
Celebração Eucarística

OBRIGADO A TODOS PELAS VOSSAS ORAÇÕES!
VALE A PENA DOAR A VIDA PELA MISSÃO

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A “Ressurreição” da Helena Chebet

Adolescentes Pokot depois da circuncisão

A Helena Chebet é uma menina Pökot com 13 anos. Em Janeiro passado, no início do ano lectivo no Quénia, entrou para o oitavo e ultimo ano da escola primária. Devido às condições difíceis das terras Pökot, os estudantes dos dois últimos anos da primária estudam em regime de internato. Em meados de Fevereiro, foi enviada a casa para recolher cerca de 6 euros para poder efectuar o registo no exame nacional da escola primária. Passou 1 semana, passaram 2 semanas, passou 1 mês e a Helena não regressava à escola.

Mães Pokot durante a cerimónia da circuncisão


Retida para ser casada

Esta é uma situação mais comum do que seria desejável em Pökot. Os seus pais retiveram-na na sua boma (palavra swahili para designar casa da família). Preparavam-na para ser a terceira mulher de um dos amigos do seu pai, um homem com uma idade acima dos 50 anos de idade. Para poder ser dada em casamento, deve primeiro ser submetida à circuncisão. Esta tradição está muito enraizada nesta cultura Pökot, mesmo que proibida pela lei do país. Trata-se da excisão do clitóris e dos lábios maiores das partes genitais da mulher. É efectivamente chamada “mutilação genital feminina”. Depois de ser circuncidada, a Helena seria entregue ao seu marido. Em troca, o pai da Helena receberia uma quantidade específica de vacas e cabras acordada entre o pai da Helena e o seu amigo. Normalmente, o dote pode variar entre 10 a 20 vacas e 5 a 10 cabras que são pagas ao pai da “noiva”. Obviamente que em toda esta saga, a Helena nunca disse sequer uma palavra ou emitiu qualquer opinião!


É necessário actuar depressa

Há cerca de duas semanas, foi-nos comunicado que as tentativas de resgate da Helena falhavam. Normalmente procura-se envolver os chefes locais para pôr em prática a lei. Os pais não podem reter e retirar as suas filhas da escola antes de terminar a escola primária. Parece que nem mesmo o chefe da aldeia estava a fazer bem o seu papel. Daí que decidimos apresentar o caso à polícia local. No dia seguinte, sábado, logo pela manhã decidimos visitar a boma e tentar resgatar a Helena. Comigo ia o chefe da polícia, a directora da escola onde a Helena estuda e a Irmã Cyprian, sua professora e irmã missionária aqui em Kacheliba.

Adolescente Pokot circuncidada e a mãe


Boas notícias

À nossa chegada não encontramos ninguém na boma à parte dos 2 ou 3 filhotes mais novos, irmãos da Helena. Tudo nos fazia parecer que foram avisados antes da nossa chegada. Ter-se-ao escondido e desaparecido de casa à pressa. Procuramos perguntar pela Helena. Não havia lugar onde poderia a encontrar. E os vizinhos tão pouco pareciam querer colaborar. Regressámos de mãos a abanar. Mas nem tudo eram más notícias: a Helena estava ainda em casa. Não tinha ainda sido circuncidada nem entregue ao seu marido. Mas o tempo não jogava a nosso favor... Sabendo que tínhamos procurado a Helena, os seus pais poderiam apressar as “coisas”. Não fiquei convencido! E decidimos, regressar nesse mesmo dia já com ao anoitecer. Certamente que não esperavam que regressáramos nesse mesmo dia. E muito menos já de noite. O factor surpresa poderia jogar a nosso favor...


“Padre, pode levar a vossa menina!”

Às 8 da noite chegávamos à boma da família da Helena. De novo eu, o chefe da polícia e a Irmã. Ao entrarmos na boma, um dos irmãos mais velhos da Helena imediatamente nos recebeu parecendo agradado com a nossa chegada. “Padre, nós concordamos em que leve a vossa menina!” - disse. “Vossa menina?!” – perguntei admirado. É que a ideia é que uma vez que a Helena é apoiada nos estudos pela nossa paróquia de Kacheliba, a Helena passou a ser “nossa” da missão! Respirei fundo ao saber que o pai não estava em casa. Com algum custo, sentámos-nos e conversámos por uma boa meia hora com os familiares e os vizinhos. Tentávamos explicar que a Helena tem o direito de terminar a escola primária e que não pode ser impedida de receber a sua educação desta forma. Aí, foi-nos dita a razão pela qual o pai queria “casar” a Helena: queria uma terceira mulher para ele! Ao conseguir os animais do dote da Helena, teria o suficiente para uma terceira mulher!

Adolescentes Pokot circuncidadas


“Voltei a sentir gosto por viver!”

Conseguimos regressar com a Helena nessa noite. No regresso, a Helena disse-nos que a sua entrega ao que viria a ser seu marido estava programada para daí a dois dias. Tudo estava programado! A Helena não se cansava de nos agradecer: “Via a minha vida já sem sentido...” – disse. “Eu quero terminar a escola primária e fazer os meus estudos, mas os meus pais só pensavam nos animais que poderiam receber ao entregar-me ao amigo do meu pai! Sinto que agora a minha vida voltou a ter sentido!”

No dia seguinte, domingo, celebrei a missa nessa capela. No final da missa, o pai da Helena quis tirar satisfações, tendo mesmo ameaçado um dos locais que nos ajudou a chegar à boma da Helena. Estava muito zangado o pai da Helena. Estava surpreendido, pois este senhor tinha mesmo sido um pastor local da Igreja Luterana... quando tomou a segunda mulher teve que deixar esse serviço na sua Igreja. Como pode alguém ter até sido pastor protestante, com alguns estudos e ainda assim comportar-se deste modo? Toda a comunidade local o condenou pela sua maneira de actuar. Se continuar assim a proceder, certamente que será aplicada a lei e poderá mesmo ser preso por contrariar a disposto na lei em defesa das crianças. A Helena está agora em segurança aqui na missão, pois nem mesmo nas férias poderá regressar a casa. O risco de ser de imediatamente tomada para ser casada é grande...

Adolescente Pokot em recobro dentro da cabana logo após ter sido circuncidada


Para mim, toda esta saga, e sobretudo as palavras da Helena, ajudam-me a entender como a Ressurreição de Jesus continua a acontecer hoje, e concretamente também aqui em Pökot. A Helena sentia que a sua vida tinha perdido todo o sentido, já não valia sequer a pena viver. Agora ela voltou à Vida, voltou a sorrir e a sentir que vale a pena viver. Tal como o escreve S. João, Jesus veio para que tenhamos vida e vida em abundância (Jo. 10,10). Também aqui essa Vida e essa Vida Nova da Sua Ressurreição continua a acontecer!

Os anciãos Pokot que procuram manter tradições intactas como a circuncisão...

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domingo, abril 24

Acreditar na Ressurreição pode ser muito simples!

O tempo de Quaresma, e sobretudo a preparação próxima à Páscoa na missão, é sempre cheia de actividades. Numa dessas actividades as lágrimas vieram-me aos olhos. Ao passar o filme sobre a vida de Jesus aos catecúmenos, fui surpreendido por uma expressão de regozijo dos catecúmenos ao verem Jesus Ressuscitado. Expressaram-se com um bater de palmas espontâneo e comovente ao ver Jesus ressuscitado
aparecer aos discípulos depois da sua paixão e morte. Afinal, sem muitas explicações e sem muitas teorias biblicas e teológicas, estes catecúmenos fizeram-me ver que pode ser realmente muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus...

P. Filipe com estudantes catecúmenos

Finalmente... o dia do meu baptismo

Ao aproximar-se o Domingo da Ressurreição de Jesus, são muitas as actividades na missão de Kacheliba. Uma das actividades é o curso de formação final para os catecúmenos. Realizou-se na semana passada em 3 locais da nossa (extensa!) paróquia. Aqui no centro da missão cerca de 80 adolescentes e jovens receberam as últimas instruções preparatórias para o Baptismo. Ao todo, em toda a paróquia, são mais de 170 adolescentes, jovens e adultos que serão baptizados neste tempo Pascal. Estes catecúmenos finalizaram um programa de catequeses de 2 anos e vêem agora o dia do seu baptismo chegar. É grande a alegria estampada no rosto de muitos destes catecúmenos... percebe-se que receber o Baptismo significa algo importante para as suas vidas.

Algumas das adolescentes catecúmenas

Junto dos que ainda não O conhecem

O meu tríduo Pascal este ano foi realizado numa das nossas capelas mais antigas da Missão chamada Kodich. Fica a uns 30km norte do centro Kacheliba. Ali tínhamos um grupo de 48 catecúmenos no curso final de preparação para o Baptismo. Desde 4ª feira até sábado receberam as últimas catequeses. Na 5ª feira santa presidi à Última Ceia do Senhor e 4 adolescentes receberam a comunhão pela primeira vez. Tinham sido baptizados quando eram bebés. Obviamente que antes da celebração receberam o sacramento da Reconciliação (pobremente apenas conhecido como “confissão” por muitos!). Um deles, um jovem já crescido, não comunicava sequer em swahili. Só mesmo a língua local Pökot. Já imaginam... eu já “pesco” umas coisas da língua local, mas escutar a sua confissão foi de facto um acto de fé da minha parte! Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece.

Depois da celebração passamos o filme sobre a vida de Jesus ao ar livre. São muitas as pessoas, cristãos e não cristãos, que comparecem. Claro que a electricidade essa só mesmo com o gerador. Mas... (in)felizmente passada cerca de 1 hora chegou uma surpresa: a chuva! Chuva aqui é sempre uma benção até porque este ano ainda não tinha chovido. Porém... toda a aldeia em peso teve que “fugir”. E a chuva, sempre tão abençoada nestas paragens, acabou por estragar a “festa”. Mas havia mais no dia seguinte...

Estudantes da escola primária para raparigas de Kacheliba

Na sexta feira santa a celebração da adoração da Cruz começou às 3 da tarde. Pelo meio a Via Sacra que foi percorrida nas ruas da aldeia. E que forma mais eficaz de anunciar a Morte e Ressurreição de Jesus. No regreso à capela eramos já quatro vezes mais pessoas na capela! Seguiu-se o filme da paixão de Cristo. Desta vez fomos acolhidos no salão da escola primária recentemente construído. Veio de novo a chuva mas desta vez estavamos bem acolhidos. Vários cristãos me disseram que nessa noite não ficou ninguém em casa em toda a aldeia. Não os contei mas deveriam ser seguramente mais de 300 pessoas!

O sábado Santo foi o culminar das celebrações... sempre muito adaptadas à realidade local pois claro! 15 baptismos: 10 adolescentes e 5 mulheres adultas. Confesso que a alegria, a concentração e a profundidade de alguns destes neófitos deixaram no meu coração um sentimento de que Deus toca de verdade a vida destas pessoas. Mas nem as quase 5 horas de celebração cansaram esta gente. O filme desta vez foi sobre S. Pedro e os primeiros cristãos após a ressurreição de Jesus. Foi pena que quase a acabar o filme o meu gerador ficou sem “zagolina”! Nada a fazer... ainda assim já cheguei a casa quase às 3 da manhã – contente por Deus me dar a oportunidade de ser sua testemunha da Ressurreição junto deste povo.

P. Filipe de visita a uma escola debaixo da árvore numa das nossas capelas

Liturgias mais ou menos litúrgicas

Devo confessar que as liturgías entre este povo que apenas começa a conhecer Jesus, são tudo menos “ao pé da letra e da rúbrica”! O silêncio, parte tão fundamental da litúrgia para a assimilação do que se celebra é algo que aqui fica um pouco de lado. Para o Pökot tudo o que se relaciona com Töroröt (Deus para este povo) significa entrar na esfera da celebração. Não quer isto dizer que as celebrações deixam de ser menos vividas, menos sentidas. São apenas e essencialmente diferentes. São o espaço de expressão alegre do que acreditam desde há séculos. São sentimentos tradicionais depois trazidos para a liturgia cristã. Com mais ou menos silêncio, com mais ou menos incenso, com mais ou menos ordem e regras litúrgicas, a Ressurreição de Jesus entrou já na vida e no coração de vários cristãos Pökot. É a força da Vida, da Boa Nova da Ressurreição que renova e faz novas todas as coisas em Cristo.

Um dos nossos catequistas anciãos com a sua esposa na sua "boma" (lar)

Desejo-vos a todos uma Santa Páscoa, cheia de significado e profundidade para a luta de cada dia da vossa vida. É lá que o valor da Vida e Ressurreição de Jesus fazem sentido! É lá que Ele quer ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Afinal de contas... até porque parece que é de facto muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus! SANTA E FELIZ PÁSCOA!

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sexta-feira, dezembro 24

Pureza de Natal


"Obrigado, P. Filipe! Este bocadinho de açucar e arroz vai dar-nos um Natal bonito lá em casa!"
Esta foi a resposta dada por algumas das pessoas que trabalham connosco na Missão. Agradeciam o tradicional "zawadi ya Krismasi" (lembrança de Natal) que costumamos oferecer-lhes.
Que alegria mais pura! Que pureza do verdadeiro sentido de Natal: o pouco, o simples, o humilde que traz uma enorme alegria e faz sorrir quem assim recebe.

Mais uma vez, uma lição grande para mim. Estas palavras e atitudes fazem-me voltar às origens. Fazem-me pensar naquele Menino Salvador que muito poucos reconheceram. Pobre - sem ter onde nascer em condições apropriadas; simples - sem grandes anúncios, sem grandes festas; só os pastores, a "escumalha" do povo de Israel, conseguiu olhar mais profundo e perceber que naquele Menino simples, pobre e humilde, nascia a Alegria maior que o mundo jamais acolheu!

São os gestos desta gente simples, pura e humilde que hoje me ensinaram a olhar mais profundo no que realmente significa celebrar a verdadeira alegria do Natal. Sem mesas recheadas de doces e requintadas refeições, sem luzinhas na árvore de Natal, sem os múltiplos anúncios natalícios que encharcam os nossos ouvidos e olhos, sem o corre-corre das prendas e lembranças...
Se me perguntam se sem tudo isso pode haver Natal... pois eu digo que sim! Precisamente porque este sentido do Natal, simples mas cheio de alegria, é aquele que me enche a vida e o coração.

Fica aqui a partilha de um texto que foi publicado na Agência Ecclesia há 2 dias em que descrevo como vivo o Natal em Pokot. Clique aqui.

A Todos um Santo e Feliz Natal, cheio da Alegria simples, pobre e humilde que é aquela que traz verdadeiro sentido à nossa vida!
Que Deus vos abençoe com um ano de 2010 cheio da Sua Paz.


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sexta-feira, outubro 22

Retornar Revivendo a Missão

É verdade! É verdade! Foi muito tempo sem dar notícias por estas bandas... eu bem o sei! E, porque não me queda de outra, não posso mais fazer do que pedir desculpa a todos aqueles que têm visitado este cantinho do Amor de Deus na minha vida sem encontrar novidades. E não é que não as hajam... muito pelo contrário!

Momentos importantes na vida familiar
Muitos já saberão... estive em Portugal de férias desde meados de Agosto até meados de Outubro. Razão: o matrimónio do meu irmão Nuno com a minha cunhada Sofia. Momentos em que o amor de Deus se faz mais visível através do amor humano.
E logo na chegada fiquei surpreendido pelo carinho e amor que os paroquianos de Nogueira do Cravo quiseram expressar comigo. Confesso que não estava nada à espera. Fiquei desengonçado... desajeitado... fora de onda! Ainda mais quando estava a chegar de cerca de 15 horas de viagem... mas é assim que Deus mostra o seu amor e carinho por nós. Foi tudo muito inesperado para mim. Mas é assim que Deus, de vez em quando, nos faz umas carícias.

Momento da chegada à paróquia

Tempo de muita comunhão e sentido de missão
Durante estes dois ultimos meses foram muitos os testemunhos de pessoas que me falavam de um carinho e compromisso muito grande à missão. Não a mim... não! À missão pois ela é a que fala mais alto.
Foram também dois meses de intensos e renovadores encontros. Desde logo a celebração do matrimónio entre o meu irmão e a minha cunhada. Foi um dos momentos mais bonitos e profundos que jamais senti na minha vida sacerdotal e missionária: ser instrumento de Deus para que Ele, e não eu, mas Ele, abençoasse aquele amor que d'Ele nasceu no coração destes dois seus amigos, que no fundo são sangue do meu sangue!
Celebrações de baptismos que tinham até sido já marcados antes dos meninos nascerem...
Visitas a e de amigos que o tempo não apaga...
Encontros missionários mais programados ou nem tanto assim... Festa Missionária na Maia, encontro Jamborii dos Escuteiros de Nogueira do Cravo... enfim... um sem número de momentos de partilha missionária.
Mas apesar de tudo, sentir e presentir que esse Deus de Amor Incondicional continua a actuar na vida de tantos amigos e amigas, familiares, juventude... são tantos esses sinais! Obrigado a todos e em especial a um grupo muito bonito que sempre vive a missão com o coração - UTrilho!!!! Sois de facto espectaculares!

O regresso de coração cheio e também preocupado
Não foi fácil regressar aqui onde Deus me chama... por um lado a alegria de voltar para o meio daqueles que são os que Deus escolheu para eu crescer na fé junto deles; por outro lado várias situações de doenças e complicações da vida de alguns familiares e amigos... Situações que continuam no meu coração e nas minhas orações. Mas a vida é assim mesmo... e também a missionária não foge à regra! Muitos foram aqueles que não pude visitar como desejaria, como seria bom... mas ainda assim sei que nunca nós missionários estamos sós! Somos apenas e tão simplesmente servos inúteis (mesmo que felizes!) d'Aquele que nos envia.

A todos o meu bem-haja! Não há palavras para poder expressar tanto carinho, tanta proximidade, tanto amor para comigo e para com a missão. Agora é regressar ao dia a dia da Missão sempre com os seus grandes desafios, as também com todas as bençãos de Deus... essas bila shaka (swahili para "de certeza") nunca faltarão!

Um bom domingo do Dia Mundial das Missões 2010... Até breve já por terras Pokot!

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sábado, junho 12

Pastoral em Tempo Pascal

O tempo pascal é, como sempre e como todos os outros tempos, de muito trabalho. Estamos particularmente envolvidos nos baptismos dos adolescentes que receberam as catequeses durante 2 anos e terminaram a formação na Páscoa passada (2010). Este ano mudámos um pouco a tradição e em vez de baptizarmos a todos aqui no centro da paróquia na vigília pascal, decidimos ir visitar as capelas onde vivem com as suas famílias e baptizar lá junto com os cristãos originários dessas mesmas comunidades.
Visita a uma das comunidades

Por vezes isto é mesmo um grande desafio: algumas vezes os padrinhos têm que ser os mesmos para quase todos… como por exemplo, amanhã (30 de Abril) vou a uma das nossas capelas que é mais distante… não tanto em distancia mas sim em tempo para lá chegar: 1h 15m. Isto porque as estradas, ou se quisermos as picadas, não são nada famosas. Estamos em plena época das chuvas e cada vez que saímos é uma aventura! Aqui em Kacheliba o rio voltou a fazer das suas e transbordou e a água chegou mesmo a passar sobre a ponte… no caminho destruiu parte da estrada e ainda algumas casas de pessoas ali do centro, algumas tinham as suas lojazitas de vender algumas coisitas… muitos dos produtos foram por água abaixo.


Na "boma" duma comunidade

Ainda ontem tive um pouco de problemas em passar um dos leitos de um rio no caminho para uma capela. É que o rio quando passa deixa as margens como paredes… ontem foi preciso ir pedir uma enxada para aplanar as margens do leito do rio de modo que pudesse passar. Depois de umas tentativas a coisa lá foi.
Um outro problema que dizia acima é que em algumas capelas os cristãos baptizados são bem poucos. Como a que vou amanhã… estamos mesmo nos começos e por isso os padrinhos acabem por ter de ser sempre os mesmos para quase todos os baptizados. Mas creio que são momentos importantes e lindos para as pessoas.


Nestes dias tivemos 3 encontros simultâneos de catecúmenos. Ao todo os adolescentes são quase 200. Como é tempo de férias (ainda depois do 1º trimestre), podemos fazer os encontros de catecúmenos e formação usando as instalações das escolas. Começámos no domingo à tarde e terminou esta manhã. Este trabalho não o podemos fazer sem os catequistas. Assim um grupo (de cerca de 85) reuniu-se aqui em Kacheliba. Outro numa das capelas a sul – Serewo – a 25km daqui e onde fui todos os dias para celebrar a missa à tarde e à noite passar um filme sobre a bíblia que acompanha as catequeses. Ali estavam cerca de 45. Uma outra capela a norte da paróquia – Kodich – também com uns 55, com o mesmo sistema e onde foi o meu colega Hubert. Já regressávamos sempre depois das 11 da noite! Mas graças a Deus correu bem ao que parece e é sempre uma alegria poder assim ver a vida que floresce nestes cristãos do amanhã.


Depois de amanhã começamos o encontro de fim de semana com os jovens da paróquia. São sempre mais de 100! E terminaremos no domingo. Logo de seguida mais uma semana de formação e encontro com os catequistas aqui na paróquia.

Escrito em 28 de Abril 2010

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domingo, abril 4

Surpresas Divinas em cada dia

O meu último post continha uma promessa: dar notícias em breve! Passaram 3 meses… talvez para alguns a definição de “breve” abrange esses 3 meses! Porém, quando o escrevi queria mesmo dizer “muito em breve”! Não pude cumprir essa promessa. As minhas desculpas. Mas aqui estou… quanto mais não seja para vos saudar com um abraço de amizade no Senhor Jesus Ressuscitado. Quanto não valem as festas cristãs para nos “obrigar” (com muito gosto!) a reactivar os laços de amizade.
Durante estes 3 meses devo confessar que foram muitas as surpresas de Deus – positivas e também as menos felizes...
P. Filipe e P. Hubert na celebração da missa na familia Sakal

Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão. Muitos conhecidos e conhecidas da paróquia. A família Sakal é uma das poucas famílias com convicções cristãs fortes na nossa paróquia. Os Pökot são de tradição poligâmica (em que um marido pode ter várias esposas).

O casal Sakal à esquerda com os seus padrinhos de casamento

Naquele dia queriam juntar todos os seus afilhados de Baptismo, de Crisma e de Casamento. Ao mesmo tempo convidaram os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento também. Num local onde os “católicos praticantes” - isto é, “comungantes” - são poucos, podemos já imaginar que o casal Sakal foi chamado a apadrinhar muitas crianças, jovens e ainda alguns matrimónios.
Nesse dia, toda a vizinhança teve um dia de festa. E festa aqui significa também uma refeição melhorada com um pouco de arroz e carne, algo bem raro nas dietas diárias deste povo.
Foi lindo o momento em que o casal apresentou todos os seus afilhados uns aos outros. Ainda emocionante foi ver o gosto com que no final da missa apresentaram a todos os presentes os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento.

Um aspecto de toda a assembleia

A razão de tanta festa saída das próprias palavras do casal deixa qualquer missionário contente com o empenho desenvolvido ao longo dos anos na missão. Disseram: “quisemos juntar-nos hoje somente para aprofundarmos o que significa ser padrinho ou madrinha da fé que nasce em cada um de nós. Queremos que na nossa paróquia sejamos mais e mais conscientes do que realmente significa apadrinhar ou apoiar alguém na sua caminhada de fé na igreja.” Confesso que fiquei surpreendido e maravilhado como Deus vai realizando tantas maravilhas no meio deste povo que apenas há 35 anos começou a escutar a Palavra de Deus.

Preparando a comida

Um “espinho duro” no coração
Um dos momentos mais difíceis para mim na missão até hoje aconteceu no início de Março deste ano. Aquilo que era previsto ser uma greve dos alunos da escola secundária masculina (aqui mesmo ao lado da missão) acabou por ter contornos bem dolorosos.
O dia ainda começava a clarear quando fomos despertados aqui na missão por gritos. Os estudantes tinham começado a atirar pedras e a bater no director da escola. Corremos eu e o meu colega P. Hubert. Ao chegarmos demos com uma multidão de estudantes enfurecidos a destruir o escritório do director com ele lá dentro. Alguns mesmo batiam-lhe com paus arrancados dos ramos das árvores do recinto da escola. Imediatamente acudimos o Director da escola e tentámos defendê-lo da fúria enraivecida dos alunos. Não os conseguimos acalmar mas pelo menos conseguimos defender o pobre Director de ficar mais ferido ou mesmo de o chegarem a matar. Eu não acreditava no que via à minha frente. Quase 2 centenas de estudantes que mais pareciam guerreiros com pedras e paus nas mãos, prontos para avançar não fosse eu e o meu colega estarmos entre eles e o Director. Em vão corria eu à frente dos rapazes tentando acalmá-los. Pelo contrário, tentavam ludibriar-me para chegar até ao escritório do Director onde estava também o meu colega P. Hubert. Tomou 30 minutos à polícia para chegar para que os estudantes dispersassem da escola. Esse dia foi muito longo pois logo se sucederam reuniões de emergência para ver o que fazer a seguir. A escola foi encerrada por uma semana. Foi a semana mais dura desde a minha chegada à missão. Tudo porque todos os dias dessa semana foram necessários para reuniões com uma espécie de Conselho Escolar onde pais, autoridades locais, professores e o “patrocinador” da escola (a paróquia da Missão) estamos presentes. Depois foi necessário receber cada um dos estudantes um a um para tentar perceber os motivos da rebelião. Acabámos por expulsar 8 alunos da escola e mandar outros 7 de suspensão por 2 semanas
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Alunas da escola secundária para raparigas
recentemente aberta em Serewo

O mais doloroso foi aperceber-me que o motivo profundo e trágico deste grave acontecimento é o tribalismo. Os Pökot começaram a enviar os seus filhos para a escola de uma forma mais geral apenas há uns 10 anos a esta parte. Há muito poucos naturais preparados para assumir cargos como professores, médicos, enfermeiros e mesmo pessoal técnico dos mais diversos campos. Por isso, há muitas outras pessoas de outras tribos que aqui prestam serviços como professores, médicos, enfermeiros. Parece que neste momento os políticos locais começaram uma campanha de querer mandar todos os não-Pökot de outras tribos para fora deste local. O mais duro e puro tribalismo. Estou plenamente convencido que é uma campanha que começa no próprio representante Pökot no governo, uma espécie de governador do distrito. Algo grave que apenas nos mostra que ainda há muito trabalho para fazer até chegar ao coração dos Pökot com as palavras de Jesus: amor ao próximo, perdão e comunhão… Apesar de dura, esta experiência apenas me confirma que este é o lugar certo para onde Deus me enviou no momento justo e na altura certa: a missão é testemunho da Verdade, do Amor e da Compreensão. Para mim, estas são razões mais do que suficientes para querer continuar aqui a servir o Reino de Deus – a missão a que Deus me enviou!

Ainda assim… o triunfo da VIDA!
Esta Páscoa foi a primeira passada aqui na missão de Kacheliba. O ano passado encontrava-me a terminar o curso da língua swahili na Tanzania. E claro que foi bem especial…
Todos já escutámos como a Páscoa vivida na missão é sempre especial. Se esperamos celebrações litúrgicas seguidas à risca pelos cânones litúrgicos pois essas não as encontramos aqui. E talvez isso seja mesmo aquilo que torna a vida da Igreja em África… digamos que… diferente!

Adolescentes baptizados na noite de Páscoa em Konyao

Ontem à noite celebrei a vigília pascal numa das nossas capelas mais distantes chamada Konyao, a uns 50km de Kacheliba, 1 hora de viagem (se tudo corre bem!!!). Esperavam-me 18 adolescentes para serem baptizados depois de 2 anos de Catecumenado. Juntar-se-iam nesta noite os cristãos de 2 capelas para celebrar os baptismos de novos cristãos.
Logo à chegada foi necessário prover a luz à capela pois ali ainda não há electricidade. Com uma bateria, um inversor de corrente e umas gambiarras com lâmpadas já podemos “dar à luz”. A capela estava bem composta e ao longe já escutava os ensaios dos cânticos para uma noite que seria longa.
Depois de 3 horas e meia de celebração a alegria estava de facto estampada no rosto de todos. Realmente (pensava eu com os meus botões), a VIDA do RESSUSCITADO é algo incrivelmente grande e que enche o coração de todos os povos. Sejam eles mais ou menos instruídos. Mais ou menos profundos na sua fé…
O regresso à missão foi já de madrugada… com o único senão que viajava sozinho de regresso! Não… não tinha medo! Graças a Deus, neste momento, há segurança mesmo durante a noite. O único problema era mesmo se tivesse algum problema mecânico… aparte dos furos que são o “pão-nosso” de cada dia e que são normais nestas paragens! Tudo correu bem e à chegada, já perto das 2 da manhã, ainda encontrei os meus colegas a pé que também regressavam dos seus empenhos noutras capelas.
Hoje, dia de Páscoa, a manhã começou de novo cedo. Numa outra capela chamada Simotwo, esperavam mais adolescentes para serem baptizados. Pelo caminho tive que “inventar carreiros” para poder chegar à capela… a chuva das últimas semanas (outra surpresa linda e bem apreciada de Deus) tinha tornado o caminho normal impraticável. Entre atalhos e “desatalhos”, lá chegámos com a graça de Deus.
Já a comunidade cristã estava reunida e entusiasmada praticando os cânticos pascais alegres depois do tempo da Quaresma. Durante toda a celebração a alegria de novos cristãos era bem evidente: sorrisos e cantos alegres ecoavam a cada momento. Os 7 adolescentes que foram baptizados e que receberam a comunhão pela primeira vez luziam de contentamento com as suas pequenas velas acesas. Era mais que evidente que a Graça e a Luz de Jesus Ressuscitado enchia os seus corações.

O sistema eléctrico à doc

Deus é sem dúvida o Deus das surpresas… boas e também as menos boas. É que em todas elas Ele nunca deixa de nos abençoar: nas boas enche-nos de alegria; nas menos boas dá-nos a sua força e coragem para enfrentarmos cada dia com o entusiasmo e a alegria da VIDA NOVA da RESSURREIÇÃO – ALEGRIA, PAZ, AMOR MÚTUO E ENTREGA DA VIDA PELOS OUTROS.


Grupo de adolescentes baptizados em Simotwo no dia de Páscoa

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS VÓS!
PASKA NYÖ KARAM
(Feliz Páscoa em Pökot)

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sábado, janeiro 2

CARÍCIAS DE DEUS TÖRORÖT NO NATAL 2009

Uma nova década começou! Há quem diga que temos que esperar até ao início de 2011 para verdadeiramente começar uma nova década. Coisas de calendários. Seja como for… a vida para nós em Pökot continua o seu ritmo de sempre: com momentos de alegria, de profundo sentir do caminhar de Deus Töroröt junto com este povo e ainda com outros mais difíceis e desafiantes, mas também eles repletos de esperança e paz. É esse o desejo mais profundo do povo Pökot para as suas vidas. Estas festividades foram para mim cheias de tudo isto um pouco… ao ponto até de me confundiram com um enfermeiro!
Mães com seus filhos para Baptismo na noite de Natal

Instrumento da Graça de Deus
O Natal de 2009 vai ser por mim recordado como o Natal em que celebrei o sacramento do Baptismo pela primeira vez em África. Baptismo de crianças até aos 5 anos. Talvez alguns possam perguntar: mas o que é que há de diferente? Essencialmente nada. Mas se pensar que para as crianças que baptizei tenha sido a primeira vez que viram um sacerdote, talvez comecemos a ver algumas diferenças. Se pensar ainda que todos estes baptismos foram celebrados no meio de comunidades onde a maioria das pessoas não são sequer baptizados, este momento obtém ainda mais significado.

Uma das crianças baptizadas na noite de Natal

Pensando ainda que estas crianças pertencem somente à 2ª ou 3ª geração de cristãos em terras Pökot, a importância ganha ainda mais sentido. Pensar, por fim, que algumas destas crianças talvez não cheguem à idade adulta devido à alta taxa de mortalidade infantil neste cantinho da África, faz com que me sinta um privilegiado em poder ser um instrumento da graça de Deus para estas crianças e suas famílias.
Para a maioria destas crianças, são as mães as grandes interessadas em baptizar os filhos. Os pais, em raros casos baptizados eles próprios, geralmente deixam a educação dos filhos entregue às mães. Há excepções. Com certeza que sim! E começam a ser cada vez mais pouco a pouco.

No dia de Natal durante a missa

Noite de Natal – quase à luz da vela
Na noite de Natal celebrei a missa numa capela chamada Kitelakapel, uns 25km do centro da missão. Deus abençoou-nos nestes dias com chuva, uma raridade nestas paragens. A noite estava fresca… temia que as pessoas não viessem para a celebração. Mas os meus medos foram infundados. É certo que a celebração deveria começar pelas 8 da noite. Mas como de noite não há sol, é difícil para as pessoas saberem bem ao certo as horas do dia… da noite, neste caso! E depois… pressas para quê? Festa é festa! Celebrar com propriedade é algo que os africanos sabem fazer muito bem.

Baptismos durante o Dia de Natal em Konyao

Comigo estava o Ir. Eduardo, português de “gema” como eu. Está a estudar em Nairobi e foi bonito termos passado o Natal juntos. Juntos chegámos e a primeira coisa foi montar o sistema de electricidade ligado a uma bateria e um “inverter”. Bom… chamar “sistema de electricidade” a uns cabos com 2 lâmpadas ligados a uma máquina que transforma 12volts de uma bateria para 220volts é um nome pomposo. Mas lá conseguimos com uns fios e uns troncos de árvores arranjados no local a servir de postes. Luz já tínhamos… mas a verdadeira LUZ, Jesus Cristo, esse estava a chegar!
Depois de esperar pelos pais que iam baptizar as crianças, os padrinhos e mais pessoas para a celebração, começamos a missa pelas 10.30h da noite. A alegria era grande pois sentíamos que o Deus Menino estava de facto a chegar também para estas crianças pela primeira vez. Foram 22 as crianças baptizadas. A missa foi demorada. Para além do número de baptismos, devemos também explicar e orientar cada passo da celebração como se fosse a primeira vez. De facto, para muitos presentes terá sido a primeira vez que estiveram presentes numa celebração de Baptismo.
No final da celebração, já depois da meia-noite, a festa continuou. Convidaram-nos para uma refeição especial de Natal: farinha de milho (tradicional “ugali”) e galinha cozida com uns temperos/ervas locais. E que petisco! Mas o melhor ainda estava para vir. As pessoas tinham preparado canções e danças… para toda a noite!

Os cristãos distribuindo almoço no dia de Natal

Dia de Natal – a alegria do Baptismo
A alvorada do dia de Natal custou um bocadinho mais. A noite tinha sido mais longa do que o costume. Mas havia mais baptismos e celebração numa outra capela. Desta vez quase na extremidade norte da paróquia. 1 hora de caminho do centro da missão. Konyao é o seu nome. Lá nos esperaram as comunidades de 2 capelas: a anfitriã, Konyao, e uma próxima (1 hora de caminho a pé) chamada Kodera. O mesmo ritual da noite anterior: juntar as crianças, os pais (as mães neste caso!) e os padrinhos para o baptismo e finalizar os detalhes todos para o registo no livro dos baptismos. Foram 16 crianças baptizadas numa atmosfera de alegria super-contagiante e que não deixa ninguém presente sem dar o seu pezinho de dança durante a celebração. Nesta capela existe ainda um grupinho de meninas que chamamos de “alelluia dancers”. Abrilhantaram ainda mais o momento.

O nosso almoço no Dia de Natal - à direita Ir. Eduardo

Mas os verdadeiros “artistas” eram as crianças baptizadas. O sorriso com que algumas acolhiam os óleos santos bem como até a água baptismal, a alegria das mães e padrinhos ao ver os seus filhotes baptizados foram para mim o melhor presente de Natal que um ministro de Deus pode receber. Sem dúvida que a graça de Deus e o próprio Deus atravessam e enchem de graça este momento tão sagrado como é o Baptismo. A alegria sincera e profunda expressa nas caras das crianças, das mães e padrinhos não podia provir de outro lugar senão de Deus mesmo.
No final da celebração, como não podia deixar de ser, o especial almoço de Natal: arroz com pedacinhos de carne de cabra. É um verdadeiro manjar e a comida especial para os dias de festa.

Celebração da Missa no Dia Sagrada Família

Domingo da Sagrada Família – confundido com um enfermeiro
De há uns anos para cá que é tradição celebrar o Baptismo para crianças no tempo de Natal nas várias capelas da missão. No domingo seguinte ao dia de Natal planeamos que iria celebrar na capela de Chepoghe, no extremo sul da paróquia. Porém, havia uma dúvida: seriamos capazes de atravessar os rios sazonais para lá chegar? Tinha chovido bastante nestes dias, uma das maiores bênçãos de Deus para este povo. Decidimos que caminharíamos para lá chegar se assim fosse necessário. E assim partimos. Com maior ou menor dificuldade conseguimos chegar. E já nos esperavam os cristãos da capela anfitriã bem como de uma comunidade vizinha chamada Serewo. Foi necessário ainda esperar um bom tempo até que tudo e todos estivessem prontos para a celebração da missa com os baptismos. Desta vez, a capela era pequena para todos. Daí que celebrámos debaixo da grande e sagrada árvore para os Pökot em frente da capela. No final da celebração foi-me explicado que aquela árvore foi no passado o local de muitas celebrações tradicionais Pökot. Agora foi transformada no local da mais importante celebração: a Eucaristia.

Momento durante a homilia (ao fundo a capela local)

A mesma alegria e o mesmo entusiasmo das outras eucaristias com Baptismos foi vivida também aqui. Ainda que tive que interromper a missa em vários momentos pois cristãos e outras pessoas continuavam a chegar da vizinhança. E aqui há que dar sempre as boas-vindas.
Um momento caricato e engraçado nesta celebração foi o facto de duas das crianças que baptizei não pararem de chorar e berrar sempre que me aproximava para administrar os óleos santos e o sinal da cruz. Até que compreendi a razão. Os paramentos deste dia eram brancos e por isso eu estava todo vestido de branco. Estas 2 crianças confundiram-me, nem mais nem menos, com o enfermeiro do dispensário local. E com razão choravam! É que o que esse homem de branco lhes tinha feito tinha sido somente dar-lhes injecções que fazem doer! E assim fui confundido com o enfermeiro… finalmente acabaram por já não temer a minha proximidade depois de várias tentativas. Peripécias da vida missionária!

Momento durante o Baptismo

Foram de verdade muitas as graças e as alegrias que vivi e continuo a viver com este povo Pökot. Certamente que um Natal muito diferente do nosso lusitano. Mas sem deixar de ser a realização de um sonho missionário também para mim. Sem merecer nenhuma destas graças, louvo a Deus por cada detalhe e cada carícia do seu amor que vou partilhando com este povo amado por Ele, Töroröt.
Logo a seguir ao Natal visitamos uma família para uma celebração muito especial… algo que vos direi que nos ensina qual o real sentido da vida cristã. Encontrei-o aqui, no meio deste povo que pouco a pouco vai conhecendo o Amor de Deus que é sem dúvida um Deus de Amor. Conto-vos tudo no meu próximo post!Até lá… Um Santo e Bom Ano de 2010 para todos vós! Um ano cheio das maiores bênçãos de Deus!

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