domingo, janeiro 4

Ano novo mas… os problemas de sempre!

Viajei ontem, dia 2 de Janeiro, desde a missão que me tocou em terras Pökot, Kacheliba, até Nairobi. Dentro de uma semana devo partir com outros três colegas meus para a Tanzânia. Iremos estudar durante quatro meses a língua swahili, muito necessária para trabalhar nestes países da África do leste.
Esta manhã, depois do merecido descanso das 9 horas de viagem com cerca de 500km percorridos por estradas ou por caminhos com o nome de estradas, pude ler com calma o jornal diário do Quénia, coisa a que não me é possível aceder em Kacheliba. E… bom! Ano Novo… mas os problemas são os de sempre.

A noite de 31 de Dezembro 2008 na missão de Kacheliba era tudo menos a habitual de todos os dias. Era evidente que esta era uma noite diferente. Logo que anoiteceu, começa-se a ouvir a celebração de fim de ano nos altifalantes da Igreja Independente Africana no centro de Kacheliba. Apenas a um escasso quilómetro da nossa missão. Nós, católicos, tínhamos já celebrado ao final da tarde desse dia. Agradecemos ao Senhor Deus Töroröt Papo, todas as bênçãos e benefícios do ano de 2008, pedindo-lhe também as maiores bênçãos para o ano novo, sempre aguardado com muita esperança. Porém, ao acordar do outro dia, do outro ano, a esperança é confrontada com os problemas de ontem: um ano com colheitas muito fracas, falta de acesso a água potável, começo do tempo seco que produz falta de alimentos, falta de dinheiro para enviar os filhos e filhas para o começo do novo ano escolar…
No entanto, a esperança dos povos africanos é algo de único e muito peculiar. Para uma grande maioria é a esperança que os mantém vivos. A única coisa que lhes resta. Ainda que saibam que pouco pode mudar, tantas vezes! Mas o testemunho e a confiança que nos dão, o não baixar os braços diante das dificuldades, diante dos problemas de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, é algo que nos faz pensar no significado da vida, no significado e razão de viver.
O som dos cânticos animados na Igreja, a pregação feita bem ao estilo protestante por um lado, bem como os sons da típica e pacífica noite Pökot por outro traziam-nos na expectativa do raiar de um novo ano. Ao longe, nos intervalos das celebrações da Igreja Protestante, escutava os sons celebrativos dos cânticos Pökot, ao redor da fogueira, no meio da escuridão da noite. Misturado com os sons humanos, percebia os sons dos animais, das cabras e das ovelhas. Quase como que também eles fazendo a sua festa de passagem de ano.
Chegada a meia noite, o começo do Ano Novo, houve explosão de alegria no ar. Gritos, cantos, tambores, todo o tipo de sons e expressões. Explosão de alegria por causa da esperança e das bênçãos que cada dia e cada noite são para o povo Pökot. No entanto, para muitos outros Pökot, mais no interior das suas aldeias, esta noite é apenas e tão só uma mais como tantas outras… é que isto de festas de passagem de ano é algo mais ocidental!!!

No dia seguinte, dia 1 de Janeiro, tocou-me ir com o pároco da missão a uma das nossas capelas celebrar a Eucaristia. O lugar chama-se Simotwa. Uma comunidade a cerca de 25 minutos do centro da missão. Porém, uma comunidade que durante o tempo das chuvas fica completamente isolada devido ao largo rio que tem que ser atravessado. Neste tempo seco a pickup consegue percorrer os cerca de 300mt de areia no leito do rio para depois chegar à capela. Porém, dizia-me o meu colega P. António, no tempo das chuvas temos que vir a pé, isto se pudermos e conseguirmos atravessar o rio. Caso contrário, a comunidade fica isolada durante meses. O grande problema é sempre encontrar o caminho correcto para a aldeia. Isto porque, seja no tempo seco seja no tempo das chuvas, os trilhos e os caminhos desaparecem pura e simplesmente. Há que adivinhar mais ou menos a olho a correcta direcção, para depois ter mesmo que inventar os trilhos e caminhos a percorrer.
Depois de esperarmos cerca de uma hora e meia para que os cristãos chegassem para a celebração (algo que é da praxe!) os cristãos desta comunidade mostraram a sua alegria pela vinda dos missionários: ofereceram-nos um bode! E esta é uma oferta valiosa. Os animais são para os Pökot o seu meio de sustento nas relações sociais e humanas. Seja para vender para conseguir dinheiro para comida, para tratamentos médicos ou mesmo para enviar os filhos à escola (algo que era bastante raro em anos anteriores).
Esta comunidade tem a sorte de a missão ter ali construído uma escola primária que visitámos enquanto esperávamos pela chegada das pessoas. Uma escola bem equipada para ter sido construída no meio do nada. Uma escola que é o orgulho da aldeia. Uma escola que tem as oito turmas que compõem a educação primária neste país.
Regressámos à missão com a certeza de que tínhamos celebrado de novo a esperança de um amanhã diferente. Um amanhã e uma esperança que não sabemos quando se concretizará. Mas uma esperança que nos faz acreditar que algo virá e mudará, ainda que este país pareça estar a levantar-se paulatinamente dos problemas que o assolaram há um ano atrás, depois das eleições mais sangrentas na curta história do Quénia desde a sua independência em 1963.

Ontem, ao longo da viagem, pude avistar ao longe vários campos de refugiados internos causados pela violência pós-eleitoral que há um ano deixou em dois meses, segundo números oficiais, 1133 mortos e cerca de 350 mil pessoas refugiadas no seu próprio país. Como é que, depois de um ano, as autoridades e o governo deste país não resolveram ainda o problema destes milhares de quenianos que foram forçados a fugir das suas casas e áreas de residência sob pena de serem mortos? No jornal de hoje é ainda referido que as vítimas da Igreja incendiada em Eldoret onde morreram 35 pessoas, entre elas algumas crianças, estão ainda na morgue do hospital desta mesma cidade. Esperam que os testes de ADN estejam finalizados. Esses testes destinam-se a identificar as vítimas, uma vez que ficaram irreconhecíveis. Este episódio que correu as televisões de todo o mundo no dia 1 de Janeiro de 2008 ainda não foi encerrado. As famílias, depois de um ano, continuam à espera dos corpos dos seus familiares para proceder às cerimónias fúnebres, tão importantes para a paz dos africanos depois da morte.
A violência pós-eleitoral do ano passado é ainda a responsável por uma lei sobre os meios de comunicação social que acaba de ser assinada ontem pelo presidente do país. Segundo os críticos, esta lei dá poderes aos políticos de governar sobre toda a indústria dos média. Podem, inclusive, mandar cortar editoriais e conteúdos programáticos dos jornais e televisões em ocasiões de emergência. Sob as mesmas circunstâncias, podem mesmo mandar a polícia destruir computadores e máquinas de imprensa escrita e televisiva. Segundo muitos, este é o fim da liberdade de imprensa no país, fazendo-os acreditar que voltamos aos tempos da ditadura até 2002 sob o governo de Daniel arap Moi. Problemas de sempre… apesar do ano novo!

No meio de todos os tumultos, um caso feliz… aquele que tantas vezes mantém viva a confiança e esperança destes povos. No bairro de lata de Kibera, o maior de todo o país, apenas aqui ao lado da casa provincial onde me encontro neste momento, surge uma notícia feliz. Doze crianças pobres deste bairro acabam de receber cada um bolsas de estudo de uma organização não governamental para prosseguir os seus estudos na escola secundária. Razão: no ano passado, ainda durante toda a tensão e conflito pós-eleitoral, estes 12 adolescentes, em condições degradantes de insegurança e onde tudo parecia tornar-se num colapso, conseguiram pontuações entre os 100 melhores estudantes nos exames nacionais finais da escola primária. Um caso de sucesso que só confirma a renovação da esperança que estes povos nunca parecem perder… apesar de tudo e acima de tudo!

P. Filipe Resende, mccj
Relatos da Missão em Kacheliba
North Pökot – Quénia

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quarta-feira, novembro 19

Entre os mais pobres e abandonados - Quénia

- Pobreza do Quénia em números -

Nem de propósito. Ao meu segundo dia no Quénia, eis publicado no principal jornal queniano, o Daily Nation, os resultados do estudo sobre a pobreza no país. Este estudo foi pedido pelo governo e é revelador do estado actual do país.
Apesar dos resultados apresentados apontarem para cerca de 51% da população queniana viver abaixo do linear da linha de pobreza (2 euros por dia para sobreviver), a verdade é que o país até não está assim tão mal quando comparado com outros países vizinhos. Mas deixem-me falar-vos muito resumidamente dos números.
Num universo de 36 milhões de habitantes, 16,6 milhões viviam abaixo do linear da pobreza em 2006 (data do estudo); em 2002 eram 18,2 milhões os pobres no Quénia.
A fórmula usada na classificação do índice de pobreza é uma combinação entre o dinheiro que cada pessoa necessita por dia para comprar os alimentos e as calorias ingeridas por dia nesses alimentos.
Uma pessoa a viver na área rural necessita de 1562 xelins (cerca de 16€) por mês para alimentação, ao passo que na área urbana necessita de 2913 xelins (cerca de 30€) por mês. Qualquer pessoa que não tenha esta quantia mensal para comprar alimentos é considerada uma pessoa pobre.
Apesar de tudo, a economia tem vindo a crescer cerca de 6% ao ano nos últimos 5 anos. Algumas medidas que ajudaram a este crescimento e redução dos níveis de pobreza foram o facto de se implementar finalmente a educação primária gratuita, bem como a remoção de impostos e taxas nos hospitais, especialmente no caso da malária e serviços de maternidade. Isto permitiu que mais quenianos tivessem acesso aos medicamentos.
Mas os números são duros. Os conselhos mais pobres do país encontram-se entre a tribo dos Turkana onde 96-97% da população é considerada pobre. São ao todo cerca de 450 mil pessoas malnutridas nesta área onde nós, os Combonianos, temos 2 missões, sendo os únicos missionários católicos a trabalhar nesta região juntamente com os Missionários de Guadalupe. As missões localizam-se em Lokori e Nakwamekwi.
Nos 6 conselhos mais pobres do país habitam cerca de 1,2 milhões de pessoas pobres.
Segundo as organizações de saúde mundial uma pessoa necessita de pelo menos 1830 calorias diárias extraídas dos alimentos que ingere. Os cerca de 51% de quenianos pobres não conseguem mais do que 1261 calorias por dia, o que faz deles pessoas realmente necessitadas.
Nas áreas rurais o número de pessoas desnutridas é de 57% e nas cidades é de 39%. Só na cidade de Nairobi, a capital do país, existem cerca de 600 mil pessoas desnutridas.
Outras áreas onde os Combonianos trabalham, como entre os Pokot, concretamente no conselho de Kapenguria, o índice de pobreza é de 70% e em Kacheliba, concelho onde vou trabalhar, o índice de pobreza é de 62%.
Ainda assim só me apetece mesmo louvar o Senhor por, mais uma vez, estarmos aqui no Quénia a seguir as pegadas do carisma de S. Daniel Comboni: Salvar a África com a África sempre enviados aos mais pobres e abandonados. E nós estamos entre os mais pobres deste país. Bendito seja Deus!
Fonte dos dados sobre a pobreza no Quénia: Diário do Quénia “Daily Nation”, pags. 1 a 4 – edição impressa. Disponível online em: http://www.nation.co.ke/

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quinta-feira, setembro 25

Entre 2005 e 2007, aumentou em 75 milhões o número das pessoas que no mundo sofrem a fome, elevando o total a 923 milhões de pessoas.
Veja o filme desta notícia abaixo ou clique aqui para aceder à notícia escrita.

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terça-feira, setembro 25

Petição à Assembleia República contra Pobreza

Veja aqui as razões do porquê assinar esta petição!
Portugal agradece... e os que necessitam também!
Não deixe que sejam só os políticos interesseiros a mandar!

A sua assinatura
pode mudar uma vida!



e sobre o lado direito clica para assinar
até 30 de Setembro!

Apresentação retirada de www. ecclesia.pt
(Programa Ecclesia)

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terça-feira, maio 22

À consideração do Primeiro Ministro e "Associados Governamentais"


A VERGONHOSA situação de pobreza em Portugal

Dentro de poucos dias, a Comissão Nacional Justiça e Paz irá realizar uma conferência sobre o tema “Por um Desenvolvimento Global e Solidário – Um Compromisso de Cidadania."

Os números são ALARMANTES... tendo em conta que dois anos de governação são considerados muito positivos pelos nossos governantes. Aí ficam os dados divulgados no relatório sobre a "Caracterização e evolução da pobreza em Portugal." Julge por si!

- "a pobreza assume em Portugal uma incidência muito preocupante, atingindo mesmo um dos valores mais elevados, no contexto da União Europeia"

- em Portugal, cerca de 20% das pessoas (cerca de 2 milhões) detinham, em 2005, um rendimento disponível familiar equivalente, depois das transferências sociais, abaixo dos 60% da mediana nacional. Esta taxa de risco de pobreza, apenas era ultrapassada pela da Polónia e da Lituânia (21%), sendo igual às da Irlanda, Grécia e Espanha.

- a elevada taxa de pobreza registada em Portugal está associada "a uma desigualdade de rendimentos, que é a mais alta de todos os países da UE" a 25.

- "a pobreza infantil assume uma incidência muito elevada, hipotecando o futuro das crianças. Acresce que as taxas de abandono escolar, apesar de alguma redução, se mantêm em níveis muito preocupantes."

- a situação de pobreza infantil é particularmente gravosa entre as famílias monoparentais (34%) ou nas famílias mais numerosas (30%)

- Manuela Silva, presidente da Comissão, considera que "não é tolerável que em Portugal persistam níveis de pobreza tão elevados como presentemente sucede e que o crescimento económico que o País tem conhecido ao longo dos anos não tenha servido para melhorar as condições de vida de cerca dos 20% da população cujos rendimentos ficam abaixo do limiar de pobreza."

Mas há mais... infelizmente:
- Para aceder à notícia na Ecclesia: Aqui.
- Para aceder ao Relatório da CNJP: Aqui.

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