segunda-feira, março 26

Entrevista a Muhammad Yunus - Prémio Nobel da Paz

"Movo-me no capitalismo para tratar os seus males"

Como define o momento presente da nossa civilização?
É muito excitante. Se o seu editor lhe pedisse para escrever sobre o que vai acontecer em 2020 seria ficção científica, porque não sabe. Se recuasse 20 anos, tentando imaginar o que aconteceria hoje, seria ficção. Nessa altura, nem o fax existia e a internet, nem pensar. Quem pensaria no Youtube, ou no Ipod?

Escolheu a palavra excitante. Que outras lhe vêm à cabeça?
Potencial, ilimitadas possibilidades. É difícil hoje em dia dizer que alguma coisa é impossível Quem ousava dizer há 30 anos que a URSS se iria desintegrar?Mas eliminar a pobreza parece estar a ser mais impossível...Mas nunca ninguém acreditou que a pobreza era algo ultrapassável. O discurso e a prática assentam nesta ideia: vamos viver com a pobreza e facilitar a vida aos pobres, dando-lhes água e comida. O que digo é que a pobreza é anti-natura, é imposta. Só no ano 2000 os líderes mundiais se comprometeram a reduzir a pobreza para metade até 2015. Tal nunca tinha acontecido.

Qual é o modelo político que melhor serve o seu projecto e os seus ideais?
O modelo que está a ser praticado em todo o mundo é o capitalismo, embora com muitas variações. Até as economias socialistas, como a China e o Vietname, estão a incorporar o sistema capitalista. Mas para mim o capitalismo é uma espécie de história que só foi contada a metade, não está desenvolvido. Digo isto porque o item importante no capitalismo, o motor, é o negócio. Mas tem uma definição muito estrita. Diz que o negócio é só para fazer dinheiro, maximização dos lucros. Isto é muito redutor, como se o ser humano só pudesse fazer dinheiro. É uma visão unidimensional do ser humano. A mesma pessoa que quer fazer dinheiro é a mesma pessoa que é afectuosa, preocupada com os outros. Mas isto não está assumido no nosso sistema. Então a solução é o negócio social, um sector - dentro do capitalismo - que trate de muitos dos problemas que o capitalismo criou. A missão é fazer bem às pessoas, sem a preocupação do lucro.

Fonte: DN online (23.03.07)

"Então a solução é o negócio social, um sector - dentro do capitalismo - que trate de muitos dos problemas que o capitalismo criou. A missão é fazer bem às pessoas, sem a preocupação do lucro."

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sexta-feira, março 23

A economia pela paz...

Os pobres merecem crédito
Muhammad Yunus passou por Lisboa e explicou a contribuição do microcrédito para a paz
"Os pobres merecem crédito" - defendeu ontem (22 de Março), Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz em 2006, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. E acrescenta logo de seguida: "Se alguém disser o contrário eu digo que é mentira".
Nascido no Bangladesh, que se tornou independente do Paquistão em 1971, este professor universitário leccionava nos EUA quando se deu a separação. "Não foi um processo fácil porque se derramou muito sangue" - disse. A euforia inicial "tornou-se um pesadelo".
Ao saber que o seu país estava naquele estado lastimoso, Muhammad Yunus decide voltar para a pátria. "Fui ensinar Economia" mas junto ao campus universitário "via pessoas morrerem à fome". As salas de aula "pareciam cinema" porque "lá fora a realidade era diferente" - sublinhou na sua conferência sobre «Microcrédito: um contributo para a paz».

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