sábado, fevereiro 14

Fome no Quénia 2

Alice Wanjiru -
"Agora não temos carne e menos ugali*"
Há cerca de um mês, o presidente do Quénia, declarou como desastre nacional, a crise alimentar que o país está a enfrentar. Poucas chuvas, a violência pós-eleitoral do ano passado que não permitiu o cultivo dos campos, a corrupção política e ainda o preço elevado dos alimentos a nível mundial, são algumas das razões que levaram o país a esta situação. Foi pedida a ajuda internacional de países mais desenvolvidos para enfrentar esta situação.

O Programa Alimentar das Nações Unidas alimenta já 1.2 milhões de quenianos, especialmente em zonas mais áridas e dificeis. Esta crise está a aumentar o número de pessoas a passar fome no país para umas centenas de milhar acima dos acima mencionados. Estes novos "sedentos" encontram-se nas periferias pobres das cidades do país bem como nas áreas áridas do país.
Eis de seguida o testemunho de Alice Wanjiru, 44 anos, residente num dos maiores bairros de lata de Nairobi e em toda a África, Kibera. Ela sobrevive vendendo vegetais nas vielas do bairro.
"O preço da maioria dos produtos alimentares quase duplicou desde o ano passado; o meu marido, os meus três filhos e eu tivemos que fazer algumas mudanças no que comemos e nas quantidades de comida. Em vez de usarmos o pacote inteiro de 2Kg de unga (farinha de milho), agora usamos metade ou 3/4 para fazer ugali*. E agora nunca comemos carne."
"Até agora eu ainda não vi a unga subsidiada (pacote de 5Kg de farinha de milho ser vendida a cerca de 1,30€) que o governo dizia disponibilizar para os pobres; o facto é que as coisas têm piorado."

"O único meio de conseguir ganhar algum dinheiro é vender estes tomates e o meu marido é um jua kali (trabalha em todo o tipo de trabalhos numa base ocasional). Temos ainda 3 filhos que temos que alimentar e levar à escola. Até as escolas aumentaram as propinas este ano."

"Com o preço elevado dos alimentos, é muito dificil recuperar da perda das nossas coisas durante a violência (Janeiro a Março 2008) pós eleitoral; eu tinha 5 casas (barracas do bairro de lata); 4 tinha-as arrendadas e 1 delas costumava vender lá vegetais e cereais."

"Durante a violência, estas barracas foram primeiro roubadas e depois incendiadas; agora só vendo vegetais. Eu tenho mesmo um documento oficial a dizer que essas barracas eram minhas, mas eentretanto essas barracas foram reconstruídas e outras pessoas estão lá a fazer os seus negócios; o documento parece que não vale mesmo nada!"

"Agora estou preocupada em saber como vou poder conseguir o dinheiro para manter as crianças na escola. Peço ao governo para nos ajudar, especialmente aqueles que perdemos as nossas posses durante a violência pós-eleitoral; precisamos de ser compensados de forma a podermos voltar à posição (económica) que tinhamos antes da violência."

* farinha cozida - base alimentar do povo no Quénia.

Fonte: IRIN Africa News

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