quarta-feira, fevereiro 27

Quénia: perguntas e respostas fundamentais

Cerca de 1500 pessoas terão sido mortas nos confrontos ocorridos no Quénia, depois das eleições presidenciais. Aqui estão algumas perguntas e respostas que podem ajudar a entender o estado a que chegou este país, anteriormente, um dos mais estáveis da região.

A Comissão de eleições declarou o presidente Mwai Kibaki o vencedor. Mas os observadores da União Europeia afirmaram que as eleições foram fraudulentas. A afluência às urnas numa das regiões foi registada mesmo a 115%.

O que está por detrás da violência?
O "gatilho" imediato que causou a violência foram os resultados eleitorais - apoiantes de Raila Odinga, o principal oponente ao presidente Kibaki e líder da oposição, acreditam que o seu líder foi roubado nos resultados eleitorais.
Mas a tensão étnica, que tem marcado a política queniana desde a independência em 1963, é largamente aceite como a causa real que está por detrás da violência.
Com o compadrio e a corrupção ainda muito comum no país, muitos quenianos acreditam que se um dos seus familiares (ou da sua tribo) está no poder, poderão beneficiar disso directamente, por exemplo através de um familiar próximo conseguir um lugar na função pública.
As actuais tensões podem ser escrutinadas a partir dos anos 90, quando o então presidente Daniel Arap Moi foi forçado a introduzir o sistema multipartidário no país.
Membros do grupo étnico kalenjin desse então presidente Arap Moi - o grupo dominante na região da provincia do Rift Valley - sentiram-se ameaçados por esta situação.
Desde então os kalenjin têm lutado por um sistema federal com maior autonomia económica e apoiaram Raila Odinga desde essa altura até à sua candidatura às eleições de Dezembro 2007.
Raila Odinga, da comunidade Luo, tem um vasto apoio de base entre vários grupos étnicos e considerou-se ele mesmo o grande desafiador do sistema político queniano. Durante a sua campanha eleitoral prometeu actuar e agir nas extremas diferenças sociais e de nível de vida entre os vários grupos étnicos do Quénia.
O presidente Kibaki, que em 2002 acabou com mais de duas décadas de reinado do partido de Arap Moi, Kanu, no meio de muito aclamadas e correctas eleições, prometeu desenvolvimento económico. O conceito de um sistema federal provoca respostas emocionais nos seus apoiantes, acreditando que é um meio para apoiar violência étnica.
No seus 5 anos de governo a economia cresceu de forma firme e estável, mas a maioria dos quenianos não sentiram ainda os efeitos desse crescimento económico.
Nos superpopulados bairros de lata de Nairobi, os residentes têm que lidar com gangs violentos, a inexistência de saneamento básico (as pessoas têm de usar sacos de plástico como casas de banho e atiram-nos depois pela janela fora) e muitas falhas de electricidade.
Kibaki depende fortemente dos votos dos Kikuyus, o grupo étnico mais numeroso do país, tendo ainda o suporte de outras comunidades mais pequenas.

Quem está envolvido na violência?
Muitas pessoas leais a Odinga, de vários grupos étnicos, atacaram os Kikuyus que vêem como apoiantes de Kibaki.
Em Kisumu no oeste, a terra mãe de Odinga do Movimento Democrático Laranja (ODM), e em Mombasa na costa do Índico, a violência tem sido espontânea envolvendo banalização do comércio e casas familiares.
Mas na Provincia do Rift Valley - que testemunhou a maior parte do derramamento de sangue, incluindo 30 pessoas queimadas numa igreja onde tinham procurado refúgio - tem-se visto um elemento mais orquestrado de violência.
Testemunhas locais em Molo afirmam ter visto camiões carregados de gangs da etnia Kalenjin, armados com arcos e flechas e alguns com armas, a serem levados a áreas de Kikuyus para incendiar as casas. A maioria dos quenianos têm ficado chocados com a violência e preferiam o diálogo, uma vez que os comicios políticos são notoriamente convocados para violência.

O que estão então a fazer os políticos?
O ex-secretário geral das Nações Unidas Kofi Annan tem estado a tentar conseguir um acordo político há mais de um mês, baseado numa ideia de partilha de poder. Ambos os lados no conflito concordaram na criação do cargo de primeiro ministro, que seria ocupado por Odinga.
Porém, estão profundamente divididos no que respeita a que poderes este novo cargo deveria ser investido.
Os da oposição (ODM) querem o primeiro ministro a ter mais poderes executivos, com o presidente a ser reduzido a uma figura mais ceremonial.
Os apoiantes de Kibaki querem precisamente o oposto.
Entretanto, os quenianos e a comunidade internacional estão a esgotar a sua paciência e querem que os políticos voltem a governar o país em vez de se degladearem.

Porque é que o Quénia é importante para o resto do mundo?
Parece que o mundo foi apanhado mais ou menos de surpresa quando a crise estalou no Quénia, país que tem sido sempre tido como um oasis na região no que diz respeito à estabilidade com a actividade turistica num crescimento.
Mas o Quénia é estratégicamente importante: o Quénia acolheu muitas cimeiras e encontros para a paz para países vizinhos e muitas organizações humanitárias têm lá as suas bases operacionais.
Pressão internacional foi crucial para conseguir que o antigo presidente Moi fosse deposto antes das últimas eleições.
E países do ocidente ameaçaram sanções contra aqueles que impeçam o estabelecimento de um acordo de paz.

Pode o presidente Kibaki apoiar-se na lealdade das forças de segurança?
A policia - que conseguiu controlar e bloquear os ânimos desde que a violência começou - é uma mistura de grupos étnicos e por isso, como força, não é credível que mostre favoritismo político.
O exército e a Unidade Geral de Serviços Paramilitares (PGSU - uma espécie de polícia de intervenção), porém, têm um número significativo de soldados Kalenjin - desde os dias de Moi no poder - e os Kalenjins têm-se posto do lado da oposição (ODM) na corrente crise.
Analistas dizem que isto deixa o exército e a PGSU com lealdades divididas. Mas o chefe geral das polícias, General Jeremiah Kianga, é visto como alguém em quem se pode confiar e tem-se distanciado da política.

Distribuição dos grupos étnicos

Como votaram as províncias

Industria do Turismo

Fonte: BBC

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