terça-feira, abril 10

A “Ressurreição” da Helena Chebet

Adolescentes Pokot depois da circuncisão

A Helena Chebet é uma menina Pökot com 13 anos. Em Janeiro passado, no início do ano lectivo no Quénia, entrou para o oitavo e ultimo ano da escola primária. Devido às condições difíceis das terras Pökot, os estudantes dos dois últimos anos da primária estudam em regime de internato. Em meados de Fevereiro, foi enviada a casa para recolher cerca de 6 euros para poder efectuar o registo no exame nacional da escola primária. Passou 1 semana, passaram 2 semanas, passou 1 mês e a Helena não regressava à escola.

Mães Pokot durante a cerimónia da circuncisão


Retida para ser casada

Esta é uma situação mais comum do que seria desejável em Pökot. Os seus pais retiveram-na na sua boma (palavra swahili para designar casa da família). Preparavam-na para ser a terceira mulher de um dos amigos do seu pai, um homem com uma idade acima dos 50 anos de idade. Para poder ser dada em casamento, deve primeiro ser submetida à circuncisão. Esta tradição está muito enraizada nesta cultura Pökot, mesmo que proibida pela lei do país. Trata-se da excisão do clitóris e dos lábios maiores das partes genitais da mulher. É efectivamente chamada “mutilação genital feminina”. Depois de ser circuncidada, a Helena seria entregue ao seu marido. Em troca, o pai da Helena receberia uma quantidade específica de vacas e cabras acordada entre o pai da Helena e o seu amigo. Normalmente, o dote pode variar entre 10 a 20 vacas e 5 a 10 cabras que são pagas ao pai da “noiva”. Obviamente que em toda esta saga, a Helena nunca disse sequer uma palavra ou emitiu qualquer opinião!


É necessário actuar depressa

Há cerca de duas semanas, foi-nos comunicado que as tentativas de resgate da Helena falhavam. Normalmente procura-se envolver os chefes locais para pôr em prática a lei. Os pais não podem reter e retirar as suas filhas da escola antes de terminar a escola primária. Parece que nem mesmo o chefe da aldeia estava a fazer bem o seu papel. Daí que decidimos apresentar o caso à polícia local. No dia seguinte, sábado, logo pela manhã decidimos visitar a boma e tentar resgatar a Helena. Comigo ia o chefe da polícia, a directora da escola onde a Helena estuda e a Irmã Cyprian, sua professora e irmã missionária aqui em Kacheliba.

Adolescente Pokot circuncidada e a mãe


Boas notícias

À nossa chegada não encontramos ninguém na boma à parte dos 2 ou 3 filhotes mais novos, irmãos da Helena. Tudo nos fazia parecer que foram avisados antes da nossa chegada. Ter-se-ao escondido e desaparecido de casa à pressa. Procuramos perguntar pela Helena. Não havia lugar onde poderia a encontrar. E os vizinhos tão pouco pareciam querer colaborar. Regressámos de mãos a abanar. Mas nem tudo eram más notícias: a Helena estava ainda em casa. Não tinha ainda sido circuncidada nem entregue ao seu marido. Mas o tempo não jogava a nosso favor... Sabendo que tínhamos procurado a Helena, os seus pais poderiam apressar as “coisas”. Não fiquei convencido! E decidimos, regressar nesse mesmo dia já com ao anoitecer. Certamente que não esperavam que regressáramos nesse mesmo dia. E muito menos já de noite. O factor surpresa poderia jogar a nosso favor...


“Padre, pode levar a vossa menina!”

Às 8 da noite chegávamos à boma da família da Helena. De novo eu, o chefe da polícia e a Irmã. Ao entrarmos na boma, um dos irmãos mais velhos da Helena imediatamente nos recebeu parecendo agradado com a nossa chegada. “Padre, nós concordamos em que leve a vossa menina!” - disse. “Vossa menina?!” – perguntei admirado. É que a ideia é que uma vez que a Helena é apoiada nos estudos pela nossa paróquia de Kacheliba, a Helena passou a ser “nossa” da missão! Respirei fundo ao saber que o pai não estava em casa. Com algum custo, sentámos-nos e conversámos por uma boa meia hora com os familiares e os vizinhos. Tentávamos explicar que a Helena tem o direito de terminar a escola primária e que não pode ser impedida de receber a sua educação desta forma. Aí, foi-nos dita a razão pela qual o pai queria “casar” a Helena: queria uma terceira mulher para ele! Ao conseguir os animais do dote da Helena, teria o suficiente para uma terceira mulher!

Adolescentes Pokot circuncidadas


“Voltei a sentir gosto por viver!”

Conseguimos regressar com a Helena nessa noite. No regresso, a Helena disse-nos que a sua entrega ao que viria a ser seu marido estava programada para daí a dois dias. Tudo estava programado! A Helena não se cansava de nos agradecer: “Via a minha vida já sem sentido...” – disse. “Eu quero terminar a escola primária e fazer os meus estudos, mas os meus pais só pensavam nos animais que poderiam receber ao entregar-me ao amigo do meu pai! Sinto que agora a minha vida voltou a ter sentido!”

No dia seguinte, domingo, celebrei a missa nessa capela. No final da missa, o pai da Helena quis tirar satisfações, tendo mesmo ameaçado um dos locais que nos ajudou a chegar à boma da Helena. Estava muito zangado o pai da Helena. Estava surpreendido, pois este senhor tinha mesmo sido um pastor local da Igreja Luterana... quando tomou a segunda mulher teve que deixar esse serviço na sua Igreja. Como pode alguém ter até sido pastor protestante, com alguns estudos e ainda assim comportar-se deste modo? Toda a comunidade local o condenou pela sua maneira de actuar. Se continuar assim a proceder, certamente que será aplicada a lei e poderá mesmo ser preso por contrariar a disposto na lei em defesa das crianças. A Helena está agora em segurança aqui na missão, pois nem mesmo nas férias poderá regressar a casa. O risco de ser de imediatamente tomada para ser casada é grande...

Adolescente Pokot em recobro dentro da cabana logo após ter sido circuncidada


Para mim, toda esta saga, e sobretudo as palavras da Helena, ajudam-me a entender como a Ressurreição de Jesus continua a acontecer hoje, e concretamente também aqui em Pökot. A Helena sentia que a sua vida tinha perdido todo o sentido, já não valia sequer a pena viver. Agora ela voltou à Vida, voltou a sorrir e a sentir que vale a pena viver. Tal como o escreve S. João, Jesus veio para que tenhamos vida e vida em abundância (Jo. 10,10). Também aqui essa Vida e essa Vida Nova da Sua Ressurreição continua a acontecer!

Os anciãos Pokot que procuram manter tradições intactas como a circuncisão...

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domingo, abril 24

Acreditar na Ressurreição pode ser muito simples!

O tempo de Quaresma, e sobretudo a preparação próxima à Páscoa na missão, é sempre cheia de actividades. Numa dessas actividades as lágrimas vieram-me aos olhos. Ao passar o filme sobre a vida de Jesus aos catecúmenos, fui surpreendido por uma expressão de regozijo dos catecúmenos ao verem Jesus Ressuscitado. Expressaram-se com um bater de palmas espontâneo e comovente ao ver Jesus ressuscitado
aparecer aos discípulos depois da sua paixão e morte. Afinal, sem muitas explicações e sem muitas teorias biblicas e teológicas, estes catecúmenos fizeram-me ver que pode ser realmente muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus...

P. Filipe com estudantes catecúmenos

Finalmente... o dia do meu baptismo

Ao aproximar-se o Domingo da Ressurreição de Jesus, são muitas as actividades na missão de Kacheliba. Uma das actividades é o curso de formação final para os catecúmenos. Realizou-se na semana passada em 3 locais da nossa (extensa!) paróquia. Aqui no centro da missão cerca de 80 adolescentes e jovens receberam as últimas instruções preparatórias para o Baptismo. Ao todo, em toda a paróquia, são mais de 170 adolescentes, jovens e adultos que serão baptizados neste tempo Pascal. Estes catecúmenos finalizaram um programa de catequeses de 2 anos e vêem agora o dia do seu baptismo chegar. É grande a alegria estampada no rosto de muitos destes catecúmenos... percebe-se que receber o Baptismo significa algo importante para as suas vidas.

Algumas das adolescentes catecúmenas

Junto dos que ainda não O conhecem

O meu tríduo Pascal este ano foi realizado numa das nossas capelas mais antigas da Missão chamada Kodich. Fica a uns 30km norte do centro Kacheliba. Ali tínhamos um grupo de 48 catecúmenos no curso final de preparação para o Baptismo. Desde 4ª feira até sábado receberam as últimas catequeses. Na 5ª feira santa presidi à Última Ceia do Senhor e 4 adolescentes receberam a comunhão pela primeira vez. Tinham sido baptizados quando eram bebés. Obviamente que antes da celebração receberam o sacramento da Reconciliação (pobremente apenas conhecido como “confissão” por muitos!). Um deles, um jovem já crescido, não comunicava sequer em swahili. Só mesmo a língua local Pökot. Já imaginam... eu já “pesco” umas coisas da língua local, mas escutar a sua confissão foi de facto um acto de fé da minha parte! Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece.

Depois da celebração passamos o filme sobre a vida de Jesus ao ar livre. São muitas as pessoas, cristãos e não cristãos, que comparecem. Claro que a electricidade essa só mesmo com o gerador. Mas... (in)felizmente passada cerca de 1 hora chegou uma surpresa: a chuva! Chuva aqui é sempre uma benção até porque este ano ainda não tinha chovido. Porém... toda a aldeia em peso teve que “fugir”. E a chuva, sempre tão abençoada nestas paragens, acabou por estragar a “festa”. Mas havia mais no dia seguinte...

Estudantes da escola primária para raparigas de Kacheliba

Na sexta feira santa a celebração da adoração da Cruz começou às 3 da tarde. Pelo meio a Via Sacra que foi percorrida nas ruas da aldeia. E que forma mais eficaz de anunciar a Morte e Ressurreição de Jesus. No regreso à capela eramos já quatro vezes mais pessoas na capela! Seguiu-se o filme da paixão de Cristo. Desta vez fomos acolhidos no salão da escola primária recentemente construído. Veio de novo a chuva mas desta vez estavamos bem acolhidos. Vários cristãos me disseram que nessa noite não ficou ninguém em casa em toda a aldeia. Não os contei mas deveriam ser seguramente mais de 300 pessoas!

O sábado Santo foi o culminar das celebrações... sempre muito adaptadas à realidade local pois claro! 15 baptismos: 10 adolescentes e 5 mulheres adultas. Confesso que a alegria, a concentração e a profundidade de alguns destes neófitos deixaram no meu coração um sentimento de que Deus toca de verdade a vida destas pessoas. Mas nem as quase 5 horas de celebração cansaram esta gente. O filme desta vez foi sobre S. Pedro e os primeiros cristãos após a ressurreição de Jesus. Foi pena que quase a acabar o filme o meu gerador ficou sem “zagolina”! Nada a fazer... ainda assim já cheguei a casa quase às 3 da manhã – contente por Deus me dar a oportunidade de ser sua testemunha da Ressurreição junto deste povo.

P. Filipe de visita a uma escola debaixo da árvore numa das nossas capelas

Liturgias mais ou menos litúrgicas

Devo confessar que as liturgías entre este povo que apenas começa a conhecer Jesus, são tudo menos “ao pé da letra e da rúbrica”! O silêncio, parte tão fundamental da litúrgia para a assimilação do que se celebra é algo que aqui fica um pouco de lado. Para o Pökot tudo o que se relaciona com Töroröt (Deus para este povo) significa entrar na esfera da celebração. Não quer isto dizer que as celebrações deixam de ser menos vividas, menos sentidas. São apenas e essencialmente diferentes. São o espaço de expressão alegre do que acreditam desde há séculos. São sentimentos tradicionais depois trazidos para a liturgia cristã. Com mais ou menos silêncio, com mais ou menos incenso, com mais ou menos ordem e regras litúrgicas, a Ressurreição de Jesus entrou já na vida e no coração de vários cristãos Pökot. É a força da Vida, da Boa Nova da Ressurreição que renova e faz novas todas as coisas em Cristo.

Um dos nossos catequistas anciãos com a sua esposa na sua "boma" (lar)

Desejo-vos a todos uma Santa Páscoa, cheia de significado e profundidade para a luta de cada dia da vossa vida. É lá que o valor da Vida e Ressurreição de Jesus fazem sentido! É lá que Ele quer ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Afinal de contas... até porque parece que é de facto muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus! SANTA E FELIZ PÁSCOA!

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domingo, abril 4

Surpresas Divinas em cada dia

O meu último post continha uma promessa: dar notícias em breve! Passaram 3 meses… talvez para alguns a definição de “breve” abrange esses 3 meses! Porém, quando o escrevi queria mesmo dizer “muito em breve”! Não pude cumprir essa promessa. As minhas desculpas. Mas aqui estou… quanto mais não seja para vos saudar com um abraço de amizade no Senhor Jesus Ressuscitado. Quanto não valem as festas cristãs para nos “obrigar” (com muito gosto!) a reactivar os laços de amizade.
Durante estes 3 meses devo confessar que foram muitas as surpresas de Deus – positivas e também as menos felizes...
P. Filipe e P. Hubert na celebração da missa na familia Sakal

Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão. Muitos conhecidos e conhecidas da paróquia. A família Sakal é uma das poucas famílias com convicções cristãs fortes na nossa paróquia. Os Pökot são de tradição poligâmica (em que um marido pode ter várias esposas).

O casal Sakal à esquerda com os seus padrinhos de casamento

Naquele dia queriam juntar todos os seus afilhados de Baptismo, de Crisma e de Casamento. Ao mesmo tempo convidaram os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento também. Num local onde os “católicos praticantes” - isto é, “comungantes” - são poucos, podemos já imaginar que o casal Sakal foi chamado a apadrinhar muitas crianças, jovens e ainda alguns matrimónios.
Nesse dia, toda a vizinhança teve um dia de festa. E festa aqui significa também uma refeição melhorada com um pouco de arroz e carne, algo bem raro nas dietas diárias deste povo.
Foi lindo o momento em que o casal apresentou todos os seus afilhados uns aos outros. Ainda emocionante foi ver o gosto com que no final da missa apresentaram a todos os presentes os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento.

Um aspecto de toda a assembleia

A razão de tanta festa saída das próprias palavras do casal deixa qualquer missionário contente com o empenho desenvolvido ao longo dos anos na missão. Disseram: “quisemos juntar-nos hoje somente para aprofundarmos o que significa ser padrinho ou madrinha da fé que nasce em cada um de nós. Queremos que na nossa paróquia sejamos mais e mais conscientes do que realmente significa apadrinhar ou apoiar alguém na sua caminhada de fé na igreja.” Confesso que fiquei surpreendido e maravilhado como Deus vai realizando tantas maravilhas no meio deste povo que apenas há 35 anos começou a escutar a Palavra de Deus.

Preparando a comida

Um “espinho duro” no coração
Um dos momentos mais difíceis para mim na missão até hoje aconteceu no início de Março deste ano. Aquilo que era previsto ser uma greve dos alunos da escola secundária masculina (aqui mesmo ao lado da missão) acabou por ter contornos bem dolorosos.
O dia ainda começava a clarear quando fomos despertados aqui na missão por gritos. Os estudantes tinham começado a atirar pedras e a bater no director da escola. Corremos eu e o meu colega P. Hubert. Ao chegarmos demos com uma multidão de estudantes enfurecidos a destruir o escritório do director com ele lá dentro. Alguns mesmo batiam-lhe com paus arrancados dos ramos das árvores do recinto da escola. Imediatamente acudimos o Director da escola e tentámos defendê-lo da fúria enraivecida dos alunos. Não os conseguimos acalmar mas pelo menos conseguimos defender o pobre Director de ficar mais ferido ou mesmo de o chegarem a matar. Eu não acreditava no que via à minha frente. Quase 2 centenas de estudantes que mais pareciam guerreiros com pedras e paus nas mãos, prontos para avançar não fosse eu e o meu colega estarmos entre eles e o Director. Em vão corria eu à frente dos rapazes tentando acalmá-los. Pelo contrário, tentavam ludibriar-me para chegar até ao escritório do Director onde estava também o meu colega P. Hubert. Tomou 30 minutos à polícia para chegar para que os estudantes dispersassem da escola. Esse dia foi muito longo pois logo se sucederam reuniões de emergência para ver o que fazer a seguir. A escola foi encerrada por uma semana. Foi a semana mais dura desde a minha chegada à missão. Tudo porque todos os dias dessa semana foram necessários para reuniões com uma espécie de Conselho Escolar onde pais, autoridades locais, professores e o “patrocinador” da escola (a paróquia da Missão) estamos presentes. Depois foi necessário receber cada um dos estudantes um a um para tentar perceber os motivos da rebelião. Acabámos por expulsar 8 alunos da escola e mandar outros 7 de suspensão por 2 semanas
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Alunas da escola secundária para raparigas
recentemente aberta em Serewo

O mais doloroso foi aperceber-me que o motivo profundo e trágico deste grave acontecimento é o tribalismo. Os Pökot começaram a enviar os seus filhos para a escola de uma forma mais geral apenas há uns 10 anos a esta parte. Há muito poucos naturais preparados para assumir cargos como professores, médicos, enfermeiros e mesmo pessoal técnico dos mais diversos campos. Por isso, há muitas outras pessoas de outras tribos que aqui prestam serviços como professores, médicos, enfermeiros. Parece que neste momento os políticos locais começaram uma campanha de querer mandar todos os não-Pökot de outras tribos para fora deste local. O mais duro e puro tribalismo. Estou plenamente convencido que é uma campanha que começa no próprio representante Pökot no governo, uma espécie de governador do distrito. Algo grave que apenas nos mostra que ainda há muito trabalho para fazer até chegar ao coração dos Pökot com as palavras de Jesus: amor ao próximo, perdão e comunhão… Apesar de dura, esta experiência apenas me confirma que este é o lugar certo para onde Deus me enviou no momento justo e na altura certa: a missão é testemunho da Verdade, do Amor e da Compreensão. Para mim, estas são razões mais do que suficientes para querer continuar aqui a servir o Reino de Deus – a missão a que Deus me enviou!

Ainda assim… o triunfo da VIDA!
Esta Páscoa foi a primeira passada aqui na missão de Kacheliba. O ano passado encontrava-me a terminar o curso da língua swahili na Tanzania. E claro que foi bem especial…
Todos já escutámos como a Páscoa vivida na missão é sempre especial. Se esperamos celebrações litúrgicas seguidas à risca pelos cânones litúrgicos pois essas não as encontramos aqui. E talvez isso seja mesmo aquilo que torna a vida da Igreja em África… digamos que… diferente!

Adolescentes baptizados na noite de Páscoa em Konyao

Ontem à noite celebrei a vigília pascal numa das nossas capelas mais distantes chamada Konyao, a uns 50km de Kacheliba, 1 hora de viagem (se tudo corre bem!!!). Esperavam-me 18 adolescentes para serem baptizados depois de 2 anos de Catecumenado. Juntar-se-iam nesta noite os cristãos de 2 capelas para celebrar os baptismos de novos cristãos.
Logo à chegada foi necessário prover a luz à capela pois ali ainda não há electricidade. Com uma bateria, um inversor de corrente e umas gambiarras com lâmpadas já podemos “dar à luz”. A capela estava bem composta e ao longe já escutava os ensaios dos cânticos para uma noite que seria longa.
Depois de 3 horas e meia de celebração a alegria estava de facto estampada no rosto de todos. Realmente (pensava eu com os meus botões), a VIDA do RESSUSCITADO é algo incrivelmente grande e que enche o coração de todos os povos. Sejam eles mais ou menos instruídos. Mais ou menos profundos na sua fé…
O regresso à missão foi já de madrugada… com o único senão que viajava sozinho de regresso! Não… não tinha medo! Graças a Deus, neste momento, há segurança mesmo durante a noite. O único problema era mesmo se tivesse algum problema mecânico… aparte dos furos que são o “pão-nosso” de cada dia e que são normais nestas paragens! Tudo correu bem e à chegada, já perto das 2 da manhã, ainda encontrei os meus colegas a pé que também regressavam dos seus empenhos noutras capelas.
Hoje, dia de Páscoa, a manhã começou de novo cedo. Numa outra capela chamada Simotwo, esperavam mais adolescentes para serem baptizados. Pelo caminho tive que “inventar carreiros” para poder chegar à capela… a chuva das últimas semanas (outra surpresa linda e bem apreciada de Deus) tinha tornado o caminho normal impraticável. Entre atalhos e “desatalhos”, lá chegámos com a graça de Deus.
Já a comunidade cristã estava reunida e entusiasmada praticando os cânticos pascais alegres depois do tempo da Quaresma. Durante toda a celebração a alegria de novos cristãos era bem evidente: sorrisos e cantos alegres ecoavam a cada momento. Os 7 adolescentes que foram baptizados e que receberam a comunhão pela primeira vez luziam de contentamento com as suas pequenas velas acesas. Era mais que evidente que a Graça e a Luz de Jesus Ressuscitado enchia os seus corações.

O sistema eléctrico à doc

Deus é sem dúvida o Deus das surpresas… boas e também as menos boas. É que em todas elas Ele nunca deixa de nos abençoar: nas boas enche-nos de alegria; nas menos boas dá-nos a sua força e coragem para enfrentarmos cada dia com o entusiasmo e a alegria da VIDA NOVA da RESSURREIÇÃO – ALEGRIA, PAZ, AMOR MÚTUO E ENTREGA DA VIDA PELOS OUTROS.


Grupo de adolescentes baptizados em Simotwo no dia de Páscoa

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS VÓS!
PASKA NYÖ KARAM
(Feliz Páscoa em Pökot)

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domingo, outubro 18

O meu Dia Mundial das Missões 2009

Como pode um missionário em pleno “terreno missionário” deixar de partilhar a sua missão no Dia Mundial das Missões? Claro que é bem mais forte do que ele…
É por isso que aqui estou de regresso. Há já muito tempo que o tempo não me dava tempo de “temperar” este espaço missionário. Aqui regresso hoje, na esperança de que esta partilha mais possa ajudar-nos a todos a viver este dia e mês missionário com um coração grande.


A capela de Lokelelian

Não… não me perdi nem estou em crise!
Sei que alguns de vós têm visitado este cantinho missionário e desde há muitas semanas que não encontram nada “de novo”. Alguns até já me escreveram a perguntar se estava bem, se ainda estava no Quénia, se tudo estava a correr bem… Outros mesmo chegaram a telefonar-me e enviar sms… A todos quero agradecer pela vossa preocupação e pelas vossas orações.
Mas de facto os últimos meses foram e têm sido de muito trabalho e também cansaço físico ao ponto de não encontrar um tempinho para partilhar convosco. Mas neste dia fiz uma promessa a mim mesmo de não falhar e… custe o custar aqui estou convosco mais uma vez.
A verdade mesmo é que me sinto muito feliz e cada vez mais integrado na realidade desta missão que Deus me confiou. Um dos meus colegas (já com 75 anos!) foi de descanso à Itália por 2 meses. Ficamos só eu e o P. Hubert. Trabalho triplicado pois claro! Graças a Deus já regressou para desanuviar um pouco o trabalho!



Lá onde o Evangelho acaba de chegar
Em toda a minha vida missionária, este foi o meu primeiro Dia Mundial das Missões que vivi como missionário em pleno “terreno missionário”, entre este meu povo querido, os Pökot. Todos os outros anos tinha-os vivido ou em Nairobi, capital deste país (durante os meus estudos de teologia) ou em Portugal, terra missionária também mas, convenhamos, de características distintas! E não podia ter sido mais bonito e realizador.
Tocou-me celebrar a Eucaristia hoje numa das nossas capelas mais recentemente abertas: Lokelelïan a escassos 2km da fronteira com o Uganda.
A capela ou a Igreja… bom… essa foi construída pelos próprios cristãos deste lugar: uns ramos de sisal servem de paredes e uns ramos já secos protegem um pouco do sol tórrido destas paragens. Cristãos propriamente ditos (baptizados) não há muitos. O facto de a poligamia ser praticada por este povo faz com que muitos “cristãos de coração” não possam receber o baptismo. No entanto, não deixam de estar presentes e de rezar cada semana nesta que é a sua Igreja.



Muitas das pessoas começaram mesmo a escutar há muito pouco tempo a Palavra de Deus e o facto de Deus se ter feito Homem em Jesus Cristo. Töroröt, como conhecem e chamam a Deus desde há séculos, esse é bem mais “conhecido”. Mas o Deus Pai de Jesus Cristo e da bíblia, esse, é ainda demasiado recente por estas terras para que mesmo os cristãos baptizados O possam conhecer verdadeiramente.

A alegria que paira no ar
Lokelelïan fica a cerca de 1h15m do centro da missão em Kacheliba. 45 minutos de 4x4 e outros 30 minutos a pé. Sim porque os últimos 6 km demoram “apenas e somente” 30 minutos a percorrer tal é o “tapete” todo o terreno que temos que atravessar. Ainda antes de chegar ao local onde deixar o carro para depois caminhar, já estavam dois cristãos à minha espera. Um mais jovem que o outro. Tinham vindo arranjar a estrada em alguns lugares para que tivéssemos menos problemas em passar. Graças a Deus, mesmo que fora de época para as colheitas, as chuvas parecem estar a chegar e tem já chovido em alguns lugares. Era o caso de Lokelelïan. Por isso todo o cuidado é pouco para não se ficar encalhado na lama.
Ainda ao longe já se escutavam as batidas dos tambores e os cantos dos cristãos que já se encontravam na capela. À chegada a alegria do costume e sempre tão renovadora e nova, distinta! Li nos rostos sorridentes e no ritmo das palmas uma alegria verdadeira e sincera pela chegada do missionário.

A missão é dar e receber
Na sua mensagem para este Dia Mundial das Missões o Papa lembrava (assim como as leituras da eucaristia de hoje) que o trabalho do seguidor de Jesus não é outro senão aquele do Serviço. E assim mesmo me senti hoje com estes cristãos amigos de Lokelelïan. Depois da celebração da missa (cerca de 2 horas), sempre cheia de vida e de alegria, entre o meu arranhado Pökot e o Kiswahili (celebramos a missa em 2 línguas, imaginem!), pela segunda vez consecutiva na visita a esta capela, é “pecado mortal” virar costas sem pelo menos tomar um chazinho à moda do Quénia. Confesso que a hospitalidade desta comunidade (como muitas outras também) ensinariam a muitos de nós, ditos civilizados, as boas maneiras de hospedagem. É a “boma” (conjunto de várias cabanas onde a família Pökot vive) da Mama Lilian, uma das primeiras cristãs desta comunidade. Um sorriso sempre lindo e acolhedor. Uma profundidade no seu olhar sereno e confiante. Eu até estava com um pouco de pressa para regressar à missão, mas de nada me valeu… depois do chazinho (também partilhado com os outros cristãos) presentearam-me com uma garrafa de Sprite, algo bem raro nestas paragens e sobretudo naquele local da nossa missão.

A casa do catequista construida pouco a pouco

Terão caminhado alguns kms para acompanharem o prato de feijão e milho cozidos com esta pequena-grande carícia. Missão é sem dúvida um dar e receber. Dar e dar-se assim como Jesus; receber talvez não tanto valores materiais mas gestos muito simples e sinceros destas pessoas que valem por milhões! Gestos que demonstram que é no dar e receber que nós cristãos encontramos verdadeiramente a felicidade.


Com estudantes que me acompanharam hoje na "Boma"

Com um coração cheio de bênçãos de Deus e destes gestos tão simples e tão enriquecedores é feita a vida do missionário; sentimentos compensadores de outras tantas desventuras e dificuldades que também são parte do dia a dia da missão. Mas… como dizia, S. Daniel Comboni, “as obras de Deus nascem aos pés da Cruz” – lugar de desolação e sofrimento mas também lugar do nascimento da Vida plena em Deus!
Para todos vós uma boa continuação do mês missionário sempre sem se esquecerem que de facto, todos nós temos e devemos e somos de facto missionários do Amor do Pai.

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domingo, agosto 2

A escola primária de Kacheliba para raparigas

No final do mês de Agosto, no início do 3º período do ano escolar aqui no Quénia, cerca de 400 raparigas irão instalar-se de vez na recém construída escola primária de Kacheliba.

Esta escola é internato pelo simples facto de que muitas das crianças em terras Pokot têm que deslocar-se vários quilómetros desde suas casas para poder receber a educação primária.
A escola foi construída pela nossa comunidade missionária. Foram várias as organizações que financiaram o projecto: Manos Unidas de Espanha, a província italiana dos Missionários Combonianos, Edukans (através da Diocese de Kitale) e ainda uma contribuição local do governo queniano.
A construção iniciou-se em Agosto de 2008, sendo que, passado 1 ano, quase todo o complexo está terminado.
A construção tem 3 fases:

Fase 1: construção de 4 dormitórios, latrinas e banheiros, cozinha com despensa e salão de estudo que serve também de refeitório;

Fase 2: construção de 9 salas de aulas em 3 blocos, bloco administrativo e latrinas;

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola;

Fica ainda a faltar a construção da vedação de todo o recinto escolar... até que mais ajudas possam ser encontradas.

Ficam de seguida 3 pequenas apresentações sobre cada uma das fases.

Fase 1: construção dos dormitórios, latrinas,
duches, cozinha e salão de estudo/refeitório.

Fase 2: construção de 3 bocos com 9 salas de aula, bloco administrativo e latrinas

Fase 3: perfuração de um poço de água e canalização para toda a escola

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domingo, julho 12

Presentes de Deus!

Foi já há umas semanas a última vez que abri o meu diário aqui no blog. A razão é simples e a mais óbvia de sempre: tempo!
Sim, também por estas bandas o tempo é apertado para tudo o que desejaria escrever. Cada dia que passa daria uma boa página de diário missionário…
Amanhã terão passado 2 meses desde que regressei definitivamente a Kacheliba. Foram 2 meses de intensas actividades e também alguns contratempos.

Numa das comunidades durante a distribuição do milho
Dar de comer a quem tem fome
Desde o dia 5 de Junho, dia do meu aniversário, que iniciei a distribuição de milho doado pelo nosso Bispo da Diocese assim como algum que também nós como comunidade missionário comprámos. Foi uma oportunidade de poder conhecer as 51 capelas da nossa paróquia. Nesse dia 5 de Junho, iniciar esta distribuição do milho foi o melhor presente que Deus me podia ter dado. ainda que, numa das comunidades, me ofereceram uma pequenina garafinha de plástico de mel... Em duas semanas foi possível ir a quase todas as capelas. É que as chuvas continuam teimosas em não passar por estas terras. As sementeiras começam a secar.

Uma das "shambas" (campos) com o milho já seco

É desolador ver muitos campos com o milho estragado devido á falta de água. As pessoas começam a perder a esperança e temem que este ano seja como o ano passado: sem colheitas. É por isso necessário ajudar um pouco as pessoas. Só que é impossível ajudar toda a gente… o grande “nó na garganta” que todo o missionário experimenta! Levamos a cada capela 2 sacos de milho de 90kgs cada um. 100 foram doados pelo Bispo da Diocese, outros 100 comprámos ao preço de 27 euros cada um.
Um dos médicos atendendo as pessoas com problemas oculares

Catequistas e operações aos olhos
Tivemos também 3 dias de encontro com os catequistas. Este encontro é realizado cada 6 semanas. São 3 dias intensos de formação e de planear o andamento das actividades da missão. Sem os catequistas seria impossível para nós poder chegar às pessoas. São cerca de 45 os catequistas e cada um trás o seu relatório do andamento das suas comunidades. Um trabalho constante em comum da busca da vontade de Deus para a paróquia.
Na outra semana tivemos também uma equipa de 15 médicos especialistas dos olhos aqui na missão por 4 dias. São muitas as pessoas com cataratas e com glaucomas nos olhos. Muitos já desde há muitos anos… doenças que podiam ser evitadas com um pouco mais de higiene e cuidado no lavar os olhos cada dia. Foram atendidas nestes 4 dias cerca de 600 pessoas, metade das quais (300) tendo mesmo sido submetidas a cirurgias. Foi uma actividade financiada pelo Lions Club de Kitale, a Diocese a que pertencemos.
O dispensário da Missão improvisado em "bloco operatório"

A mais bela experiência do Anúncio de Jesus
Há uma semana atrás também recebemos cá o Sr. Bispo para administrar o sacramento do Crisma a cerca de 250 cristãos. Realizámos duas celebrações: uma no sábado numa das nossas capelas e outra no domingo aqui no centro da missão. Torna-se mais fácil para os cristãos de mais longe se deslocarem.
Porém, as visitas às comunidades locais é o trabalho que mais me apaixona e me faz sentir bem realizado como missionário. Chamamos a estas visitas às comunidades de “matembezi” em língua kiswahili. Chemakeu é uma dessas comunidades que visitei num destes dias. Fica a cerca de uma hora daqui da missão de carro. Vivi uma das mais belas experiências desde que cheguei ao Quénia. Saí daqui da missão de manhã com o catequista pois também ele tinha vindo aqui à missão com a sua mãe por causa das operações aos olhos que referi acima. Aproveitei para levar a uma escola primária dois sacos de milho pois as crianças nesta escola não são apoiadas ainda pelo governo assim que a comida da escola depende da ajuda dos próprios pais das crianças e da missão.
Chegámos a Chemakeu e estive uns minutos em casa do catequista. Melhor… na sua cabana! É um bom catequista e com muita vontade de trabalhar e anunciar Jesus, mas também tem alguns problemas na sua vida que não o deixam sobreviver só com este trabalho. Depois caminhámos a uma outra família e à sua cabana. Aqui chamámos à casa das pessoas "boma"; normalmente a "boma" é o recinto, a área onde têm duas ou três cabanas, um curral em forma de cabana também para os animais e o pátio em frente das cabanas... Caminhámos cerca de meia hora pela savana dentro até à casa de uma senhora cristã baptizada, mas que já há uns tempos tinha deixado de vir à capela. Resolvemos com o catequista ir fazer uma celebração domiciliária... quase a chegar fomos surpreendidos por uma valente chuvada! Graças a Deus! E que bem que soube aquela chuva cair pelas orelhas abaixo... Chegámos todos encharcados, mas também felizes pelo dom de "ilat", chuva em Pökot... ou melhor, o espírito da chuva para os Pökot. Fomos recebidos com o tradicional chá queniano (chá preto com umas gotas de leite de cabra!), e entretanto os vizinhos foram chegando. Uma hora depois, entre conversa e chegada de vizinhos, dentro da cabana estávamos cerca de 20 pessoas. Destas só 4 eram baptizadas, excluindo eu e o catequista, pois claro! Todos os outros, senhoras, alguns jovens pastores e alguns homens casados, ainda não eram baptizados e pouco sabiam de Jesus e de quem é Jesus. Mais uma vez também voltei a confirmar o quanto necessito de aprender a língua local Pökot, pois tudo o que disse em Kiswahili tinha de ser traduzido. O catequista foi o que dirigiu o momento de oração que fizemos, lendo a passagem do evangelho do domingo seguinte e explicando-o. Veio depois a minha vez de também apresentar quem é Jesus, o que é a bíblia e porque é que lemos o livro da bíblia; explicar porque é importante escutar o que Jesus disse e nos diz hoje através da bíblia... o básico e mínimo por onde se começa o anúncio de Jesus, O Filho de Deus, Töroröt, Deus para os Pökot. Todos rezamos e o tempo passou de uma forma que nem sequer demos conta. Estivemos naquela "boma" cerca de 3 horas. Uma alegria enorme na despedida... e eu também me sentia muito feliz e realizado pois foi para isto, sobretudo para isto, que fui chamado por Deus como missionário. Era hora de regressar não sem antes passar pela “boma” de um outro cristão jovem que está a viver com 4 filhos, depois da mãe os ter abandonado a todos por causa da falta de comida... algo que me chocou bastante...

Visita a uma das capelas com as crianças da pré-primária na sua sala de aulas debaixo da árvore!

Quando chegámos estavam a preparar uns frutos selvagens que é a comida que têm nestes dias em casa. Graças a Deus as crianças têm assegurada uma refeição na escola de milho e feijão misturados. Mas há outros que não vão ainda à escola... estes frutos selvagens custam a preparar e só no dia seguinte iriam estar comestíveis... pelo que nesse dia, como em tantos outros, iriam deitar-se com o estômago vazio. Acabei por deixei-lhes o equivalente a 1 euro que é suficiente para comprar 2 quilos de milho e que os ajudará a ter uma refeição à noite por 2 ou 3 dias! Situações que, contadas a muita da gente jovem nos países desenvolvidos, não dá para acreditar!
Apesar de tudo nesse dia regressei feliz e realizado para casa... feliz pelo dom da vocação missionária a que Deus me chamou.

A anterior capela de Lokomolo

Um domingo nas comunidades
Hoje, domingo, fui celebrar a uma comunidade chamada Lokomolo. À minha chegada foi-me dito que se esperavam outras pessoas de duas comunidades/capelas “próximas”. Próximas no conceito Pökot, pode significar que estavam a cerca de 2 horas de caminho a pé! Lógico que em vez de começarmos às 10.30, a celebração começou já perto do meio dia. É o horário africano que olha mais para o tempo em quantidade do que a quantidade do tempo. Celebrámos numa das salas de aulas da escola ali construída pela Missão. A capela, ainda recente, ficou sem o tecto devido a um temporal há cerca de um ano. Desde então, estamos a tentar organizar-nos junto com as pessoas para podermos repor o telhado de chapa de zinco… São muitas as despesas que temos e nem sempre chega para tudo ao mesmo tempo! Assim que é necessário ir esperando também pela providência!
Devo dizer que a um dado momento, contando as criancinhas pequeninas e bem irrequietas, estaríamos umas 80 pessoas naquela “capela” improvisada. A grande maioria, uma vez mais, não baptizados. Para a comunhão aproximaram-se apenas umas 20 pessoas.
Mas este, foi um dia especial: sem contar e sem me ter preparado convenientemente, foi-me pedido pelos catequistas que celebrasse a missa em língua local Pökot. Normalmente celebrava em língua kiswahili. Nunca o tinha feito antes na língua local e, mesmo a ler, é bem distinta do kiswahili e bem mais difícil. Lancei-me! Nos momentos justos, as pessoas lá iam respondendo à missa, sinal que a minha pronúncia ia sendo entendida pelo menos em parte. Mas devo confessar que me custou. Claro que a homilia foi em kiswahili e traduzida pelo catequista, mas… foi uma experiência mais que me ensinou que o Espírito de Deus é aquele que trabalha nas pessoas, muito para além das nossas próprias capacidades ou especialidades!!!
Entre o meu falar Pökot meio enrascado, o choro intercalado das crianças e o entrar e sair de algumas das pessoas por razões que não conseguia escrutinar, a verdade é que a aparente apatia dos cristãos durante as celebrações em muitas das nossas paróquias na Europa, por e simplesmente aqui não existe. Em muitos momentos foi mesmo necessário parar a homilia para que as crianças fossem atendidas (normalmente com a mamita da mãe… fim do pio!) ou que as pessoas que entravam se acomodassem. Definitivamente… celebrações bem distintas e diferentes das nossas liturgias europeias tantas vezes cheias de “pompa e circunstancia”.
No final da missa (que ainda assim durou 2 horas), há lugar a discursos e boasvindas aos visitantes das outras capelas; depois o chazinho queniano do costume. Entre isto e mais aquilo, deixei a capela de regresso à Missão já depois das 3 da tarde.
Mais um dia feliz na vocação a que Deus me chamou. Conto, como sempre, com a vossa oração, sobretudo, para que Deus nos envie o dom das chuvas, tão escassa e tão necessária para a sobrevivência destes povos.

Escola de Lokomolo construída pela Missão lugar da celebração da Eucaristia

“Pensamentos do meu diário”
Kacheliba, Pökot Norte – Quénia
12 de Julho 2009

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domingo, maio 31

Começando a entrar nos esquemas… da missão!

Hoje, 24 de Maio, dia da Ascensão do Senhor, presidi e fiz a homilia em Kiswahili pela primeira vez. Celebrei duas missas. A primeira foi com os estudantes da escola internato aqui da missão, a escola primária. Começamos pelas 8.15h e depois a missa seguinte às 10,30h, ainda que a hora de começo na verdade é às 10.00h. Mas estamos em África!!!
Aspecto da celebração da missa na Missão de Kacheliba

Esta segunda missa é com as pessoas aqui de Kacheliba e ainda os alunos da escola secundária também aqui da missão. É também uma escola de internato. Muitas das escolas aqui são internatos pois as pessoas vivem muitas vezes bem longe das escolas e por isso têm que enviar os filhos para a escola e ficar em regimes de internato… no entanto as condições não são nada comparáveis aos nossos colégios internos… nem por sombras! É a necessidade que faz termos os internatos.
Senti-me de verdade muito bem. Penso que os 4 meses que foram investidos na aprendizagem da língua foram bons. Eu tive que me preparar escrevendo a homilia, pensando ler nas missas. Sim, li um pouco mas a um dado momento pus o papel de parte e fui por aí fora. Mais de acordo com gramática ou menos, o importante é que as pessoas no final da missa me disseram que entenderam bem o que quis dizer; diziam ter entendido bem a explicação do evangelho. Posso dizer-vos que sentia um pouco de medo ao começo. Não é o mesmo que o inglês ou muito menos que o Português… mas sinceramente senti que tantos os alunos como as pessoas me seguiam. Pelo menos iam respondendo também ao que lhes ia perguntando durante a homilia… Creio que este foi um primeiro passo que dei e que agora será já com mais e mais confiança. Além do mais, o kiswahili aqui do Quénia não é o kiswahili dos professores na escola da língua… é muito mais fluente e por vezes as regras gramaticais não existem… Assim que me sinto muito feliz por mais este passo na inculturação e na introdução da vida missionária.

Crianças Pokot durante uma celebração
numa das capelas... ao ar livre!

Visitas às capelas
Ao longo desta semana pude visitar com o meu colega Hubert, várias capelas bem como escolas das quais somos os “patrocinadores”, aqui dizem em inglês, sponsors! Em toda a paróquia creio que são há volta de 20 escolas primárias de quem somos “sponsors”, ou seja, foi a missão a começar as infra-estruturas. Muitas delas não têm ainda as salas de aula para os 8 anos que compõem a escola primária aqui no Quénia. As escolas sempre foram uma das grandes prioridades da missão, depois do trabalho de evangelização. Há 30 anos não existiam praticamente escolas nenhumas aqui na zona.
Na sexta-feira, dia 22 de Maio, eu e o Hubert saímos daqui da missão ao final da manhã para uma reunião numa das escolas não muito longe aqui da missão. Uns 20 minutos de carro. Porém, por causa de um grande rio que enche e é bem largo quando chove (como estes dias!) torna este lugar quase inacessível para lá chegarmos de carro. Neste dia a “estrada-picada” até não estava nada mal. A reunião começou pelas 13.30h. Era uma reunião com o representante da área do ministério da educação. Há aqui em cada escola uma espécie de Comissão Escolar, o que em Portugal seria o Conselho Pedagógico, de que fazem parte o “sponsor”, o director da escola, representantes do governo e pais. Isto parece tudo muito oficial e pomposo, mas na realidade são comissões constituídas pelas pessoas do lugar. O problema era que a anterior comissão era provisória. Numa dessas comissões, imaginem, o presidente era uma pessoa cega, um dos pais, e o tesoureiro não sabia ler nem escrever… Parece anedótico… mas era verdade! Não é que seja mau que as pessoas diminuídas fisicamente ou culturalmente façam parte destas comissões… pelo contrário, mas a preparação destas pessoas aqui não é a mesma que o mundo ocidental muitas vezes oferece. Parece que a anterior comissão conseguiu dinheiro de um fundo monetário do governo e construíram a escola com salas de aula novas. Antes a escola funcionava em apenas 2 salas de aula construídas há uns anos atrás pela missão. Muito bem! Chamaram um construtor local para o trabalho… das 8 salas de aula apenas 4 podem ser usadas pois as outras estão a ponto de cair… sem nunca terem sido usadas! A construção foi muito pobre. A reunião começou debaixo de umas árvores no terreno da escola. Nas reuniões aqui todos falam, bom… pelo menos os anciãos e os homens. As mulheres é-lhes dada voz já depois de todos terem falado e dado a sua opinião… infelizmente, pois muitas vezes são as mães as grandes interessadas na educação das crianças. A um dado momento, depois de já 3 horas de reunião, a chuva ameaçou! Fomos todos para dentro de uma sala de aula. E a reunião continuou até às 6.30 da tarde, ou seja, depois de 5 horas de reunião, foi constituída uma nova comissão escolar. Aquilo que mais me chamou a atenção é a forma como as pessoas têm a capacidade de resolver problemas entre eles… Os anciãos são de verdade pessoas cheias de experiência e muitas vezes são os grandes construtores da união entre este povo. Mas também se dão para o torto, são os principais factores de desavenças entre as pessoas… O importante é que no final todos estávamos contentes com o resultado da reunião. Este ano a escola tem apenas duas classes-anos a funcionar, muitas vezes com poucos alunos, como estes dias. Isto porque tradicionalmente os Pökot não são ainda muito abertos à educação das crianças. Muitas vezes enviam as crianças à escola pois, pelo menos na escola, geralmente, as crianças podem ter uma refeição. Apesar de que neste tempo de fome, sabemos de escolas a quem o governo não enviou comida suficiente e os alunos não têm muito para comer. Esta escola é uma delas…
Anciãos Pokot - os "juízes" locais

Também temos problemas logísticos...
Na quarta-feira anterior também tivemos uma outra reunião numa das nossas capelas. Desta vez bem mais longe daqui da missão. Mais de um hora por caminhos que só são “arranjados” quando o missionário vem para visitar a comunidade. Por fim lá chegamos. Desta vez o problema era diferente. Há 20 anos o terreno para a construção da capela foi doado ou comprado pela missão (não sabemos!). É cerca de 1 hectare. O ancião morreu há 2 anos. A sua mulher (parece que este só tinha uma ao contrário de muitos outros!) juntamente com os filhos (um deles é guarda em Mombasa… a 1200km daqui!) reclamam o terreno, ou querem apenas que o terreno da capela fique reduzida a um espaço de ¼ do hectare… Certamente que este caso é, aí em Portugal, um caso de tribunal… até porque não sabemos se há algum acordo escrito ou não deste terreno. De qualquer forma o terreno é dos cristãos desse lugar e por isso terão que ser eles também a decidir junto com os anciãos como resolver este problema. E mais uma vez, é linda a forma como as pessoas se escutam! Todos intervêm (normalmente os homens, ainda que aqui foram também as mulheres que são muitas vezes as que vêm mais à Igreja… tal como aí em Portugal!). Escutam-se, procuram clarificar coisas e por fim os anciãos são os juízes que decidem o que fazer. Até o chefe local representante do Governo nesta localidade, uma espécie de presidente da junta, está na reunião, mas são os anciãos aqueles que têm o poder tradicional de decidir. Desta vez parece que a pobre senhora e os filhos não vão conseguir muito, uma vez que os anciãos pareciam perguntar-lhes… porque é que esperaram que o velhote morresse para reclamar?!?! No entanto adiamos a decisão até uma outra reunião com eles em Agosto para procurarmos bem pelo documento ou acordo de utilização do terreno para a capela. Mais uma vez… foram os anciãos aqueles que procuram decidir as coisas. Tivemos ainda tempo de visitar a escola dessa localidade… com 8 salas de aulas, mas as paredes são feitas como as cabanas nesta área… só que com chapa de zinco por cima. Estão a planear, com a ajuda da missão e do governo, eles mesmos construir uma escola com condições mais permanentes. Veremos…
Na quinta-feira tivemos ainda outra reunião numa outra capela, junto com os cristãos e os anciãos para procurar um substituto do catequista para aquela capela… como vedes… muitas reuniões… muitas coisas até a parecer muito oficiais… mas todas debaixo da árvore… está-se melhor e mais frescos!
Anciãos Pokot durante uma celebração comunitária

Muitas pessoas não têm que comer em casa
Mas até hoje, aquilo que mais me tem chocado e até feito pensar muito é que em todos os lugares que vamos as pessoas pedem-nos ajuda. Este tempo é de facto um tempo em que muitas pessoas estão a passar fome. As últimas colheitas foram muito escassas e além do mais há já muito tempo. Todos os dias pela manhã e durante o dia temos pessoas aqui à porta a pedir ajuda. Certamente que algumas delas talvez não necessitam assim tanto, ou não querem fazer nenhum… e aí está a grande dificuldade que me parte o coração… saber quem realmente necessita. Graças a Deus tem chovido bastante e vemos que muitas pessoas têm cultivado bastante. Diz o Hubert que mais do que em outros anos. Porém, até que o milho, o centeio ou a cevada (uma espécie de cevada!) cresçam e estejam prontos para serem transformados em alimento, ainda temos os meses de Junho e Julho. As colheitas começam apenas para meados de Agosto. E digo-vos sinceramente que este tem sido o maior desafio que tenho experimentado desde que cheguei aqui à missão. Nesta semana terminei de escrever uma lista de 616 pessoas que em toda a paróquia estão necessitadas. São listas que os catequistas nos trouxeram das capelas. Não incluímos na lista toda a gente pois todas as listas tinham cerca de 2000 pessoas! Pedimos-lhes que indicassem apenas aqueles que estão mesmo necessitados por serem idosos, doentes ou incapacitados. Entregámos essa lista ao Sr. Bispo pois ele mesmo prometeu ajudar com alguns sacos de milho. Estes dias, recebemos a confirmação de que o Sr. Bispo vai enviar cerca de 100 sacos de milho, cerca de 9000kg de milho. Também nós, aqui na missão, comprámos também outros 100 sacos de milho. Ao todo são cerca de 18mil kg de milho. Iremos distribuir pelas 52 capelas 3 sacos (270kg) para serem distribuídos por aquelas pessoas necessitadas. Serão os nossos catequistas a distribuir. Ficaremos com um maior número de sacos aqui na missão pois é onde mais pessoas vêm pedir ajuda. Não é muito, mas pelo menos é um pequeno gesto que ajudará a aliviar um pouco estes tempos de dificuldade. Cada saco custa-nos cerca de 27 euros, pelo que será uma boa maquia, mas cremos que bem empregues para ajudar esta gente. Calculamos que os 200 sacos de milho possam dar para sensivelmente 55 mil refeições. Isto quer dizer que podemos alimentar cerca de 900 pessoas durante estes dois próximos meses, até às próximas colheitas, se Deus ajudar com a chuva. No entanto, este é um trabalho de distribuição sempre muito difícil… quem é que não está necessitado estes dias?!?!
Na verdade, as necessidades são muitas, e dou-me conta também que entre as pessoas mesmas, aquelas que podem e têm um pouco mais porque têm trabalho aqui no centro ou mesmo na missão, elas mesmas ajudam muitas outras pessoas. É o caso da nossa cozinheira e da cozinheira das irmãs, ou o nosso construtor, também ele africano, que todos os dias alimentam a muitas outras pessoas também… situações que de facto nos fazem pensar…
Mas como dizemos aqui em kiswahili, “Mungu atatusaidia kwa sababu anatupenda sana”, ou seja, “Deus ajudar-nos-á porque muito nos ama!”

Ugali - comida típica africana: farinha de milho
preparada aqui para o "manjar" de um casamento

E a vida na missão continua… sempre com as vossas orações amigas! Bem hajam! Sörö nyo man – Muito obrigado em língua pökot.
"Pensamentos do meu diário"
Kacheliba, 24 de Maio 2009
Festa da Ascensão do Senhor

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domingo, maio 24

Regresso em cheio!

Eis-me de regresso à terra Pökot – Kacheliba! Depois de 4 meses de estudo intensivo da língua kiswahili na Tanzania, eis que é chegado o momento de me instalar definitivamente na missão.Poderia dizer que os meus dois primeiros dias deste regresso foram um aperitivo bastante apaladado: eucaristia debaixo das árvores, crianças a aprender a ler e a escrever debaixo de outras árvores, ser bons samaritanos e ajudar a polícia a desenvencilhar-se da sua pick-up atascada no rio, furo no nosso carro, cruzar o rio a pé antes de nos aventurarmos com a pick-up…, enfim… aquilo a que chamaria a vida de um missionário aventureiro no tempo das chuvas por estas paragens. Mas a Missão é muito mais do que isto…

Regressei a Kacheliba no dia 13 de Maio. Não! Não o escolhi de propósito. Apenas e tão somente aconteceu. Alguns dos nossos jovens lusitanos costumam dizer “correu mal” quando algo não saiu da forma esperada. Bom… no meu caso diria “Não podia ter corrido melhor!” Talvez (ou será mesmo isso) Deus queria dizer-me que a sua bênção por intercessão de Maria estaria sempre comigo. Senti que Maria chegava comigo a Kacheliba nesse dia. E por isso não devo temer seja o que for. Não fosse eu um bom portuga e devoto de N. Sra. de Fátima.
O meu superior e colega de missão, P. Giancarlo Guiducci já estava à minha espera em Kitale. Esta á a cidade mais próxima da nossa missão onde costumamos ir às compras. Fica a 80km de Kacheliba. 40 dos quais em estrada alcatroada. Os restantes 40 são em terra batida. Mas… encontrei a estrada muito melhor do que a deixei em Janeiro passado. Aqui trabalhou-se durante estes meses.
Surpresa das surpresas… à minha chegada o meu colega P. Hubert tinha preparado um bolo para celebrar a minha chegada. Digamos que um pedacito de bolo aqui nestas paragens é de facto uma raridade. Nesse dia também jantámos com a comunidade das irmãs franciscanas, a nova congregação que entretanto veio trabalhar aqui em Kacheliba depois da partida das Irmãs Combonianas em Março passado. É uma comunidade pequenina a das irmãs: duas irmãs africanas, a Irmã Agnes e a Irmã Ciprian. Uma é a encarregada do dispensário ou Centro de Saúde aqui da missão. A mais jovem, a Irmã Ciprian dá aulas na escola primária da missão. Desde logo me senti em casa. A Mama Tereza, a senhora que ajuda as Irmãs nas lides da casa, lançou-me um sorriso de alegria do meu retorno de tal forma que logo percebi que era bom sentir-me em casa de novo.
Logo pela manhã do dia seguinte saí com o meu colega P. Hubert. Fomos visitar uma capela que foi começada há bem pouco tempo, há poucos meses. Tão poucos que ainda nem sequer se prevê a construção da capela. Graças a Deus, na nossa paróquia podemos chegar a todas as capelas com a pick-up. Ainda que para isso algumas vezes seja necessário sair do carro e com a machada, cortar uns arbustos ou árvores que entretanto cresceram no meio do caminho. Outras vezes, no tempo das chuvas, temos que atravessar rios sazonais. Desta vez não fomos nós a atascar-nos no rio… já alguém lá estava a “dar de beber aos cavalos” (do jipe)! Nada mais nada menos que o carro da polícia. Escoltavam um outro jipe das Nações Unidas para chegar até uma escola a menos de 1km do rio. A UN anda a fazer um levantamento das escolas que recebem ajuda para a alimentação das crianças. Há que arregaçar as calças (as mangas não pois aqui anda-se sempre de manga curta!), tirar as sandálias e meter-se ao riacho para ajudar a resolver o assunto. Mais ou menos tempo decorrido, sempre se arranja maneira de retirar de lá o jipe. Fomos à nossa vida e chegámos à nossa capela com o nome bastante simples de Katukumwok. Fácil de pronunciar não? Debaixo de umas árvores, estava uma cadeira e um banquito. “Podemos celebrar aqui?” – perguntou o catequista. “Claro que sim!” – respondemos de imediato. “Uma mesa e outra cadeira estão a caminho” – retorquiu ainda o catequista. Mais tarde vi que a mesa tinha sido transportada à cabeça por uma das senhoras desde uma distância de pelo menos 2km!
A uns metros dali estava a escola pré-primária… claro está também debaixo das árvores. Contei as crianças: 23! “Mas são muitas mais” – disse-nos o professor. “Os outros estão com os pais nos campos! Por isso não puderam vir. Estão com os pais a ajudá-los a cultivar os campos!” Crianças de 4, 6, 7 anos? – pensei. É verdade! Estamos no tempo das chuvas e como aqui as chuvas são também escassas e incertas muitas vezes, há que aproveitar o tempo e as chuvas para plantar um pouco de milho e de soja. Os Pökot, por natureza e tradição, não são agricultores. São pastores. Mas há já bastantes que começaram também a cultivar terrenos. Um dos frutos de 30 anos de trabalho missionário também nestas paragens. Foi bonito por isso ver pelo caminho fora as pessoas nos campos. Sente-se a esperança no ar, a esperança de poder recolher algo dos campos. A alegria do dom das chuvas, dádiva de Ilat – o espírito das chuvas – um dom maior do Deus Töroröt, Deus Único em língua Pökot.
Voltamos às crianças da escola pré-primária. Quiseram presentear-nos com uma canção a Maria. Ao princípio estavam um pouco envergonhados. Raramente vêem o missionário e muito menos um branco. Lindo! Um ritmo e uma cadência no canto que deixariam algumas bandas rock envergonhadas!
Começamos a eucaristia. O meu colega celebra a missa em língua Pökot, mas tudo o resto é em língua swahili, depois traduzida para Pökot pelo catequista. Sim… é verdade! A língua kiswahili em vários lugares da nossa paróquia/missão não é suficiente. Especialmente as senhoras e os anciãos, que não foram à escola, falam apenas o Kipökot. Sim! Adivinharam… dentro de alguns meses tentarei também aprender o Kipökot… outra língua mais! Apenas e só que esta é bem mais difícil que o kiswahili. Veremos!
É normal que as pessoas aqui celebrem a missa com todo o à vontade e também com tudo aquilo que são: simples e puros, celebrando a louvando a Deus Töroröt com toda a alegria e simplicidade. As mães com o seus filhotes ao colo, muitas vezes até a serem amamentados, seguem as palavras do meu colega P. Hubert como alguém que deseja saber mais e mais sobre o amor de Deus por eles e por toda a humanidade. É confortante saber como, mesmo no meio de tanta simplicidade, há nestes corações dos Pököt uma ânsia de conhecer e saber mais sobre Deus, sobre Jesus, sobre a nossa vida voltada para Ele. Na Europa e no mundo assim dito “civilizado” Deus já passou de moda… já não precisamos dele (pelo menos assim pensam alguns!). Aqui, conhecer Deus e escutar como Ele nos ama mesmo nas mais degradantes situações, é um privilégio que muitos Pököt não têm acesso.
No regresso à missão, já a meio da tarde, pude também observar a apanha dos “kumbekumbe”, uma espécie de insectos que são um dos melhores petiscos cá destas terras no tempo das chuvas. Normalmente nascem e crescem dentro dos formigueiros. Há toda uma técnica especial para os apanhar. Secam-nos ou torram-nos e depois serve-se frio com uma pitada de mais nada. Assim mesmo. Crus. Tenho que experimentar um dia destes… pode ser que me saibam a saudosas moelas ou pataniscas!
Regressámos à missão sem outras complicações, graças a Deus. Pelas 4 e tal da tarde tomamos o nosso almoço quase como nos casamentos… mas olhai que aqui não houve casamento nem aperitivos em casa da noiva antes da cerimónia… Houve sim alegria! Pelas 6 da tarde a capela estava quase cheia na celebração da missa com os jovens da escola secundária para a missa que celebramos com eles todas as quintas-feiras. Uma alegria e jovialidade como poderão imaginar.
O dia não podia terminar sem outra situação do dia a dia da missão. Todos os dias o gerador da missão é ligado pelas 7 da noite até às 9 e pouco uma vez que aqui nesta missão ainda não temos electricidade pública. Temos cerca de 300 jovens da escola primária e secundária da missão nos internatos. É necessário por isso prover-lhes com alguma luz para o estudo nocturno também. Nesse dia o gerador não queria começar… levamos o carro para ligar a bateria pensando que poderia ser da bateria do mesmo gerador. Nada! Verificámos tudo e nada… bom tudo não… quase tudo! Afinal era um dos fusíveis que estava queimado. É que aqui não temos as páginas amarelas para ir procurar um técnico para nos resolver o problema… ou o resolvemos nós ou então ninguém o resolve… O “busca-busca” do problema não foi à luz da vela mas sim à luz das pilhas ou foxes como assim chamamos na minha terra. Só faltava a música psicadélica como nas discotecas…
No dia seguinte dirigimo-nos para a outra missão comboniana nesta região Pökot. Encontramo-nos com os outros missionários e missionárias para um dia de retiro. Escusado será dizer que o carro vai sempre cheio de pessoas. Há sempre gente a querer movimentar-se e a pedir boleia. Felizmente hoje em dia já há alguns transportes públicos mas algumas pessoas não podem sequer pagar a viagem assim que se dirigem aos missionários para pedir boleia. Levamos connosco um dos nossos catequistas, dois estudantes combonianos que farão a sua experiência missionária nessa missão, e mais algumas pessoas. São cerca de 120km em estrada de terra batida… às vezes, no tempo das chuvas, não tão batida quanto seria desejável, pois em vários momentos tivemos que sair fora da estrada-picada para fugir à lama e poças de água que nos poderiam deixar atascados. Felizmente conseguimos passar todos os possíveis problemas com maior ou menor facilidade. A um dado momento chovia que “Deus a dava”! Pobres pessoas que iam atrás na pick-up. Tivemos que parar para recolher-nos por uns momentos numa das cabanas perto da estrada. Chegámos até bem perto da missão. Mas havia um último obstáculo: atravessar o rio que levava alguma água no seu leito, suficiente para nos fazer esperar uma meia hora. Atravessámos o rio várias vezes a pé. É a primeira coisa que tem que ser feita ao queremos atravessar um rio. Tirar de novo as sandálias, arregaçar as calças até acima do joelho e meter-se rio dentro. Eu e o meu colega Hubert, assim que entrámos no rio a pé, logo concordámos que haveria que esperar para ver se o rio baixava…
Entretanto tivemos tempo de ainda pôr no devido lugar o pneu que tínhamos furado uns quilómetros antes… mas os furos aqui são “tão naturais como a sua sede” – como dizia a publicidade.
Por fim, achamos que poderíamos atravessar… já depois de mais de meia hora de espera. E lançamo-nos ao rio… sempre numa incerteza mas com a certeza suficiente de que poderemos atravessar sem muitas dificuldades. Pulo aqui e pulo acolá, lá conseguimos atravessar para alívio dos que vinham connosco, bem como nosso também.
No dia seguinte, o retiro foi oportuno para agradecer a Deus pela boa viagem que tivemos… por nos ter permitido chegar bem a Amakuriat, o nome da outra missão comboniana em terras Pökot. Aqui está mais uma comunidade missionária comboniana entre o povo Pököt: 3 sacerdotes e 4 irmãs missionárias combonianas.
Legendas fotos:
Foto 1: Crianças referidas no artigo da escola debaixo da árvore em Tandopos
Foto 2: Mães Pokot referidas no artigo na comunidade de Tandapos
Foto 3: Crianças Pokt durante a missa em Tandapos
Foto 4: Escola primária com 8 salas de aula em Lokornoi

Kacheliba, terra Pökot (Quénia) – Maio 2009

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