domingo, julho 12

Presentes de Deus!

Foi já há umas semanas a última vez que abri o meu diário aqui no blog. A razão é simples e a mais óbvia de sempre: tempo!
Sim, também por estas bandas o tempo é apertado para tudo o que desejaria escrever. Cada dia que passa daria uma boa página de diário missionário…
Amanhã terão passado 2 meses desde que regressei definitivamente a Kacheliba. Foram 2 meses de intensas actividades e também alguns contratempos.

Numa das comunidades durante a distribuição do milho
Dar de comer a quem tem fome
Desde o dia 5 de Junho, dia do meu aniversário, que iniciei a distribuição de milho doado pelo nosso Bispo da Diocese assim como algum que também nós como comunidade missionário comprámos. Foi uma oportunidade de poder conhecer as 51 capelas da nossa paróquia. Nesse dia 5 de Junho, iniciar esta distribuição do milho foi o melhor presente que Deus me podia ter dado. ainda que, numa das comunidades, me ofereceram uma pequenina garafinha de plástico de mel... Em duas semanas foi possível ir a quase todas as capelas. É que as chuvas continuam teimosas em não passar por estas terras. As sementeiras começam a secar.

Uma das "shambas" (campos) com o milho já seco

É desolador ver muitos campos com o milho estragado devido á falta de água. As pessoas começam a perder a esperança e temem que este ano seja como o ano passado: sem colheitas. É por isso necessário ajudar um pouco as pessoas. Só que é impossível ajudar toda a gente… o grande “nó na garganta” que todo o missionário experimenta! Levamos a cada capela 2 sacos de milho de 90kgs cada um. 100 foram doados pelo Bispo da Diocese, outros 100 comprámos ao preço de 27 euros cada um.
Um dos médicos atendendo as pessoas com problemas oculares

Catequistas e operações aos olhos
Tivemos também 3 dias de encontro com os catequistas. Este encontro é realizado cada 6 semanas. São 3 dias intensos de formação e de planear o andamento das actividades da missão. Sem os catequistas seria impossível para nós poder chegar às pessoas. São cerca de 45 os catequistas e cada um trás o seu relatório do andamento das suas comunidades. Um trabalho constante em comum da busca da vontade de Deus para a paróquia.
Na outra semana tivemos também uma equipa de 15 médicos especialistas dos olhos aqui na missão por 4 dias. São muitas as pessoas com cataratas e com glaucomas nos olhos. Muitos já desde há muitos anos… doenças que podiam ser evitadas com um pouco mais de higiene e cuidado no lavar os olhos cada dia. Foram atendidas nestes 4 dias cerca de 600 pessoas, metade das quais (300) tendo mesmo sido submetidas a cirurgias. Foi uma actividade financiada pelo Lions Club de Kitale, a Diocese a que pertencemos.
O dispensário da Missão improvisado em "bloco operatório"

A mais bela experiência do Anúncio de Jesus
Há uma semana atrás também recebemos cá o Sr. Bispo para administrar o sacramento do Crisma a cerca de 250 cristãos. Realizámos duas celebrações: uma no sábado numa das nossas capelas e outra no domingo aqui no centro da missão. Torna-se mais fácil para os cristãos de mais longe se deslocarem.
Porém, as visitas às comunidades locais é o trabalho que mais me apaixona e me faz sentir bem realizado como missionário. Chamamos a estas visitas às comunidades de “matembezi” em língua kiswahili. Chemakeu é uma dessas comunidades que visitei num destes dias. Fica a cerca de uma hora daqui da missão de carro. Vivi uma das mais belas experiências desde que cheguei ao Quénia. Saí daqui da missão de manhã com o catequista pois também ele tinha vindo aqui à missão com a sua mãe por causa das operações aos olhos que referi acima. Aproveitei para levar a uma escola primária dois sacos de milho pois as crianças nesta escola não são apoiadas ainda pelo governo assim que a comida da escola depende da ajuda dos próprios pais das crianças e da missão.
Chegámos a Chemakeu e estive uns minutos em casa do catequista. Melhor… na sua cabana! É um bom catequista e com muita vontade de trabalhar e anunciar Jesus, mas também tem alguns problemas na sua vida que não o deixam sobreviver só com este trabalho. Depois caminhámos a uma outra família e à sua cabana. Aqui chamámos à casa das pessoas "boma"; normalmente a "boma" é o recinto, a área onde têm duas ou três cabanas, um curral em forma de cabana também para os animais e o pátio em frente das cabanas... Caminhámos cerca de meia hora pela savana dentro até à casa de uma senhora cristã baptizada, mas que já há uns tempos tinha deixado de vir à capela. Resolvemos com o catequista ir fazer uma celebração domiciliária... quase a chegar fomos surpreendidos por uma valente chuvada! Graças a Deus! E que bem que soube aquela chuva cair pelas orelhas abaixo... Chegámos todos encharcados, mas também felizes pelo dom de "ilat", chuva em Pökot... ou melhor, o espírito da chuva para os Pökot. Fomos recebidos com o tradicional chá queniano (chá preto com umas gotas de leite de cabra!), e entretanto os vizinhos foram chegando. Uma hora depois, entre conversa e chegada de vizinhos, dentro da cabana estávamos cerca de 20 pessoas. Destas só 4 eram baptizadas, excluindo eu e o catequista, pois claro! Todos os outros, senhoras, alguns jovens pastores e alguns homens casados, ainda não eram baptizados e pouco sabiam de Jesus e de quem é Jesus. Mais uma vez também voltei a confirmar o quanto necessito de aprender a língua local Pökot, pois tudo o que disse em Kiswahili tinha de ser traduzido. O catequista foi o que dirigiu o momento de oração que fizemos, lendo a passagem do evangelho do domingo seguinte e explicando-o. Veio depois a minha vez de também apresentar quem é Jesus, o que é a bíblia e porque é que lemos o livro da bíblia; explicar porque é importante escutar o que Jesus disse e nos diz hoje através da bíblia... o básico e mínimo por onde se começa o anúncio de Jesus, O Filho de Deus, Töroröt, Deus para os Pökot. Todos rezamos e o tempo passou de uma forma que nem sequer demos conta. Estivemos naquela "boma" cerca de 3 horas. Uma alegria enorme na despedida... e eu também me sentia muito feliz e realizado pois foi para isto, sobretudo para isto, que fui chamado por Deus como missionário. Era hora de regressar não sem antes passar pela “boma” de um outro cristão jovem que está a viver com 4 filhos, depois da mãe os ter abandonado a todos por causa da falta de comida... algo que me chocou bastante...

Visita a uma das capelas com as crianças da pré-primária na sua sala de aulas debaixo da árvore!

Quando chegámos estavam a preparar uns frutos selvagens que é a comida que têm nestes dias em casa. Graças a Deus as crianças têm assegurada uma refeição na escola de milho e feijão misturados. Mas há outros que não vão ainda à escola... estes frutos selvagens custam a preparar e só no dia seguinte iriam estar comestíveis... pelo que nesse dia, como em tantos outros, iriam deitar-se com o estômago vazio. Acabei por deixei-lhes o equivalente a 1 euro que é suficiente para comprar 2 quilos de milho e que os ajudará a ter uma refeição à noite por 2 ou 3 dias! Situações que, contadas a muita da gente jovem nos países desenvolvidos, não dá para acreditar!
Apesar de tudo nesse dia regressei feliz e realizado para casa... feliz pelo dom da vocação missionária a que Deus me chamou.

A anterior capela de Lokomolo

Um domingo nas comunidades
Hoje, domingo, fui celebrar a uma comunidade chamada Lokomolo. À minha chegada foi-me dito que se esperavam outras pessoas de duas comunidades/capelas “próximas”. Próximas no conceito Pökot, pode significar que estavam a cerca de 2 horas de caminho a pé! Lógico que em vez de começarmos às 10.30, a celebração começou já perto do meio dia. É o horário africano que olha mais para o tempo em quantidade do que a quantidade do tempo. Celebrámos numa das salas de aulas da escola ali construída pela Missão. A capela, ainda recente, ficou sem o tecto devido a um temporal há cerca de um ano. Desde então, estamos a tentar organizar-nos junto com as pessoas para podermos repor o telhado de chapa de zinco… São muitas as despesas que temos e nem sempre chega para tudo ao mesmo tempo! Assim que é necessário ir esperando também pela providência!
Devo dizer que a um dado momento, contando as criancinhas pequeninas e bem irrequietas, estaríamos umas 80 pessoas naquela “capela” improvisada. A grande maioria, uma vez mais, não baptizados. Para a comunhão aproximaram-se apenas umas 20 pessoas.
Mas este, foi um dia especial: sem contar e sem me ter preparado convenientemente, foi-me pedido pelos catequistas que celebrasse a missa em língua local Pökot. Normalmente celebrava em língua kiswahili. Nunca o tinha feito antes na língua local e, mesmo a ler, é bem distinta do kiswahili e bem mais difícil. Lancei-me! Nos momentos justos, as pessoas lá iam respondendo à missa, sinal que a minha pronúncia ia sendo entendida pelo menos em parte. Mas devo confessar que me custou. Claro que a homilia foi em kiswahili e traduzida pelo catequista, mas… foi uma experiência mais que me ensinou que o Espírito de Deus é aquele que trabalha nas pessoas, muito para além das nossas próprias capacidades ou especialidades!!!
Entre o meu falar Pökot meio enrascado, o choro intercalado das crianças e o entrar e sair de algumas das pessoas por razões que não conseguia escrutinar, a verdade é que a aparente apatia dos cristãos durante as celebrações em muitas das nossas paróquias na Europa, por e simplesmente aqui não existe. Em muitos momentos foi mesmo necessário parar a homilia para que as crianças fossem atendidas (normalmente com a mamita da mãe… fim do pio!) ou que as pessoas que entravam se acomodassem. Definitivamente… celebrações bem distintas e diferentes das nossas liturgias europeias tantas vezes cheias de “pompa e circunstancia”.
No final da missa (que ainda assim durou 2 horas), há lugar a discursos e boasvindas aos visitantes das outras capelas; depois o chazinho queniano do costume. Entre isto e mais aquilo, deixei a capela de regresso à Missão já depois das 3 da tarde.
Mais um dia feliz na vocação a que Deus me chamou. Conto, como sempre, com a vossa oração, sobretudo, para que Deus nos envie o dom das chuvas, tão escassa e tão necessária para a sobrevivência destes povos.

Escola de Lokomolo construída pela Missão lugar da celebração da Eucaristia

“Pensamentos do meu diário”
Kacheliba, Pökot Norte – Quénia
12 de Julho 2009

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1 Comments:

At 14 julho, 2009 21:16, Anonymous Anónimo said...

Olá Amigo, ao ler as noticias desses povos, fico sem palavras.
Como sabes neste domingo dia 12 foi celebrada aqui na paroquia a nossa Festa da Família... O S.ºPadre esclareceu um pouco o que se vai passar nos próximos tempos... em conversa com ele, me diz que vem aí uns escurinhos, para a nossa paróquia. O que te queria perguntar era como esse teu povo te vê tão branquissela? Pq as nossas criançãs e não só, vamos fazer assim aquela cara..lol. É o mesmo que esse teu povo se deve de admirar da tua cor de pele. Será assim? grandaaaa XI-coração

 

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