domingo, abril 4

Surpresas Divinas em cada dia

O meu último post continha uma promessa: dar notícias em breve! Passaram 3 meses… talvez para alguns a definição de “breve” abrange esses 3 meses! Porém, quando o escrevi queria mesmo dizer “muito em breve”! Não pude cumprir essa promessa. As minhas desculpas. Mas aqui estou… quanto mais não seja para vos saudar com um abraço de amizade no Senhor Jesus Ressuscitado. Quanto não valem as festas cristãs para nos “obrigar” (com muito gosto!) a reactivar os laços de amizade.
Durante estes 3 meses devo confessar que foram muitas as surpresas de Deus – positivas e também as menos felizes...
P. Filipe e P. Hubert na celebração da missa na familia Sakal

Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão. Muitos conhecidos e conhecidas da paróquia. A família Sakal é uma das poucas famílias com convicções cristãs fortes na nossa paróquia. Os Pökot são de tradição poligâmica (em que um marido pode ter várias esposas).

O casal Sakal à esquerda com os seus padrinhos de casamento

Naquele dia queriam juntar todos os seus afilhados de Baptismo, de Crisma e de Casamento. Ao mesmo tempo convidaram os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento também. Num local onde os “católicos praticantes” - isto é, “comungantes” - são poucos, podemos já imaginar que o casal Sakal foi chamado a apadrinhar muitas crianças, jovens e ainda alguns matrimónios.
Nesse dia, toda a vizinhança teve um dia de festa. E festa aqui significa também uma refeição melhorada com um pouco de arroz e carne, algo bem raro nas dietas diárias deste povo.
Foi lindo o momento em que o casal apresentou todos os seus afilhados uns aos outros. Ainda emocionante foi ver o gosto com que no final da missa apresentaram a todos os presentes os seus padrinhos de Baptismo, de Crisma e de Casamento.

Um aspecto de toda a assembleia

A razão de tanta festa saída das próprias palavras do casal deixa qualquer missionário contente com o empenho desenvolvido ao longo dos anos na missão. Disseram: “quisemos juntar-nos hoje somente para aprofundarmos o que significa ser padrinho ou madrinha da fé que nasce em cada um de nós. Queremos que na nossa paróquia sejamos mais e mais conscientes do que realmente significa apadrinhar ou apoiar alguém na sua caminhada de fé na igreja.” Confesso que fiquei surpreendido e maravilhado como Deus vai realizando tantas maravilhas no meio deste povo que apenas há 35 anos começou a escutar a Palavra de Deus.

Preparando a comida

Um “espinho duro” no coração
Um dos momentos mais difíceis para mim na missão até hoje aconteceu no início de Março deste ano. Aquilo que era previsto ser uma greve dos alunos da escola secundária masculina (aqui mesmo ao lado da missão) acabou por ter contornos bem dolorosos.
O dia ainda começava a clarear quando fomos despertados aqui na missão por gritos. Os estudantes tinham começado a atirar pedras e a bater no director da escola. Corremos eu e o meu colega P. Hubert. Ao chegarmos demos com uma multidão de estudantes enfurecidos a destruir o escritório do director com ele lá dentro. Alguns mesmo batiam-lhe com paus arrancados dos ramos das árvores do recinto da escola. Imediatamente acudimos o Director da escola e tentámos defendê-lo da fúria enraivecida dos alunos. Não os conseguimos acalmar mas pelo menos conseguimos defender o pobre Director de ficar mais ferido ou mesmo de o chegarem a matar. Eu não acreditava no que via à minha frente. Quase 2 centenas de estudantes que mais pareciam guerreiros com pedras e paus nas mãos, prontos para avançar não fosse eu e o meu colega estarmos entre eles e o Director. Em vão corria eu à frente dos rapazes tentando acalmá-los. Pelo contrário, tentavam ludibriar-me para chegar até ao escritório do Director onde estava também o meu colega P. Hubert. Tomou 30 minutos à polícia para chegar para que os estudantes dispersassem da escola. Esse dia foi muito longo pois logo se sucederam reuniões de emergência para ver o que fazer a seguir. A escola foi encerrada por uma semana. Foi a semana mais dura desde a minha chegada à missão. Tudo porque todos os dias dessa semana foram necessários para reuniões com uma espécie de Conselho Escolar onde pais, autoridades locais, professores e o “patrocinador” da escola (a paróquia da Missão) estamos presentes. Depois foi necessário receber cada um dos estudantes um a um para tentar perceber os motivos da rebelião. Acabámos por expulsar 8 alunos da escola e mandar outros 7 de suspensão por 2 semanas
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Alunas da escola secundária para raparigas
recentemente aberta em Serewo

O mais doloroso foi aperceber-me que o motivo profundo e trágico deste grave acontecimento é o tribalismo. Os Pökot começaram a enviar os seus filhos para a escola de uma forma mais geral apenas há uns 10 anos a esta parte. Há muito poucos naturais preparados para assumir cargos como professores, médicos, enfermeiros e mesmo pessoal técnico dos mais diversos campos. Por isso, há muitas outras pessoas de outras tribos que aqui prestam serviços como professores, médicos, enfermeiros. Parece que neste momento os políticos locais começaram uma campanha de querer mandar todos os não-Pökot de outras tribos para fora deste local. O mais duro e puro tribalismo. Estou plenamente convencido que é uma campanha que começa no próprio representante Pökot no governo, uma espécie de governador do distrito. Algo grave que apenas nos mostra que ainda há muito trabalho para fazer até chegar ao coração dos Pökot com as palavras de Jesus: amor ao próximo, perdão e comunhão… Apesar de dura, esta experiência apenas me confirma que este é o lugar certo para onde Deus me enviou no momento justo e na altura certa: a missão é testemunho da Verdade, do Amor e da Compreensão. Para mim, estas são razões mais do que suficientes para querer continuar aqui a servir o Reino de Deus – a missão a que Deus me enviou!

Ainda assim… o triunfo da VIDA!
Esta Páscoa foi a primeira passada aqui na missão de Kacheliba. O ano passado encontrava-me a terminar o curso da língua swahili na Tanzania. E claro que foi bem especial…
Todos já escutámos como a Páscoa vivida na missão é sempre especial. Se esperamos celebrações litúrgicas seguidas à risca pelos cânones litúrgicos pois essas não as encontramos aqui. E talvez isso seja mesmo aquilo que torna a vida da Igreja em África… digamos que… diferente!

Adolescentes baptizados na noite de Páscoa em Konyao

Ontem à noite celebrei a vigília pascal numa das nossas capelas mais distantes chamada Konyao, a uns 50km de Kacheliba, 1 hora de viagem (se tudo corre bem!!!). Esperavam-me 18 adolescentes para serem baptizados depois de 2 anos de Catecumenado. Juntar-se-iam nesta noite os cristãos de 2 capelas para celebrar os baptismos de novos cristãos.
Logo à chegada foi necessário prover a luz à capela pois ali ainda não há electricidade. Com uma bateria, um inversor de corrente e umas gambiarras com lâmpadas já podemos “dar à luz”. A capela estava bem composta e ao longe já escutava os ensaios dos cânticos para uma noite que seria longa.
Depois de 3 horas e meia de celebração a alegria estava de facto estampada no rosto de todos. Realmente (pensava eu com os meus botões), a VIDA do RESSUSCITADO é algo incrivelmente grande e que enche o coração de todos os povos. Sejam eles mais ou menos instruídos. Mais ou menos profundos na sua fé…
O regresso à missão foi já de madrugada… com o único senão que viajava sozinho de regresso! Não… não tinha medo! Graças a Deus, neste momento, há segurança mesmo durante a noite. O único problema era mesmo se tivesse algum problema mecânico… aparte dos furos que são o “pão-nosso” de cada dia e que são normais nestas paragens! Tudo correu bem e à chegada, já perto das 2 da manhã, ainda encontrei os meus colegas a pé que também regressavam dos seus empenhos noutras capelas.
Hoje, dia de Páscoa, a manhã começou de novo cedo. Numa outra capela chamada Simotwo, esperavam mais adolescentes para serem baptizados. Pelo caminho tive que “inventar carreiros” para poder chegar à capela… a chuva das últimas semanas (outra surpresa linda e bem apreciada de Deus) tinha tornado o caminho normal impraticável. Entre atalhos e “desatalhos”, lá chegámos com a graça de Deus.
Já a comunidade cristã estava reunida e entusiasmada praticando os cânticos pascais alegres depois do tempo da Quaresma. Durante toda a celebração a alegria de novos cristãos era bem evidente: sorrisos e cantos alegres ecoavam a cada momento. Os 7 adolescentes que foram baptizados e que receberam a comunhão pela primeira vez luziam de contentamento com as suas pequenas velas acesas. Era mais que evidente que a Graça e a Luz de Jesus Ressuscitado enchia os seus corações.

O sistema eléctrico à doc

Deus é sem dúvida o Deus das surpresas… boas e também as menos boas. É que em todas elas Ele nunca deixa de nos abençoar: nas boas enche-nos de alegria; nas menos boas dá-nos a sua força e coragem para enfrentarmos cada dia com o entusiasmo e a alegria da VIDA NOVA da RESSURREIÇÃO – ALEGRIA, PAZ, AMOR MÚTUO E ENTREGA DA VIDA PELOS OUTROS.


Grupo de adolescentes baptizados em Simotwo no dia de Páscoa

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS VÓS!
PASKA NYÖ KARAM
(Feliz Páscoa em Pökot)

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2 Comments:

At 06 abril, 2010 00:24, Blogger António said...

Olá P. Filipe
Confesso que nem sempre consulto o seu blog e lhe dirijo uma saudação. Julgo que está a cumprir fielmente a sua missão. Desta vez,gostei particularmente do encontro com a família que deu origem a UMA FESTA RARA. Penso que a mensagem de Jesus é isso mesmo.Em todo o Mundo: ír ao encontro do povo e anunciar a mensagem de Jesus: aos descrentes, drogados, corruptos, doentes, tal como Jesus o fez. O que aconteceu ai foi um exemplo. Não é no terreno que o semeador deve lançar a semente?.
".Uma festa rara
Ainda celebrávamos as festas do Natal, quando recebemos um convite, pelo menos, bem estranho: uma das famílias cristãs da nossa paróquia queria que fossemos celebrar a eucaristia em sua casa. Até aqui nada de especial. A razão da nossa surpresa era mesmo o motivo de tal celebração. Diziam-nos que tinham convidado todos os afilhados bem como todos os padrinhos e madrinhas do casal Peter Sakal – assim se chama o chefe da família.
Ao chegar a casa da família Sakal deparamos com uma pequena multidão".

 
At 28 abril, 2010 20:36, Anonymous Josiel Dias said...

Olá meus Irmãos, Graça e Paz.

Fiquei muito feliz em conhecer este blog, muito abençoador. Creio que aprendendo uns com os outros, crescemos na graça e no conhecimento. Gostaria de compartilhar também o nosso blog

"Mensagem Edificante para Alma"
http://josiel-dias.blogspot.com/

Josiel Dias
Cons Missionário
Congregacional
Rio de Janeiro

 

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