quarta-feira, fevereiro 13

Quénia depois da violência

A situação nos vários locais do Quénia depois da violência

Depois de seis semanas das eleições, a violência étnica e política no Quénia está diminuta. Eis aqui alguns apontamentos curtos da situação actual nalguns dos lugares que testemunharam mais violência:

Rift Valley, Oeste
Calma relativa está a voltar à zona de maior simpatia pela oposição, particularmente Eldoret, depois de semanas de violêntos e sangrentos confrontos.
As estatísticas governamentais mostram que dos cerca de 1000 mortos na violência em todo o país, quase metade foram no Rift Valley e nas provincias do oeste.
O pior incidente aconteceu quando jovens armados puseram fogo a uma igreja nos subúrbios de Eldoret, matando pelo menos 50 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, que tinham procurado refúgio na igreja.
Cerca de 150 mil pessoas, na sua maioria membros da comunidade Kikuyu, a mesma do Presidente Mwai Kibaki, deixaram estas duas provincias e dirigiram-se para as suas terras ancestras na provincia Central e Nairobi.
Cerca de 20 mil pessoas, a maior parte da comunidade Luo, a mesma do lider da oposição Raila Odinga, deslocaram-se na direcção oposta.
O comércio na maioria das cidades, como Kakuru e Eldoret, reabriram. Bancos, lojas, hoteis e comerciantes de ocasião estão a trabalhar sem medo.
Todos os bloqueios de estrada, onde os jovens armados atacavam Kikuyus que viajavam nos transportes públicos matando-os à catanada, foram removidos e a policia armada tem vigiado o local.
Mas a vida nos campos para as vitimas da violência é dura por causa das chuvas que agora encheram os campos de água.
Muitas pessoas, especialmente os idosos e crianças, correm o risco de contrair doenças. Há também uma necessidade urgente de fornecer comida e serviços médicos.
Os transportes públicos estão de novo a operar e os minibus taxi estão de novo em circulação, uma vez que já não necessitam de qualquer escolta policial para circular.
Mas uma forte presença policial continua bem visivel em Eldoret e cidades circundantes.
Camiões cheios de paramilitares da Unidade de Serviço Geral (uma espécie de policia de intervenção) são agora comuns nas ruas.
Residentes jão não têm receio de voltar aos seus lares, locais que antes eram reconhecidos como inseguros.
O chefe da policia em Eldoret Muinde Kioko disse à BBC que os oficiais da segurança permanecerão na cidade enquanto as sessões de mediação estiverem a ser levadas a cabo por Kofi Annan em Nairobi.
"Nós nos queremos iludir com nada, mesmo com a calma que agora se sente em Eldoret - as coisas podem mudar muito rapidamente e temos que estar preparados a todo o momento", disse.

Kisumu
Kisumu, que esteve a ferro e fogo durante o período pós eleitoral com pessoas a roubar e a queimar lojas, está agora calmo.
Alguns negociantes começaram mesmo a reconstruir os seus locais de comércio, pintando-os, esperando que depressa a vida volte ao normal na capital da provincia de Nyanza.
Mas a economia na cidade das margens do lago Vitória foi severamente afectada.
A pesca, que é na região a actividade económica mais importante, colapsou uma vez que a maioria dos compradores e operadores de fábricas de peixe deixaram a região devido aos confrontos étnicos a seguir às eleições ao dia 27 de Dezembro passado.
Um condutor de "matatu" (minibus - transporte público) chamado Oiro diz: "Enquanto que no passado eu fazia cerca de 5000 xelins por dia (cerca de 50 euros), hoje tenho um dia bom quando faço cerca de 1000 xelins (10 euros). Eu espero que Kofi Annan force o presidente Kibaki e Raila Odinga a fazer as pazes para que possamos continuar as nossas vidas."
A Universidade de Maseno, que fica a cerca de 50 km da cidade e deve ter mais de 10 mil estudantes, não pode abrir porque o funcionamento da mesma não pode assegurar a segurança dos estudantes e dos trabalhadores.
Algumas das casas de residentes estudantes foram destruídas e ainda estão à espera de serem reparadas.

Bairros de lata de Nairobi
A tensão continua alta no bairro de lata de Kibera e Mathare (Kariobangui), que testemunharam violência extrema no período pos eleitoral.
As cenas de violência que forçaram milhares de pessoas a fugir acabaram e algumas familias começaram a retornar para as suas casas no bairro de lata mas fazem-no com um cuidado extremo.
Algumas partes dos bairros de lata foram divididos por zonas étnicas, com muitas pessoas a escolher viverem em áreas dominadas por pessoas da sua comunidade étnica.
Em ambos os bairros de lata, alguns dos habitantes encontraram as suas casas ocupadas por estranhos que se recusam a sair, contribuindo para uma contínua tensão.
Em Kibera, onde muitas lojas e casas do bairro foram queimadas durante a violência, a policia e os oficiais do governo realizaram um encontro com os residentes no fim de semana passado numa tentativa de resolver a disputa de propriedades das casas.
O porta-voz da policia Eric Kiraithe disse que a maioria dos bairros de lata permanecem calmos desde que começaram as reuniões de mediação lideradas por Kofi Annan.
No fim de semana, o chefe da policia Hussein Ali levantou a proibição de manifestações publicas em todo o país, justificando o retorno à normalidade.
Os residentes estão agora a por as suas esperanças na habilidade de mediação de Kofi Annan para encontrar uma solução politica.

Mombasa
O sector do turismo, instalado ao longo da costa do Oceano Indico, que o ano passado contribuiu 15% para as receitas nacionais, foi devastado pela crise pos eleitoral.
A maioria dos turistas cancelaram as suas viagens para ver os muldialmente famosos safari resorts e hoteis de praia, com uns poucos hoteis a ter a sorte de registar 30 a 40% de ocupação.
Só na provincia da Costeira existem mais de 120 hoteis de classe mundial, 20 dos quais fecharam, com cerca de 20 mil empregados mandados para casa.
Rufus Mwachiru, presidente da Associação de Operadores Turisticos do Quénia, diz que cerca de 20 mil dos seus membros ficaram desempregados.
Ong'ong'a Achieng', director do Painel de Turismo do Quénia, diz que a industria, que o ano passado rendeu ao país o recorde de 65 mil milhões de xelins espera agora perder cerca de 5,5 mil milhões de xelins por mês durante o primeiro trimestre deste ano.
Ele avisa que a situação irá piorar e a economia será severamente afectada se a solução para o actual impasse político não seja rapidamente encontrada.
O porto de Mombasa sofreu uma nunca vista sobrelotação do contentores no porto. Isto foi provocado pela indisponibilidade dos camiões, uma vez que os transportadores não queriam viajar país acima com os confrontos a decorrer em Nairobi, Rift Valley e região Oeste, a estrada que atravessa todas estas regiões em direcção ao Uganda. A meio de Janeiro, o porto que tem a capacidade para 14300 contentores, estava sobrelotado com 18472. Nessa altura, 8 barcos flutuavam no mar uma vez que não havia mais espaço para atracar. Alguns navios cansaram-se de esperar e mudaram o curso da rota para Dar es Salaam na vizinha Tanzânia.
Os caminhos de ferro estão operacionais de novo, depois de partes da linha ter sido arrancada e destruída por manifestantes.
Alguns dos contentores estão já a ser movidos mas a "passo de caracol". Esta crise no porto de Mombasa afectou também o Uganda, Ruanda, o este da RD Congo e o Sul do Sudão.

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1 Comments:

At 16 fevereiro, 2008 18:07, Blogger PobreVirtual said...

parabéns pelo blog. os posts estão cada vez melhores... tenho te acompanhado sempre que posso...

não sei se seria sua área, mas aproveitando, estou procurando alguma organização de crianças perdidas. tenho um projeto e gostaria de apresentar... vc conheçe alguem???

se precisar de algo, estou a disposição: www.PobreVirtual.com.br

 

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