sábado, junho 12

Um Casamento Tradicional Pökot

A 24 de Abril, sábado, participei na segunda parte do casamento tradicional de um casal jovem de uma das nossas capelas. Digo a segunda parte pois a primeira tinha sido já realizada umas semanas atrás onde os pais do noivo e o noivo vão até à boma (a casa – conjunto de cabanas ou lar Pökot) dos pais da noiva onde todos se sentam e negoceiam qual o dote a pagar pela filha. Essa é a primeira parte do casamento tradicional pökot.
A caminho da casa da noiva com o dote (gado)

No sábado todos nos reunimos em casa dos pais do noivo e este é o dia em que o noivo vai “buscar” a noiva e a traz para casa para começarem a viver juntos. Todos os amigos e vizinhos se agruparam em casa dos pais do noivo onde as vacas estavam a ser reunidas para serem levadas para o dote da noiva. Contei 13 touros (mansinhos não como os das touradas!). Três deles eram ainda bezerros. Esse foi um dos problemas que mais tarde os pais da noiva tiveram que resolver com o noivo. Partimos todos juntos e, como sempre claro, com muitos cantos de alegria e de contentamento. A casa da noiva não era muito longe… uns 5km! O grande grupo de pessoas eram sobretudo mulheres que tornam a festa bem alegre e bem contagiante com os seus cantos. Ao chegar à boma da noiva a entrada está bloqueada com cordas e atilhos tradicionais.

O noivo a caminho - Julius

Ninguém pode entrar. Sempre através de cantos, os que estão dentro perguntam o que é que ali viemos fazer. Os animais estão ali todos diante da porta da cerca da boma à espera que as negociações funcionem. Os que estamos do lado de fora vamos respondendo: “Viemos buscar a noiva para o nosso noivo!” – respondemos também através de cânticos. De dentro respondem que ela não está em casa, que foi de viagem…

Todos à porta da cancela... fechada!

Claro que se têm que seguir alguns pedidos dos amigos que acompanham o noivo… também dei o meu contributo com 50 xelins (cerca de meio euro!) Depois de pedidos e mais uns trocos acabam por abrir a cerca e os animais entram para o cural e todos explodem de alegria. Porém, noiva ainda nem vê-la. Está escondida numa das cabanas. Os familiares vão ver os animais que foram trazidos pelo noivo e confirmam se tudo está como acordado no dia do primeiro encontro. Parece que haviam alguns problemas…
A "boma" dos pais da noiva

O pai do noivo é chamado para dentro de uma das cabanas para se encontrar com o pai e os tios da noiva. O noivo está com os seus amigos fora da cabana à espera do resultado das negociações entre os anciãos e pais dos noivos. Entretanto os membros da família da noiva distribuem o chá do costume a todos. O pai do noivo saiu e explicou que o número de animais trazidos não corresponde ao acordado. Parece ser que tinham acordado que seriam 19 touros. O noivo trouxe apenas 13 e 3 deles são ainda bezerros! Foi então agora chamar o noivo para que ele diga o que pretende fazer. Por tradição nenhum noivo traz os animais todos neste dia. Ficam sempre alguns por pagar para mais tarde… Assim que o Júlio teve que pôr-se de acordo quando trazer os restantes. Parece que finalmente se chegou a acordo. Entretanto, durante todo o tempo de negociações a noiva nem vê-la ainda, apesar de o ambiente na boma ser de festa completa. As mulheres nunca se cansam de cantar, dançar e pular…

Uma forma engraçada de "servir" as canecas!

Todos a aguardar resultados das "negociações"
Entretanto as mulheres vão à água... ao rio mais próximo

Chegados ao ponto de acordo é então servida a refeição… aqui não há nem 1º nem 2º prato… há um só apenas! Alguns pratos têm mesmo que ser partilhados! Olhei para a comida e logo vi que era comida de festa: arroz e um pouco de feijão… É a comida dos “banquetes.” Entretanto a chuva também fez das suas… e a meio do pratinho de arroz e feijão foi necessário correr para debaixo das goteiras das cabanas para nos protegermos da chuva.

À "mesa" do casamento com o noivo

Sim! Aqui também acreditam que o dia do casamento com chuva é dia de casamento abençoado. Depois de um bom bocado até que terminámos o arrozito com os feijões parou de chover. Eis que finalmente a noiva saiu da sua “toca” (cabana!) acompanhada por 8 adolescentes a cantar e em procissão… E… eis que agora sim! A festa iria começar…

Aspecto da procissão nupcial

Como bons africanos a dita “procissão” devia deslocar-se por uns 30 metros entre a cabana “esconderijo” e a cabana onde as negociações tomaram lugar. Normalmente não toma 2 minutos a percorrer esse espaço. Mas neste dia, passo à frente e passo atrás (de dança!) foram uns bons 20 minutos! Por fim a noiva lá entrou na cabana. Mas o encontro com o noivo não tinha chegado ainda. As raparigas, “damas de honor”, continuaram a dançar cá fora. Cada uma é chamada para ir buscar um dos “amigos do noivo” para que venham diante das moças a cantar e dançar. Ali há um diálogo de cantos procurando dizer se estes “amigos e amigas dos noivos” são por acaso os noivos! É claro que antes que todos acabem de perfilar e serem “julgados” diante das cantoras e dançarinas passa mais meia hora!



Até que por fim é chamada a noiva (sempre através de cânticos) para que vá buscar o seu noivo e o apresente a todos os convidados para a aprovação final. Somente aqui a noiva sai e vai buscar o noivo que está ao lado da cabana mas do lado de fora. É então o auge da alegria para todos os convidados ali presentes. Os cânticos, mais uma vez, a narrarem a história dos noivos pois claro! Bom… e de ali para o local onde se seguirão os discursos.


Por fim... juntos!

Aqui todos os convidados vão também oferecer os seus presentes. Mais uns 10 minutos de “procissão” a cantar e dançar (mesmo com a chuva a encharcar). Tocou-me a mim e ao catequista que estava comigo abrir as hostes com uma oração e umas palavrinhas. Foi um momento muito bonito e também de evangelização. Isto porque lemos um texto de S. Paulo sobre a vida em casal. Pois claro que se seguiram umas palavrinhas explicativas.


Seguiram-se depois muitos outros discursos e também orações. E digo orações porque estariam ali além de nós outras 5 ou 6 igrejas diferentes com o seu pastor. O noivo é católico, mas a noiva é luterana e os pais dela de uma outra igreja protestante africana aqui da área. Assim que é uma “fartança” tutti-frutti de igrejas pois claro!
Chegou o momento de a mãe da noiva e as irmãs vestirem e darem os seus presentes à mãe do noivo e às suas irmãs. Aqui entendemos irmãs também as cunhadas, as tias e as sobrinhas… é o conceito africano de família alargada. À mãe do noivo uma saia e t-shit novas. Às outras um destes típicos panos africanos que as mulheres usam à volta da cintura e que serve também de saia. As famosas capulanas. São entregues uma por uma, com cada uma a fazer uma festa enorme correndo à volta dos noivos com muita alegria. Pensava eu com os meus botões: que alegria tão grande manifestada por somente lhe terem dado um pano novo! Quanta alegria! E a quantos, noutras partes do mundo, lhes são dadas coisas bem mais valiosas e nem festa se faz, nem um obrigado!!!
Chegou o momento dos convidados oferecerem os seus presentes. Os convidados: os católicos, os protestantes, os jovens de cada uma das igrejas, os vizinhos, os familiares… Os presentes: algumas cabras, ovelhas, canecas de alumínio (usadas para o chá!), roupas, pratos, travessas, termos (onde costumam guardar o chá ainda a ferver) e também dinheiro… O dinheiro é curiosamente posto dentro de uma bacia que está coberta com um pano para que ninguém saiba o que cada um vai dando! Porém ninguém dá mais do que o equivalente a 3 ou 4 euros… uma fortuna para alguns. O salário de um dia de 2,5 euros aqui nesta zona é já um bom salário diário.
Bom… mas a festa ainda não tinha acabado. Teria agora que o noivo tomar a noiva oficialmente da boma dos seus pais e levá-la para a sua casa. Mais um momento de júbilo, claro. Regressamos então para a boma do noivo onde a festa continuou até ao dia seguinte, domingo. O meu colega Hubert foi celebrar a missa numa capela perto e no regresso teve que entrar para a festa também. A mim já se fazia tarde e a chuva tinha feito das suas. Porém, não pude abandonar sem de novo ter comido mais um prato de arroz e feijão… a comida por excelência das festas. Nada de bolos, açucares, pudins flã nem nada do que se lhe pareça!
Como já era quase noite tinha que regressar. Tinha medo que não iria poder atravessar o rio grande que ficava no caminho de regresso. E “meu pensado” (não dito!) meu feito! Como tinha chovido muito era impossível passar com o carro.

Um outro dia cruzando o rio a pé até ao carro

Foi necessário ir procurar uma outra boma para deixar o carro até ao dia seguinte. Atravessámos o rio a pé onde já nos esperava o meu colega Hubert do outro lado do rio com o outro carro. No dia seguinte levei o meu colega a esse mesmo rio, atravessou-o a pé, tomou o carro, foi celebrar a uma capela perto dali e, no final da tarde, já o meu colega pôde regressar e atravessar com o carro pois já não havia água no rio.
E é assim a vida que todos os dias vamos encontrando e agradecendo a Deus. Aventuras que depois de 2 ou 3 vezes já o deixam de ser e passam a ser mais bem “trabalhos” pesaditos depois de um dia de visita às comunidades!

Escrito em 30 Abril 2010


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2 Comments:

At 14 junho, 2010 10:02, Anonymous Anónimo said...

Ola, vou sabendo noticias claro,para isso tens o bloog.
Assim vale a pena casar... Tradições com alguma beleza e, para o vosso povo então sim. aí aí
Te esperamos e, com estes novos parocos vai haver grandes trocas de conhecimentos. O Padre Pedro vai pular...
xicoração

 
At 23 junho, 2010 15:47, Anonymous Cris said...

Uau! Um casamento por essas bandas é mais uma aventura! :D
Mas são as tradições que dão beleza à multiplicidade de culturas que existem no mundo... cada uma com a sua singularidade! e é, de facto, uma cerimónia bonita! Peculiar, mas muito bonita. E alegre, sem dúvida! :D

Obrigada por partilhares connosco todas estas experências. Ao lê-las, sinto-me como se fizesse parte delas! :)

Continua a escrever... :D

Ah, e até breve! :P *

 

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