Quinta-feira, Outubro 13

Car@s Amig@s:

Um abraço desde terras Pökot, Kacheliba – Quénia, Africa!

Partilho convosco uma actividade levada a cabo pelo grupo de Jovens Utrilho. Se puderes participa! Se não puderes, partilha com os teus contactos! Se não puderes partilhar com os teus contactos... REZA por esta realidade!

Um abraço amigo!

Por favor lê o texto que vai abaixo. LÊ – MEDITA – DECIDE – ACTUA!

“O Grupo de Jovens U’Trilho de Nogueira do Cravo, concelho de Oliveira de Azeméis, decidiu colocar em acção a palavra Missão. Está a lançar um projecto intitulado “Um Sonho de Menina” que está directamente relacionado com o trabalho missionário do Pe. Filipe Resende – Missionário Comboniano no Quénia.

PROGRAMA:

Dia 14 de Outubro, sexta-feira – 21:00h – Concerto Solidário – Local: Casa do Cruzeiro de Cesar – “Banda Missio” e “Jovens in Missio”

Dia 15 de Outubro, sábado – 21:00h – Colóquio “Um Sonho de Menina” com a participação especial da Jornalista da TVI Conceição Queiroz – Local: Salão Paroquial de Nogueira do Cravo

Dia 16 de Outubro, domingo – 15:30h – Filme “Flor do Deserto” – Local: Salão Nobre da Junta de Freguesia de Nogueira do Cravo

Dia 14, 15 e 16 de Outubro – Exposição Permanente de Quadros Relacionados com a problemática e a construção da Escola – Local: Salão Nobre da Junta de Freguesia de Nogueira do Cravo

Após tomarmos conhecimento da grave problemática que atinge vários pontos do mundo, inclusive o local de missão do nosso conterrâneo, não pudemos ficar impunes a esta atroz prática cultural/religiosa que é praticada essencialmente por pessoas de culturas africanas, a Mutilação Genital Feminina.

Dado este facto, abraçamos esta causa, mostrando o projecto da construção de uma Escola Secundária Feminina “Holy Trinity Girls Secondary School”. Esta escola surge com o intuito de educar e formar as raparigas de Kacheliba (Pökot Norte – Quénia), para que percebam todas as consequências que advêm desta prática.

Visto isto convidamo-vos a participar no nosso projecto, para que possam perceber esta realidade, e se sinta como parte integrante de uma comunidade activa no combate à mesma. Refira-se ao programa acima apresentado.

Por último, alimenta-se a esperança que a sensação de desconforto que este projecto transmite a cada um de nós se possa metamorfosear em capacidade de pressionar a mudança. Capacidade tão mais desejável quanto maior for o exercício da nossa liberdade e cidadania.

A vossa colaboração na divulgação deste projecto é essencial para o sucesso do mesmo. Assim, agradecemos que, numa primeira fase, divulguem o projecto e, posteriormente, se for do vosso interesse façam uma cobertura do mesmo.

Sem mais de momento, e esperando que amavelmente compareçam e nos apoiem, apresentamos os nossos melhores cumprimentos.

GRUPO DE JOVENS U’TRILHO

Domingo, Abril 24

Acreditar na Ressurreição pode ser muito simples!

O tempo de Quaresma, e sobretudo a preparação próxima à Páscoa na missão, é sempre cheia de actividades. Numa dessas actividades as lágrimas vieram-me aos olhos. Ao passar o filme sobre a vida de Jesus aos catecúmenos, fui surpreendido por uma expressão de regozijo dos catecúmenos ao verem Jesus Ressuscitado. Expressaram-se com um bater de palmas espontâneo e comovente ao ver Jesus ressuscitado
aparecer aos discípulos depois da sua paixão e morte. Afinal, sem muitas explicações e sem muitas teorias biblicas e teológicas, estes catecúmenos fizeram-me ver que pode ser realmente muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus...

P. Filipe com estudantes catecúmenos

Finalmente... o dia do meu baptismo

Ao aproximar-se o Domingo da Ressurreição de Jesus, são muitas as actividades na missão de Kacheliba. Uma das actividades é o curso de formação final para os catecúmenos. Realizou-se na semana passada em 3 locais da nossa (extensa!) paróquia. Aqui no centro da missão cerca de 80 adolescentes e jovens receberam as últimas instruções preparatórias para o Baptismo. Ao todo, em toda a paróquia, são mais de 170 adolescentes, jovens e adultos que serão baptizados neste tempo Pascal. Estes catecúmenos finalizaram um programa de catequeses de 2 anos e vêem agora o dia do seu baptismo chegar. É grande a alegria estampada no rosto de muitos destes catecúmenos... percebe-se que receber o Baptismo significa algo importante para as suas vidas.

Algumas das adolescentes catecúmenas

Junto dos que ainda não O conhecem

O meu tríduo Pascal este ano foi realizado numa das nossas capelas mais antigas da Missão chamada Kodich. Fica a uns 30km norte do centro Kacheliba. Ali tínhamos um grupo de 48 catecúmenos no curso final de preparação para o Baptismo. Desde 4ª feira até sábado receberam as últimas catequeses. Na 5ª feira santa presidi à Última Ceia do Senhor e 4 adolescentes receberam a comunhão pela primeira vez. Tinham sido baptizados quando eram bebés. Obviamente que antes da celebração receberam o sacramento da Reconciliação (pobremente apenas conhecido como “confissão” por muitos!). Um deles, um jovem já crescido, não comunicava sequer em swahili. Só mesmo a língua local Pökot. Já imaginam... eu já “pesco” umas coisas da língua local, mas escutar a sua confissão foi de facto um acto de fé da minha parte! Aliás, não é a primeira vez que isso me acontece.

Depois da celebração passamos o filme sobre a vida de Jesus ao ar livre. São muitas as pessoas, cristãos e não cristãos, que comparecem. Claro que a electricidade essa só mesmo com o gerador. Mas... (in)felizmente passada cerca de 1 hora chegou uma surpresa: a chuva! Chuva aqui é sempre uma benção até porque este ano ainda não tinha chovido. Porém... toda a aldeia em peso teve que “fugir”. E a chuva, sempre tão abençoada nestas paragens, acabou por estragar a “festa”. Mas havia mais no dia seguinte...

Estudantes da escola primária para raparigas de Kacheliba

Na sexta feira santa a celebração da adoração da Cruz começou às 3 da tarde. Pelo meio a Via Sacra que foi percorrida nas ruas da aldeia. E que forma mais eficaz de anunciar a Morte e Ressurreição de Jesus. No regreso à capela eramos já quatro vezes mais pessoas na capela! Seguiu-se o filme da paixão de Cristo. Desta vez fomos acolhidos no salão da escola primária recentemente construído. Veio de novo a chuva mas desta vez estavamos bem acolhidos. Vários cristãos me disseram que nessa noite não ficou ninguém em casa em toda a aldeia. Não os contei mas deveriam ser seguramente mais de 300 pessoas!

O sábado Santo foi o culminar das celebrações... sempre muito adaptadas à realidade local pois claro! 15 baptismos: 10 adolescentes e 5 mulheres adultas. Confesso que a alegria, a concentração e a profundidade de alguns destes neófitos deixaram no meu coração um sentimento de que Deus toca de verdade a vida destas pessoas. Mas nem as quase 5 horas de celebração cansaram esta gente. O filme desta vez foi sobre S. Pedro e os primeiros cristãos após a ressurreição de Jesus. Foi pena que quase a acabar o filme o meu gerador ficou sem “zagolina”! Nada a fazer... ainda assim já cheguei a casa quase às 3 da manhã – contente por Deus me dar a oportunidade de ser sua testemunha da Ressurreição junto deste povo.

P. Filipe de visita a uma escola debaixo da árvore numa das nossas capelas

Liturgias mais ou menos litúrgicas

Devo confessar que as liturgías entre este povo que apenas começa a conhecer Jesus, são tudo menos “ao pé da letra e da rúbrica”! O silêncio, parte tão fundamental da litúrgia para a assimilação do que se celebra é algo que aqui fica um pouco de lado. Para o Pökot tudo o que se relaciona com Töroröt (Deus para este povo) significa entrar na esfera da celebração. Não quer isto dizer que as celebrações deixam de ser menos vividas, menos sentidas. São apenas e essencialmente diferentes. São o espaço de expressão alegre do que acreditam desde há séculos. São sentimentos tradicionais depois trazidos para a liturgia cristã. Com mais ou menos silêncio, com mais ou menos incenso, com mais ou menos ordem e regras litúrgicas, a Ressurreição de Jesus entrou já na vida e no coração de vários cristãos Pökot. É a força da Vida, da Boa Nova da Ressurreição que renova e faz novas todas as coisas em Cristo.

Um dos nossos catequistas anciãos com a sua esposa na sua "boma" (lar)

Desejo-vos a todos uma Santa Páscoa, cheia de significado e profundidade para a luta de cada dia da vossa vida. É lá que o valor da Vida e Ressurreição de Jesus fazem sentido! É lá que Ele quer ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Afinal de contas... até porque parece que é de facto muito simples acreditar na Ressurreição de Jesus! SANTA E FELIZ PÁSCOA!

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Sexta-feira, Dezembro 24

Pureza de Natal


"Obrigado, P. Filipe! Este bocadinho de açucar e arroz vai dar-nos um Natal bonito lá em casa!"
Esta foi a resposta dada por algumas das pessoas que trabalham connosco na Missão. Agradeciam o tradicional "zawadi ya Krismasi" (lembrança de Natal) que costumamos oferecer-lhes.
Que alegria mais pura! Que pureza do verdadeiro sentido de Natal: o pouco, o simples, o humilde que traz uma enorme alegria e faz sorrir quem assim recebe.

Mais uma vez, uma lição grande para mim. Estas palavras e atitudes fazem-me voltar às origens. Fazem-me pensar naquele Menino Salvador que muito poucos reconheceram. Pobre - sem ter onde nascer em condições apropriadas; simples - sem grandes anúncios, sem grandes festas; só os pastores, a "escumalha" do povo de Israel, conseguiu olhar mais profundo e perceber que naquele Menino simples, pobre e humilde, nascia a Alegria maior que o mundo jamais acolheu!

São os gestos desta gente simples, pura e humilde que hoje me ensinaram a olhar mais profundo no que realmente significa celebrar a verdadeira alegria do Natal. Sem mesas recheadas de doces e requintadas refeições, sem luzinhas na árvore de Natal, sem os múltiplos anúncios natalícios que encharcam os nossos ouvidos e olhos, sem o corre-corre das prendas e lembranças...
Se me perguntam se sem tudo isso pode haver Natal... pois eu digo que sim! Precisamente porque este sentido do Natal, simples mas cheio de alegria, é aquele que me enche a vida e o coração.

Fica aqui a partilha de um texto que foi publicado na Agência Ecclesia há 2 dias em que descrevo como vivo o Natal em Pokot. Clique aqui.

A Todos um Santo e Feliz Natal, cheio da Alegria simples, pobre e humilde que é aquela que traz verdadeiro sentido à nossa vida!
Que Deus vos abençoe com um ano de 2010 cheio da Sua Paz.


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Segunda-feira, Novembro 29

A missão de Kacheliba

Amigos, finalmente, depois de 2 anos na missão de Kacheliba, aqui fica um pequeno documentário sobre a Missão de Kacheliba onde trabalho desde 2008. Este documentário já foi realizado há bastante tempo mas só agora me foi possível disponibiliza-lo online. Espero que disfrutem e que gostem e sobretudo os ajude a viver a Missão de uma forma mais próxima, mais empenhada e dedicada. Eu sei que rezam por nós! Mungu awabariki wote! (Deus vos abençõe a todos)

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Mensagem à minha paróquia

Regressando ao Quénia, enviei esta pequena mensagem à minha paróquia de Nogueira do Cravo. Linda a coincidência de regressar à Missão no Quénia na ocasião do Dia Mundial das Missões 2010. Tudo de bom a todos e uma vez mais muito obrigado! Deus vos abençõe a todos!

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Sexta-feira, Outubro 22

Retornar Revivendo a Missão

É verdade! É verdade! Foi muito tempo sem dar notícias por estas bandas... eu bem o sei! E, porque não me queda de outra, não posso mais fazer do que pedir desculpa a todos aqueles que têm visitado este cantinho do Amor de Deus na minha vida sem encontrar novidades. E não é que não as hajam... muito pelo contrário!

Momentos importantes na vida familiar
Muitos já saberão... estive em Portugal de férias desde meados de Agosto até meados de Outubro. Razão: o matrimónio do meu irmão Nuno com a minha cunhada Sofia. Momentos em que o amor de Deus se faz mais visível através do amor humano.
E logo na chegada fiquei surpreendido pelo carinho e amor que os paroquianos de Nogueira do Cravo quiseram expressar comigo. Confesso que não estava nada à espera. Fiquei desengonçado... desajeitado... fora de onda! Ainda mais quando estava a chegar de cerca de 15 horas de viagem... mas é assim que Deus mostra o seu amor e carinho por nós. Foi tudo muito inesperado para mim. Mas é assim que Deus, de vez em quando, nos faz umas carícias.

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Momento da chegada à paróquia

Tempo de muita comunhão e sentido de missão
Durante estes dois ultimos meses foram muitos os testemunhos de pessoas que me falavam de um carinho e compromisso muito grande à missão. Não a mim... não! À missão pois ela é a que fala mais alto.
Foram também dois meses de intensos e renovadores encontros. Desde logo a celebração do matrimónio entre o meu irmão e a minha cunhada. Foi um dos momentos mais bonitos e profundos que jamais senti na minha vida sacerdotal e missionária: ser instrumento de Deus para que Ele, e não eu, mas Ele, abençoasse aquele amor que d'Ele nasceu no coração destes dois seus amigos, que no fundo são sangue do meu sangue!
Celebrações de baptismos que tinham até sido já marcados antes dos meninos nascerem...
Visitas a e de amigos que o tempo não apaga...
Encontros missionários mais programados ou nem tanto assim... Festa Missionária na Maia, encontro Jamborii dos Escuteiros de Nogueira do Cravo... enfim... um sem número de momentos de partilha missionária.
Mas apesar de tudo, sentir e presentir que esse Deus de Amor Incondicional continua a actuar na vida de tantos amigos e amigas, familiares, juventude... são tantos esses sinais! Obrigado a todos e em especial a um grupo muito bonito que sempre vive a missão com o coração - UTrilho!!!! Sois de facto espectaculares!

O regresso de coração cheio e também preocupado
Não foi fácil regressar aqui onde Deus me chama... por um lado a alegria de voltar para o meio daqueles que são os que Deus escolheu para eu crescer na fé junto deles; por outro lado várias situações de doenças e complicações da vida de alguns familiares e amigos... Situações que continuam no meu coração e nas minhas orações. Mas a vida é assim mesmo... e também a missionária não foge à regra! Muitos foram aqueles que não pude visitar como desejaria, como seria bom... mas ainda assim sei que nunca nós missionários estamos sós! Somos apenas e tão simplesmente servos inúteis (mesmo que felizes!) d'Aquele que nos envia.

A todos o meu bem-haja! Não há palavras para poder expressar tanto carinho, tanta proximidade, tanto amor para comigo e para com a missão. Agora é regressar ao dia a dia da Missão sempre com os seus grandes desafios, as também com todas as bençãos de Deus... essas bila shaka (swahili para "de certeza") nunca faltarão!

Um bom domingo do Dia Mundial das Missões 2010... Até breve já por terras Pokot!

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Segunda-feira, Junho 14

Mundial ao Contrário

Este apelo foi traduzido do sítio das Missionárias Combonianas Combonifem. É um apelo enviado à embaixadora da Africa do Sul na Itália, tendo como primeiro assinante o P. Alex Zanotelli, missionário comboniano, a favor dos pobres na África do Sul e dos movimentos que procuram defender os seus direitos. A campanha pretende recolher o máximo de assinaturas até ao dia 20 de Junho.Este apelo foi traduzido do sítio das Missionárias Combonianas Combonifem. É um apelo enviado à embaixadora da Africa do Sul na Itália, tendo como primeiro assinante o P. Alex Zanotelli, missionário comboniano, a favor dos pobres na África do Sul e dos movimentos que procuram defender os seus direitos. A campanha pretende recolher o máximo de assinaturas até ao dia 20 de Junho.

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Sábado, Junho 12

Um Casamento Tradicional Pökot

A 24 de Abril, sábado, participei na segunda parte do casamento tradicional de um casal jovem de uma das nossas capelas. Digo a segunda parte pois a primeira tinha sido já realizada umas semanas atrás onde os pais do noivo e o noivo vão até à boma (a casa – conjunto de cabanas ou lar Pökot) dos pais da noiva onde todos se sentam e negoceiam qual o dote a pagar pela filha. Essa é a primeira parte do casamento tradicional pökot.
A caminho da casa da noiva com o dote (gado)

No sábado todos nos reunimos em casa dos pais do noivo e este é o dia em que o noivo vai “buscar” a noiva e a traz para casa para começarem a viver juntos. Todos os amigos e vizinhos se agruparam em casa dos pais do noivo onde as vacas estavam a ser reunidas para serem levadas para o dote da noiva. Contei 13 touros (mansinhos não como os das touradas!). Três deles eram ainda bezerros. Esse foi um dos problemas que mais tarde os pais da noiva tiveram que resolver com o noivo. Partimos todos juntos e, como sempre claro, com muitos cantos de alegria e de contentamento. A casa da noiva não era muito longe… uns 5km! O grande grupo de pessoas eram sobretudo mulheres que tornam a festa bem alegre e bem contagiante com os seus cantos. Ao chegar à boma da noiva a entrada está bloqueada com cordas e atilhos tradicionais.

O noivo a caminho - Julius

Ninguém pode entrar. Sempre através de cantos, os que estão dentro perguntam o que é que ali viemos fazer. Os animais estão ali todos diante da porta da cerca da boma à espera que as negociações funcionem. Os que estamos do lado de fora vamos respondendo: “Viemos buscar a noiva para o nosso noivo!” – respondemos também através de cânticos. De dentro respondem que ela não está em casa, que foi de viagem…

Todos à porta da cancela... fechada!

Claro que se têm que seguir alguns pedidos dos amigos que acompanham o noivo… também dei o meu contributo com 50 xelins (cerca de meio euro!) Depois de pedidos e mais uns trocos acabam por abrir a cerca e os animais entram para o cural e todos explodem de alegria. Porém, noiva ainda nem vê-la. Está escondida numa das cabanas. Os familiares vão ver os animais que foram trazidos pelo noivo e confirmam se tudo está como acordado no dia do primeiro encontro. Parece que haviam alguns problemas…
A "boma" dos pais da noiva

O pai do noivo é chamado para dentro de uma das cabanas para se encontrar com o pai e os tios da noiva. O noivo está com os seus amigos fora da cabana à espera do resultado das negociações entre os anciãos e pais dos noivos. Entretanto os membros da família da noiva distribuem o chá do costume a todos. O pai do noivo saiu e explicou que o número de animais trazidos não corresponde ao acordado. Parece ser que tinham acordado que seriam 19 touros. O noivo trouxe apenas 13 e 3 deles são ainda bezerros! Foi então agora chamar o noivo para que ele diga o que pretende fazer. Por tradição nenhum noivo traz os animais todos neste dia. Ficam sempre alguns por pagar para mais tarde… Assim que o Júlio teve que pôr-se de acordo quando trazer os restantes. Parece que finalmente se chegou a acordo. Entretanto, durante todo o tempo de negociações a noiva nem vê-la ainda, apesar de o ambiente na boma ser de festa completa. As mulheres nunca se cansam de cantar, dançar e pular…

Uma forma engraçada de "servir" as canecas!

Todos a aguardar resultados das "negociações"
Entretanto as mulheres vão à água... ao rio mais próximo

Chegados ao ponto de acordo é então servida a refeição… aqui não há nem 1º nem 2º prato… há um só apenas! Alguns pratos têm mesmo que ser partilhados! Olhei para a comida e logo vi que era comida de festa: arroz e um pouco de feijão… É a comida dos “banquetes.” Entretanto a chuva também fez das suas… e a meio do pratinho de arroz e feijão foi necessário correr para debaixo das goteiras das cabanas para nos protegermos da chuva.

À "mesa" do casamento com o noivo

Sim! Aqui também acreditam que o dia do casamento com chuva é dia de casamento abençoado. Depois de um bom bocado até que terminámos o arrozito com os feijões parou de chover. Eis que finalmente a noiva saiu da sua “toca” (cabana!) acompanhada por 8 adolescentes a cantar e em procissão… E… eis que agora sim! A festa iria começar…

Aspecto da procissão nupcial

Como bons africanos a dita “procissão” devia deslocar-se por uns 30 metros entre a cabana “esconderijo” e a cabana onde as negociações tomaram lugar. Normalmente não toma 2 minutos a percorrer esse espaço. Mas neste dia, passo à frente e passo atrás (de dança!) foram uns bons 20 minutos! Por fim a noiva lá entrou na cabana. Mas o encontro com o noivo não tinha chegado ainda. As raparigas, “damas de honor”, continuaram a dançar cá fora. Cada uma é chamada para ir buscar um dos “amigos do noivo” para que venham diante das moças a cantar e dançar. Ali há um diálogo de cantos procurando dizer se estes “amigos e amigas dos noivos” são por acaso os noivos! É claro que antes que todos acabem de perfilar e serem “julgados” diante das cantoras e dançarinas passa mais meia hora!



Até que por fim é chamada a noiva (sempre através de cânticos) para que vá buscar o seu noivo e o apresente a todos os convidados para a aprovação final. Somente aqui a noiva sai e vai buscar o noivo que está ao lado da cabana mas do lado de fora. É então o auge da alegria para todos os convidados ali presentes. Os cânticos, mais uma vez, a narrarem a história dos noivos pois claro! Bom… e de ali para o local onde se seguirão os discursos.


Por fim... juntos!

Aqui todos os convidados vão também oferecer os seus presentes. Mais uns 10 minutos de “procissão” a cantar e dançar (mesmo com a chuva a encharcar). Tocou-me a mim e ao catequista que estava comigo abrir as hostes com uma oração e umas palavrinhas. Foi um momento muito bonito e também de evangelização. Isto porque lemos um texto de S. Paulo sobre a vida em casal. Pois claro que se seguiram umas palavrinhas explicativas.


Seguiram-se depois muitos outros discursos e também orações. E digo orações porque estariam ali além de nós outras 5 ou 6 igrejas diferentes com o seu pastor. O noivo é católico, mas a noiva é luterana e os pais dela de uma outra igreja protestante africana aqui da área. Assim que é uma “fartança” tutti-frutti de igrejas pois claro!
Chegou o momento de a mãe da noiva e as irmãs vestirem e darem os seus presentes à mãe do noivo e às suas irmãs. Aqui entendemos irmãs também as cunhadas, as tias e as sobrinhas… é o conceito africano de família alargada. À mãe do noivo uma saia e t-shit novas. Às outras um destes típicos panos africanos que as mulheres usam à volta da cintura e que serve também de saia. As famosas capulanas. São entregues uma por uma, com cada uma a fazer uma festa enorme correndo à volta dos noivos com muita alegria. Pensava eu com os meus botões: que alegria tão grande manifestada por somente lhe terem dado um pano novo! Quanta alegria! E a quantos, noutras partes do mundo, lhes são dadas coisas bem mais valiosas e nem festa se faz, nem um obrigado!!!
Chegou o momento dos convidados oferecerem os seus presentes. Os convidados: os católicos, os protestantes, os jovens de cada uma das igrejas, os vizinhos, os familiares… Os presentes: algumas cabras, ovelhas, canecas de alumínio (usadas para o chá!), roupas, pratos, travessas, termos (onde costumam guardar o chá ainda a ferver) e também dinheiro… O dinheiro é curiosamente posto dentro de uma bacia que está coberta com um pano para que ninguém saiba o que cada um vai dando! Porém ninguém dá mais do que o equivalente a 3 ou 4 euros… uma fortuna para alguns. O salário de um dia de 2,5 euros aqui nesta zona é já um bom salário diário.
Bom… mas a festa ainda não tinha acabado. Teria agora que o noivo tomar a noiva oficialmente da boma dos seus pais e levá-la para a sua casa. Mais um momento de júbilo, claro. Regressamos então para a boma do noivo onde a festa continuou até ao dia seguinte, domingo. O meu colega Hubert foi celebrar a missa numa capela perto e no regresso teve que entrar para a festa também. A mim já se fazia tarde e a chuva tinha feito das suas. Porém, não pude abandonar sem de novo ter comido mais um prato de arroz e feijão… a comida por excelência das festas. Nada de bolos, açucares, pudins flã nem nada do que se lhe pareça!
Como já era quase noite tinha que regressar. Tinha medo que não iria poder atravessar o rio grande que ficava no caminho de regresso. E “meu pensado” (não dito!) meu feito! Como tinha chovido muito era impossível passar com o carro.

Um outro dia cruzando o rio a pé até ao carro

Foi necessário ir procurar uma outra boma para deixar o carro até ao dia seguinte. Atravessámos o rio a pé onde já nos esperava o meu colega Hubert do outro lado do rio com o outro carro. No dia seguinte levei o meu colega a esse mesmo rio, atravessou-o a pé, tomou o carro, foi celebrar a uma capela perto dali e, no final da tarde, já o meu colega pôde regressar e atravessar com o carro pois já não havia água no rio.
E é assim a vida que todos os dias vamos encontrando e agradecendo a Deus. Aventuras que depois de 2 ou 3 vezes já o deixam de ser e passam a ser mais bem “trabalhos” pesaditos depois de um dia de visita às comunidades!

Escrito em 30 Abril 2010


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Pastoral em Tempo Pascal

O tempo pascal é, como sempre e como todos os outros tempos, de muito trabalho. Estamos particularmente envolvidos nos baptismos dos adolescentes que receberam as catequeses durante 2 anos e terminaram a formação na Páscoa passada (2010). Este ano mudámos um pouco a tradição e em vez de baptizarmos a todos aqui no centro da paróquia na vigília pascal, decidimos ir visitar as capelas onde vivem com as suas famílias e baptizar lá junto com os cristãos originários dessas mesmas comunidades.
Visita a uma das comunidades

Por vezes isto é mesmo um grande desafio: algumas vezes os padrinhos têm que ser os mesmos para quase todos… como por exemplo, amanhã (30 de Abril) vou a uma das nossas capelas que é mais distante… não tanto em distancia mas sim em tempo para lá chegar: 1h 15m. Isto porque as estradas, ou se quisermos as picadas, não são nada famosas. Estamos em plena época das chuvas e cada vez que saímos é uma aventura! Aqui em Kacheliba o rio voltou a fazer das suas e transbordou e a água chegou mesmo a passar sobre a ponte… no caminho destruiu parte da estrada e ainda algumas casas de pessoas ali do centro, algumas tinham as suas lojazitas de vender algumas coisitas… muitos dos produtos foram por água abaixo.


Na "boma" duma comunidade

Ainda ontem tive um pouco de problemas em passar um dos leitos de um rio no caminho para uma capela. É que o rio quando passa deixa as margens como paredes… ontem foi preciso ir pedir uma enxada para aplanar as margens do leito do rio de modo que pudesse passar. Depois de umas tentativas a coisa lá foi.
Um outro problema que dizia acima é que em algumas capelas os cristãos baptizados são bem poucos. Como a que vou amanhã… estamos mesmo nos começos e por isso os padrinhos acabem por ter de ser sempre os mesmos para quase todos os baptizados. Mas creio que são momentos importantes e lindos para as pessoas.


Nestes dias tivemos 3 encontros simultâneos de catecúmenos. Ao todo os adolescentes são quase 200. Como é tempo de férias (ainda depois do 1º trimestre), podemos fazer os encontros de catecúmenos e formação usando as instalações das escolas. Começámos no domingo à tarde e terminou esta manhã. Este trabalho não o podemos fazer sem os catequistas. Assim um grupo (de cerca de 85) reuniu-se aqui em Kacheliba. Outro numa das capelas a sul – Serewo – a 25km daqui e onde fui todos os dias para celebrar a missa à tarde e à noite passar um filme sobre a bíblia que acompanha as catequeses. Ali estavam cerca de 45. Uma outra capela a norte da paróquia – Kodich – também com uns 55, com o mesmo sistema e onde foi o meu colega Hubert. Já regressávamos sempre depois das 11 da noite! Mas graças a Deus correu bem ao que parece e é sempre uma alegria poder assim ver a vida que floresce nestes cristãos do amanhã.


Depois de amanhã começamos o encontro de fim de semana com os jovens da paróquia. São sempre mais de 100! E terminaremos no domingo. Logo de seguida mais uma semana de formação e encontro com os catequistas aqui na paróquia.

Escrito em 28 de Abril 2010

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