domingo, novembro 23

Finalmente de partida para o mato!


Amig@s!
Estou a publicar esta mensagem para vos dar a conhecer (para aqueles que ainda não o sabem) que já me encontro no país a que fui enviado: o Quénia! Cheguei na passada 2ª feira à noite e por cá fiquei em Nairobi, na capital do país, a ambientar-me e ainda á espera de que o meu superior fosse esta semana até essas paragens longínquas do Quénia e por lá me deixar para levar por diante a missão que Deus me confiou.
Aproveitei estes dias para ir visitar amigos e os lugares onde vivi entre os anos que cá estive como estudante. Este fim de semana pude ir ao bairro de lata onde fazia apostolado ao fim de semana: Kariobangi. Fica nas imediações da cidade e foi um dos lugares mais conflituosos no início deste ano por causa das eleições. Pude ver muitas casas, ou melhor, barracas queimadas… ou o que restou delas. São de pessoas que fugiram e nunca mais regressaram com medo de retaliações. Mas tudo continua mais ou menos como antes: milhares de pessoas na rua toda esburacada e com os esgotos a correr por todo o lado, as bancas de vendedores de fruta, de legumes, de comida, de carne, de calçado, de vestuário, de DVDs e CDs, de música… e ainda as igrejas independentes africanas em cada esquina. Só num espaço de uns dois km entre a capela e a igreja principal da paróquia há umas 20 igrejas diferentes!!! Mas aqui há vida! Aqui há muita criança, muita juventude, muita vida! Graças a Deus!
Pude celebrar a missa pela primeira vez nestes lugares que me foram tão queridos aquando da minha passagem aqui nos anos de 1997 a 2002. Foi lindo reencontrar pessoas, saudar amigos e rezar uns pelos outros!
Amanhã viajo já para o noroeste do país, para a minha missão definitiva… assim que não sei quando poderei voltar a escrever por email e enviar mensagens no meu blog. Creio que o telemóvel funciona, mas… lá perdidos no meio do mato… ainda estou como o outro: quero ver para crer! Mas sei que não nos esquecemos uns dos outros e sempre iremos estar unidos e bem juntos em oração!
Bem hajam por tudo e que o Senhor vos abençoe com todas as suas bênçãos!
P. Filipe Resende, mccj no Quénia

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sexta-feira, novembro 21

Viajar sempre a curtir a onde musical

Nairobi, 21 de Novembro 2008
Safari! É uma palavra que nos faz lembrar férias. Faz-nos lembrar passeio. Até o Socrates já fez um aqui no Quénia. Faz-nos lembrar animais da selva africana. Pois bem. Na verdade, safari é uma palavra em língua swahili que significa viagem. Foi depois usada para muitos outros sentidos, mesmo nos países onde se fala o swahili, como no Quénia.
E é de uma viagem que vos falo hoje. O regresso a uma experiência enigmática, sempre engraçada e cheia de travessuras engraçadas. Ontem, ao final da tarde, desloquei-me da casa provincial à casa onde estudei os 5 anos passados neste país entre 1997 a 2002. Quis ir de transporte público. Isso significa neste país deslocar-se de “matatu”. O matatu é uma carrinha tipo Toyota Hiace, que geralmente em Portugal tem a capacidade máxima de 9 lugares. Pois bem… aqui no Quénia o permitido por lei é de 16 pessoas! Escusado será dizer que vamos ali como sardinhas em lata.
Geralmente os matatus são mais rápidos e mais económicos. Daí abundarem no país. Depois há ainda aquele que seria chamado em terra lusitana o revisor que aqui assume o papel também de “vendedor” da viagem. Explico. Cada matatu tem dois operadores: o condutor e aquele que chama as pessoas e tenta a todo o custo que as pessoas entrem no seu matatu… e então quando vêem um “muzungu” (uma pessoa de cor clara como os europeus) à procura de transporte, faz toda a questão de que vá no seu matatu. É uma honra para eles, segundo parece, transportar estas pessoas. Bom… é também a oportunidade de lhe cobrar uns xelins mais pela viagem. Não fosse eu já saber quando cobram pelo trajecto, provavelmente cobrar-me-iam o dobro. Lá entrei no matatu nº 111. Seguia até próximo do escolasticado, uns 15km da casa provincial.
Depois de 6 anos pude ver que houve melhorias: agora aqui é moda os matatus terem um ecrã de 17 polegadas no interior da carrinha já por si pouco espaçosa devido ao amontoar de pessoas. O que passa nesse ecrã? Nada mais nada menos do que cópias piratas de videoclips musicais baixados da internet. Posso dizê-lo pela qualidade da imagem… Antes a música reggae, hip-pop e rap passavam a todo o volume nas colunas. Agora já há também videoclips nos ecrãs!
Hoje, regressei. E fi-lo mais uma vez de matatu. Tive tal pontaria no horário de tomar o matatu que acabei por viajar num veículo que literalmente levava a porta de correr do lado da carrinha dentro da própria carrinha. Sim, a porta deve ter caído ou algo do género. Mas o mais engraçado é que apenas notei o que realmente era aquele monstro à minha frente depois de uns bons metros andados. Perguntais: então e não viste que não tinha porta? Bom… é que estes matatus quando estão a aproximar-se das paragens vêm sempre com a porta aberta, e depois transportam de tudo. Pensei que era mais uma peça entre tantas outras que por vezes estes matatus transportam. O que vale é que a viagem não foi muito longa, uns 15 minutos, para depois tomar outro matatu que me trouxe de volta a casa.
E assim é a vida nestas paragens! Podeis ver abaixo uma foto e o filme desta façanha (ainda que sem muita qualidade pois tomei a foto e o filme com o telemóvel). Só mesmo para ter uma ideia… porque saber bem o que é só mesmo experimentando em primeira pessoa!



video

Depois do vídeo, eis a foto! Aquilo que se vê sobre o lado esquerdo, branco é a porta da carrinha!


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quarta-feira, novembro 19

Entre os mais pobres e abandonados - Quénia

- Pobreza do Quénia em números -

Nem de propósito. Ao meu segundo dia no Quénia, eis publicado no principal jornal queniano, o Daily Nation, os resultados do estudo sobre a pobreza no país. Este estudo foi pedido pelo governo e é revelador do estado actual do país.
Apesar dos resultados apresentados apontarem para cerca de 51% da população queniana viver abaixo do linear da linha de pobreza (2 euros por dia para sobreviver), a verdade é que o país até não está assim tão mal quando comparado com outros países vizinhos. Mas deixem-me falar-vos muito resumidamente dos números.
Num universo de 36 milhões de habitantes, 16,6 milhões viviam abaixo do linear da pobreza em 2006 (data do estudo); em 2002 eram 18,2 milhões os pobres no Quénia.
A fórmula usada na classificação do índice de pobreza é uma combinação entre o dinheiro que cada pessoa necessita por dia para comprar os alimentos e as calorias ingeridas por dia nesses alimentos.
Uma pessoa a viver na área rural necessita de 1562 xelins (cerca de 16€) por mês para alimentação, ao passo que na área urbana necessita de 2913 xelins (cerca de 30€) por mês. Qualquer pessoa que não tenha esta quantia mensal para comprar alimentos é considerada uma pessoa pobre.
Apesar de tudo, a economia tem vindo a crescer cerca de 6% ao ano nos últimos 5 anos. Algumas medidas que ajudaram a este crescimento e redução dos níveis de pobreza foram o facto de se implementar finalmente a educação primária gratuita, bem como a remoção de impostos e taxas nos hospitais, especialmente no caso da malária e serviços de maternidade. Isto permitiu que mais quenianos tivessem acesso aos medicamentos.
Mas os números são duros. Os conselhos mais pobres do país encontram-se entre a tribo dos Turkana onde 96-97% da população é considerada pobre. São ao todo cerca de 450 mil pessoas malnutridas nesta área onde nós, os Combonianos, temos 2 missões, sendo os únicos missionários católicos a trabalhar nesta região juntamente com os Missionários de Guadalupe. As missões localizam-se em Lokori e Nakwamekwi.
Nos 6 conselhos mais pobres do país habitam cerca de 1,2 milhões de pessoas pobres.
Segundo as organizações de saúde mundial uma pessoa necessita de pelo menos 1830 calorias diárias extraídas dos alimentos que ingere. Os cerca de 51% de quenianos pobres não conseguem mais do que 1261 calorias por dia, o que faz deles pessoas realmente necessitadas.
Nas áreas rurais o número de pessoas desnutridas é de 57% e nas cidades é de 39%. Só na cidade de Nairobi, a capital do país, existem cerca de 600 mil pessoas desnutridas.
Outras áreas onde os Combonianos trabalham, como entre os Pokot, concretamente no conselho de Kapenguria, o índice de pobreza é de 70% e em Kacheliba, concelho onde vou trabalhar, o índice de pobreza é de 62%.
Ainda assim só me apetece mesmo louvar o Senhor por, mais uma vez, estarmos aqui no Quénia a seguir as pegadas do carisma de S. Daniel Comboni: Salvar a África com a África sempre enviados aos mais pobres e abandonados. E nós estamos entre os mais pobres deste país. Bendito seja Deus!
Fonte dos dados sobre a pobreza no Quénia: Diário do Quénia “Daily Nation”, pags. 1 a 4 – edição impressa. Disponível online em: http://www.nation.co.ke/

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terça-feira, novembro 18

Por fim... eis-me de regresso ao Quénia!

Regresso anunciado ao país que transformou a minha vida!

Viajamos a mais de 800km por hora. Deixei Zurique com chuva e frio. Depois de 4 horas de voo, sobrevoamos já a terra querida de Comboni: África. Lá em baixo só vemos areia. Estamos a atravessar o deserto do Saara. Olho e vejo trilhos marcados na areia escaldante. E a minha mente voa até ao tempo em que Comboni atravessou estas mesmas areias sentado num camelo… é verdade! Hoje os missionários têm voos mais altos… graças a Deus!
Para trás estão algumas horas de viagem e sobretudo várias horas de sono atrasado e devido à cama! Cheguei a Genebra, a minha primeira escala, pelas 11 horas da noite. Em pouco mais de 1 hora quase não havia viva alma naquele aeroporto. Encerra durante a noite e quem está em trânsito tem que encontrar por ali umas cadeiritas e bom… dormir o que puder e como puder… Eu fiz companhia a uns trabalhadores que mudavam os tectos falsos do “hall” das chegadas do aeroporto. Foi uma maneira de ficar desperto e ao mesmo tempo pôr o olho na bagagem que levo comigo… não fosse o diabo tece-las!!!! Aí esperei 6 horas para de novo embarcar para um voo de 30 minutos até Zurique. Daí, finalmente, tomaria o voo de regresso à terra que me tocou evangelizar. Saí de Zurique pelas 9.30 da manhã de hoje e já não falta tudo!
A mente está já no lado de lá: são mais 4 horas e já lá estamos! Mas… o coração ainda custa a despegar do que ficou para trás. Ainda remordem na minha mente as caritas felizes mas já cheias de saudade na missa de ontem lá na terra. Por muito que a alegria esteja a inundar o meu coração neste momento, porque de facto está, esse sentimento bem nosso, bem português, a saudade é a que mais nos atraiçoa em determinados momentos.
Porém, a mão de Deus é magnifica! E esta é sem dúvida, uma viagem abençoada. Para além da surpresa que os amigos e familiares tiveram comigo ao ir despedir-se de mim ao aeroporto, ficava ali a primeira marca de que este partir é sem dúvida vontade de Deus. Para variar, tinha abusado no limite do peso que me foi concedido… e já me tinham feito um jeitinho! Mas, pensei: Deus é grande! Ele saberá dar a volta a isto… E assim foi! Devia pagar pouco mais de 200 euros pelos 7 quilos a mais! Conversa daqui, conversa dali, mais um pedido e um implorar e não é que o que parecia impossível, assim, sem mais e de repente ficou resolvido?! “Sr. Padre, pode ir em paz! O problema está resolvido! Não paga nada!” Deus é grande de facto!
Escrevo-vos ainda a algumas horas da chegada à terra prometida a que Deus me envia, mas quando lerdes esta mensagem terei já pisado, de novo e depois de 6 anos, a terra querida de muitos missionários.
“Não tenhais pena de mim que vou fazer aquilo que me faz muito feliz!” Foram essas as palavras com que me despedi de todos vós. Sou feliz por partir. Não retira a dor da separação física, do distanciamento visual, mas também o partir tem de facto esse encanto. Tem mais valor. Tem mais força e mais sentido. Só a força de Deus, do Deus de amor que enche o nosso coração, pode ser mais forte que todos os sentimentos de saudade. E é só por Ele e por causa d’Ele que temos as energias e as forças de partir. Se não é a Sua força, a Sua graça, que todos nós pedimos para mim e para todos os missionários, não seriamos capazes de deixar pai e mãe, irmão e irmãs, casa, lar, e tudo o mais.
Quero, numa simples palavra agradecer-vos a todos do coração por tudo o que vivemos nestes últimos meses juntos na paróquia, juntos na freguesia, entre amigos… trago-vos no coração e deixei um pedacinho de coração em cada um de vós. Sei que não vou só! Aqui ides todos bem comigo a meu lado. Que o Deus do Amor, vos abençoe com tudo o que mais desejais da Sua graça para a vossa vida. Bem hajam! Obrigado!

Por fim… de novo no Quénia!
Depois de 6 anos e 7 meses eis-me de regresso. Quénia, o país que ficou sempre no meu coração desde a minha partida em Abril 2002. Quénia… esse lugar na África do leste que agora reencontro.
À chegada ao aeroporto havia novidades. O lugar é o mesmo de há 11 anos, aquando da minha primeira chegada. A arrumação e a limpeza é que é diferente. De qualquer das formas damo-nos conta de ter entrada num outro mundo, desde as pessoas que nos rodeiam, até ao simples facto de neste país se conduzir do lado direito. No caminho até a casa dos Missionários Combonianos nada de muito diferente desde 2002: um trânsito maluco, estradas esburacadas mas ainda assim transitáveis para os “matatus” encontrarem um caminho diferente do resto dos condutores… À minha espera estavam caras conhecidas. Colegas que já aqui estavam a trabalhar há 6 anos atrás. Senti-me em casa. Só mesmo o facto de não ter encontrado a minha mala no aeroporto podia estragar uma chegada ansiada. Mas não estragou… pelo menos para já, uma vez que espero amanhã poder reavê-la, juntamente com toda a roupa que tinha e vinha nessa mala. Ainda bem que trazia umas cuequitas na mala de mão… junto com os discos duros do computador!!! Hoje já fizeram jeito.
De todos os modos, esta manhã tive que ir às compras… não tinha nada para higiene pessoal e foi a oportunidade de sair à rua. Fui a um shopping center que fica a uns 20 minutos daqui a pé. Uma estrutura nova… algo de novo, finalmente! Porém, somente uma pequena percentagem dos habitantes de Nairobi têm possibilidades de comprar neste hipermercado à maneira europeia, embora que ainda assim bastante longe dos nossos Shopping Centers.
Fiquei surpreendido com o preço de custo de vida nestes hipermercados. Um quilo de farinha (uma das comidas base para os quenianos) custava nesse supermercado o equivalente a 1,5€. Um preço bastante elevado para a maioria dos habitantes de Nairobi que vivem com menos de 2€ por dia!
Era verdade! Estava mesmo de regresso ao Quénia. Montes de pessoas nas ruas, caminhando para aqui e para ali, os “matatus” (transportes públicos) apinhados de gente com os mais variados sons nas suas buzinas, tentando cativar os caminhantes… há sempre lugar para mais um! “Matatus” de mil e uma cores, um trânsito infernal num sistema de tráfico do “salve-se quem puder”, polícia na rua, sempre dois a dois, levando consigo armas grandes e bem visíveis (G3, AK47 e espingardas). Kweli, diz-se em swahili, é verdade! Estou mesmo de regresso!
Ao final do dia, chegava o meu provincial que deveria trazer-me notícias no que toca ao meu futuro. Assim foi. E, como sempre, o homem põe e Deus dispõe. Na próxima semana, muito provavelmente logo na 2ª feira, irei com ele para a minha futura missão junto dos Pokot. 600km de buracos em estrada alcatroada há muitos anos atrás, mais cerca de 80km em estrada de terra batida… pela encosta da montanha abaixo: a missão será de Kacheliba! Pelo menos até final de Dezembro será ali que estarei. Depois irei para o curso da língua Swahili no norte da Tanzânia até Abril. Iremos 4 combonianos para esse curso o que é uma boa notícia para quem pensava que tinha que ir fazê-lo sozinho!
Amanhã de manhã, se Deus quiser, irei tratar de toda a documentação necessária para poder estar no país como residente… e ou muito me engano ou teremos umas horas de filas e esperas desesperantes nos escritórios governamentais em que se tratam destes documentos. Em Portugal são uma chatice, mas aqui no Quénia… bom… dá tempo para ficar chateado e deixar de ficar pois não adianta muito que o ritmo é sempre o mesmo nos funcionários públicos. É um mal geral em todo o mundo… ao que parece! Ainda ontem, para conseguir o vista de turista no aeroporto, necessário para permanecer no país, foi quase 1 hora de espera… para depois não encontrar a minha mala! Hakuna matata (não há problema)! Estamos no Quénia!
Bom, e é esta a minha nova vida! Ainda no começo e a organizar-se pouco a pouco. Continuo a contar com as vossas orações que sinto bem no meu coração do mesmo modo que continuo a rezar também por todos vós… algumas pessoas que me pediram orações particulares! A todos recordo e entrego ao Senhor, Pai de Amor, nas minhas orações.
Kwaheri, tutaonana! Adeus, até à próxima! E não se esqueçam que olhamos para mesma lua e para o mesmo sol. N’Ele nos encontramos!

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