segunda-feira, dezembro 15

Casar na missão entre os Pökot

Costumamos dizer que em África não há horas. Há momentos. Momentos para ser vividos na sua plenitude e com todo o significado. Hoje, no casamento de um dos nossos catequistas, pude comprovar isto mesmo mais uma vez.

O meu colega, P. António Dolzan – há 30 anos nesta paróquia! – marcou a hora de saída: 9.00h da manhã. “Mas olha que - dizia-me - demoramos a chegar a Chepkemei cerca de 1 hora. Porém, a missa do casamento só deve começar por volta do meio-dia! Estamos em África!!!”
Tinha razão. Saímos há hora marcada. Um céu limpo com um sol risonho. Bom sinal. Não chove. É que no caminho para esta capela tínhamos que passar por 4 rios sazonais. Não chovendo hakuna matata (não há problema). No tempo das chuvas é impossível chegar a estas capelas, afirmava o meu colega missionário há medida que pulávamos a cada buraco na estrada… perdão: na picada!
Pelo caminho fomos parando aqui e ali para dar boleia àqueles que se dirigiam até Chepkemei para a grande festa.
Chepkemei é uma das capelas da nossa missão que fica já em cima da fronteira com o Uganda. Não! Não pensem que há fronteiras como as que conhecemos em Portugal. Aqui é tudo mato. A um dado momento já nem se sabe bem de que lado estamos. “A divisão entre os dois países são estes montes que vemos ao nosso lado. Mais ou menos é por aqui a fronteira!” – prosseguia o meu colega, o P. Dolzan.
O catequista desta capela é um jovem já casado segundo a tradição Pokot. Provou já ser capaz de ser homem e de consumar o casamento. Dois filhos são a prova disso. Um dos quais vem ainda às costas da Christine, esposa do nosso catequista – Abraham. Estranho, direis. Então um catequista de uma capela já com filhos e ainda não casado pela Igreja?!?! É verdade. Aqui a vida da Igreja pinta-se com outras cores. Tem outras matizes que confundem as mentes cristãs demasiado habituadas à institucionalização da vida sacramental da Igreja nos países de longa tradição cristã. Hoje não há baptismos, uma vez que o casal é já baptizado desde há uns anos.
Por volta das 10 da manhã chegávamos ao local. Uma pequena capela, aliás como todas na paróquia. “Mas P. António! Vocês vêm bem cedo! Ainda estamos a começar a organizar tudo Padre!” dizia-nos um outro catequista convidado de uma capela próxima. “Não há problema – reafirmou o meu colega – nós esperamos o tempo que for necessário! Viemos cedo para poder celebrar também o sacramento da reconciliação com os noivos e os padrinhos. Também para aqueles que o desejarem.” De facto, tínhamos chegado bem cedo. A celebração da eucaristia apenas começaria por volta da 1.30 da tarde!
Os primeiros convidados começam a chegar. Pouco a pouco, foi decidido que a celebração seria não dentro da capela, mas cá fora, à sombra. Debaixo das árvores. Certamente haveria muita gente, mais do que os poucos cristãos existentes nesta capela. A capela seria demasiado pequena para todos. É que um casamento de alguém, é uma celebração social para toda a região. Entre muitos convidados, a maioria não são cristãos católicos. Até mesmo o pastor da Igreja protestante mais próxima marca presença. Mas a grande figura do dia seria o ex-deputado deste concelho, o Sr. Moroto. Convidado de honra…
Entretanto, fui passeando pelo local. Nesta localidade existe uma escola primária construída pela missão. Apenas 4 classes, com 4 salas de aula. Ou seja, aqui nesta escola os alunos podem frequentar metade dos anos da escola primária. Ainda que, segundo o actual governo do país, todos as crianças deveriam ter acesso à educação primária de forma gratuita. A logística da escola (arranjar professores, alimentação, pessoal para manter a escola em funcionamento) é da responsabilidade do Governo. Porém, muitas vezes, é a missão a ter que cuidar também destes particulares.
A um certo momento, vi a cozinha improvisada para a festa. Rodeada de ramos espinhosos (para que as vacas e as cabras não entrem – em terra pokot estes animais têm livre trânsito) lá estavam dezenas de canecas de chapa preparadas para o chá. Vi também a pele de uma cabra pendurada. Foi morta para a festa. Dia de festa quer também dizer dia de comida melhorada com direito a uns pedacinhos de carne. O ugali (farinha de milho cozida) e os três panelões de arroz cozido já estavam prontos, mesmo que o dito almoço, ou melhor dito, a boda, não começasse antes das 5 da tarde.
O tempo corria ao ritmo africano. Era já 1 e meia da tarde e deveríamos começar a eucaristia. Já estava presente um bom número de pessoas, na sua maioria pouco mais de 20 cristãos desta capela. Mas faltava ainda o convidado de honra. Faltavam ainda os familiares dos “noivos-casados” que não chegavam. Pediram-nos para esperar um pouco. Logo de seguida chega-nos a notícia que a camiãozito de caixa aberta fretado para os familiares dos noivos tinha ficado atascada ao passar nas areias de um dos rios sazonais. E o Sr. Moroto também devia chegar a qualquer momento. Mas… depois de esperar um pouco mais, mesmo sem a chegada dos acima mencionados, iniciámos a eucaristia do matrimónio. Não! Não há marcha nupcial. Não há vestido branco. De facto a noiva trazia vestido um vestido verde e um kitamba (pano colorido africano) às costas, embrulhando o filhote mais novo do casal. Curiosamente a madrinha do casamento trazia o vestido igual ao da noiva.
A eucaristia começou com toda a gente a cantar ao ritmo bem africano, onde nem os tambores nem as palmas podem faltar. Tudo normal como em qualquer eucaristia no mato: com muita alegria. Até porque a comunidade desta capela, tal como as restantes 45, só têm a celebração da eucaristia 2 a 3 vezes por ano.
Chegou o momento do ritual do casamento. O P. Dolzan fez questão de explicar a todos os presentes o que queria dizer um casamento católico, uma vez que para muita gente, este casal já estava casado. Claro, da forma tradicional, pois claro. Mas para quê então outro casamento? É aqui que começamos a identificar a razão porque esta gente aqui em Pokot, quando pede um sacramento, sabe bem o que pede: a bênção e a graça de Deus para a sua família. É essa a razão primária do casamento na Igreja. Até porque aqui não há vestidos brancos, nem pompas e circunstâncias. É um testemunho lindo. Logicamente que o rito tem também que ser adaptado. Ou já imaginaram o padre perguntar que querem realmente casar quando já estão mais que casados tradicionalmente. E que dizer de ser abençoados nos filhos… pois sim que são! O Abraham e a Christine já levavam dois na sua conta!
Foi curioso notar que o auge da celebração matrimonial é precisamente o momento em que há a entrega das alianças… que, apenas de passagem, são trazidas pelo missionário! Ficando grandes ou pequenas pois são aquelas as alianças que são partilhadas com toda a alegria. E bom… escusado será dizer que nem de bronze são! São um sinal tão simplesmente um sinal da bênção recebida. E com que cuidado os casais usam as suas alianças. São o sinal visível que os recorda a bênção de Deus Töroröt.
Estávamos a meio da eucaristia, depois do rito matrimonial e antes do ofertório, quando se ouve ao longe um carro. Coisa rara nestas paragens! Chegava o ex-deputado Moroto! Cantava-se o cântico do Credo. Pois metade dos participantes continuaram a cantar o Credo. A outra metade foi em direcção ao carro, cantando e dançando, acolhendo o seu ex-líder à boa maneira africana. Como em África muita coisa se improvisa, o meu colega interrompeu a missa para que se pudesse acolher bem este VIP. Não que fosse o mais apropriado, mas… a tradição e a boa educação africana a isso o obriga pois claro!
Depois de tudo no seu lugar lá continuamos a missa que terminou já perto das 3 da tarde. E para quem pensa que já eram horas de ir ao tacho pois está bem enganado! Aqui os noivos não vão tirar fotografias dando uma seca aos convidados. Aqui, depois da eucaristia, é o tempo dos discursos por parte dos convidados importantes. Mais de uma hora de discursos e felicitações ao casal. Também nós os padres tivemos que dar uma palavrinha. E se não a damos as pessoas ficam aborrecidas.
Mas ainda não era tempo para a boda. Segue-se a entrega dos presentes feita em público. Um saquinho em cima da mesa com o casal e os padrinhos ali sentados a receber os presentes que as pessoas, na sua pobreza e humildade, trazem para o “novo” casal.
Por fim, já quase 5 horas da tarde, chegam os familiares dos “noivos”. Tinham conseguido finalmente desenterrar o camiãozito e lá chegaram mesmo a tempo de partilhar a comida preparada para os convidados: farinha de milho cozida (o famoso ugali), arroz cozido e carne de cabra cozida. Para beber um chazinho bem quentinho e a ferver. Um pitéu para os dias de festa!
E era hora de regressar. O meu colega tem já dificuldade em ver bem durante a noite e além do mais tínhamos ainda uns bons kilometros e uns 4 rios para atravessar. Ainda que secos nesta altura do ano, atravessar o leito destes rios é sempre uma aventura. Nada feito sem a tracção às 4 rodas. Porque trazíamos algumas pessoas da festa connosco de regresso ao centro que é Kacheliba, ainda tivemos que descarregar o carro por duas vezes para não ficar atascados na areia dos rios. O normal nas viagens por estas paragens.
Um dia diferente. Mais um. Como o são todos por estas terras quenianas.


Relatos da missão de Kacheliba – North Pökot – Quénia
14 de Dezembro 2008

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1 Comments:

At 16 dezembro, 2008 19:32, Blogger Willoughby said...

Como será maravilhoso lidar com outras civilizações e adaptarem-se às tradições dos Povos.
Boa Estadia...
Feliz Natal e que o Ano de 2009 traga tudo de bom para a Vossa Missão, no apoio às populações desse País...

 

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